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Monopólio da Violência

3 comentários

Faz pouco, indignei-me com o que aconteceu na Cracolândia, aquele “tratamento” baseado na dor e no sofrimento; agora, a violência cometida em Pinheirinhos. Como estou viajando, não tenho tempo de comentar as conexões entre tais acontecimentos. Assim, recomendo a leitura desse texto (aqui).

Ao mesmo tempo, houve violência contra estudantes no Piauí e no Recife (aqui) – na terrinha, o “tratamento” dado aos estudantes foi realizado por um governo dito de centro-esquerda.

O monopólio da violência, paradigma do Estado Moderno, está sendo utilizado pela direita e pela esquerda. Nesse caso, o uso da violência é “técnico”, pois está embutido numa “formalidade jurídica”. O uso legal, assim, é neutro, porque elimina qualquer julgamento de valor; com isso, cria um permanente problema de legitimidade. É a imposição racionalizada da força (a razão pura da violência) , independentemente do regime de governo (sim, estamos numa democracia — diante de um cassetete, a democracia é “formal”). E o mais paradoxal é sua legalização jurídica, defendida como “direito” pelos governantes. É o direito da violência, cuja vítima não vale nada – há uma indiferença total quanto às consequências do uso do monopólio da violência do Estado. Não há espaço para perguntas banais: quem são as pessoas? Qual é a alternativa à violência? O que fazer com as vítimas? Elas não valem o sacrifício. Pode parecer um paradoxo, mas revela a violência que funda o Estado de Direito Moderno.

Numa sociedade desigual, como a brasileira, a violência é banalizada e se legitima na naturalização da desigualdade (já, já descobrirão o “gene” da pobreza). Quanto mais desigual uma sociedade, mais as possibilidades de autoritarismo atualizam-se no cotidiano. O apoio substancial da população paulistana às ações de limpeza social da Cracolândia é uma manifestação, ainda localizada e dirigida à ralé, dos monstros que habitam nossa “democracia liberal”.

Sementeiras
  1. Artur,
    Encontrei num dos autores que estou lendo agora (sobre gangues e bandos de jovens na América Latina, sob uma perspectiva das desigualdades/segregação/violência como marcas da democracia liberal), palavras muito melhores do que eu poderia escrever para participar da indignação (minoritária, mas ainda viva):

    ” (…), cette violence est due en premier lieu à tous ceux qui, de leur bureau de ministre, de directeur de l’urbanisme ou d’une banque interaméricaine décident, jour après jour, de découper les villes en se réservant les meilleures parts, celles d’où sont exclues les anciennes classes populaires, prolétarisées et précarisées à l’extrême, déblayées au bulldozer des quartiers à la réhabilitation rentable. Main basse sur la ville. On voit ça partout, mais c’est dans les pays du Sud que les villes ont développé une telle aptitude au démantèlement territorial(…) La métropole latino-américaine est le Léviathan du XXI siècle. Elle effraie même ceux qu’elle attire.(…)On préfère géneralement n’y rien comprendre et s’en remettre aux forces de police pour ramener un semblant d’ordre, ils chasseront la racaille, les commerçants baisserons leurs rideaux de fer, la nuit passera en silence. Nous n’aurons rien gagné en termes de paix, mais qui croit encore que l’on peut gagner une telle bataille?…” – Yves Pedrazzini. In: Mohammed/Mucchielli (2007, p. 303).
    Beijão

  2. Roubei para o Cazzo.

    :*

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