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Museu de Obscenidades

11 comentários

 

─ Reverennnndô! Reverennnndô!

─ Que escândalo é esse, Fiofó?

─ É a mãe!

─ Vai menino, deixa de ser besta. Diz logo, Joãozinho Furico.

─ É a mãe!

Voltei-me para minha ilustre visita e não me contive:

─ Tá vendo, Aninha! Aqui, tá todo mundo doido. Fala, seu Buraco de Agulha.

─ É a mãe! É a mãe!

─ Bobagem, Joãozinho, todo mundo sabe que você deu pro padre. Por que não assume?

─ Não dei. Foi ele quem me agarrou por trás. A pulso!

─ E o que você fazia lá na sacristia da Matriz da Torre?

─ Aprendendo a história de Davi e Golias com o padre Bó. E foi só um agarrão. Saí correndo que nem um condenado.

─ Tá bem, menino! E por que tá gritando desse jeito?

─ Doutor Quim Júnior tá chamando o senhor para a cirurgia espiritual. Já está tudo pronto.

─ Pois diga a ele que espere. Tô com uma visita importante que veio de longe. Daqui a pouco, chego lá.

De fato, havia convidado Ana Paula, essa flor de menina que é o orgulho da cidade de Jampa, para uma conversa profissional sobre o tal romance entre Hannah Arendt e o pilantra do Heidegger. Não se tratava de cartas, mas de cerca de vinte e duas fotos eróticas tiradas pelo casal, digamos assim, no calor da hora.

O álbum já era conhecido na Europa do pós-guerra. Havia sumido e muitos duvidavam de sua existência. Foi quando, milagrosamente, Ana Paula, filósofa e gente finíssima de João Pessoa, as descobriu num obscuro sebo local.

Desde a década de 1950, durante meu Doutorado em Roma, interessava-me pelo assunto. Meu professor de Teologia do Tronchismo, na Gregoriana, havia dito que Heidegger era o maior filosofo do vácuo sobre a terra. E citava alguns dos seus mais ilustres conceitos como, por exemplo:

E se o Ser, no seu estar-a-ser, faz o uso do estar a ser do homem? E se o estar-a-ser do homem assenta no pensar da verdade do Ser? Então, o pensar tem que poetar no enigma do Ser. Traz a madrugada do pensado à proximidade do há que pensar.

Enfim, tem gente que gosta!

Na época, tanto em Roma quanto em Paris, meninos e meninas, com um ar pálido e desolado, pensavam na existência do Ser enquanto bebericavam um vin chaud, de bar em bar, esperando pela hora de dormir em bando.

Nada contra!

Pra mim, Heidegger não passava de um oportunista da Filosofia do Ser e do Não Ser ou, quem sabe, do Vir a Ser ou do Já Foi.

Mas não convidei Aninha por causa disso. Além de querer conhecê-la pessoalmente, o que muito me honrou, precisava discutir a compra do álbum de fotografias da transa entre Arendt e o filósofo, que estava na posse da menina,  segundo ela própria afirmara ao Dr. Artur Perrusi.

Nosso Museu de Obscenidades, já bastante enriquecido com as obras de Gilberto Freyre, recebera uma verba do Prefeito de Bel-O-Kan e precisava de algo mais exuberante do que o nenhenhem freyriano. E, até mesmo, do cardosiano, do luliano e do dilmaniano.

─ E, então, Aninha! Trouxe as fotos? ─ Perguntei ansioso.

─ Trouxe, Reverendo. Mas tenho vergonha de mostrar. São muito obscenas.

─ Bobagem, minha filha. Todo sacerdote é especialista em obscenidades. Na verdade, a Religião é a menos importante delas.

─Mas, Reverendo, trata-se de uma verdadeira demonstração existencial do Kama Sutra.

─ Isso me lembra, Aninha, das aulas teóricas sobre o Sutra que eu ministrava no Convento da Torre, na Disciplina Ética Cristã. As noviças adoravam. Meu Deus, como o tempo passa tão rápido. Deixa eu ver, deixa eu ver!

Impressionante! Heidegger fazia uso do seu “estar-a-ser” no “vir-a-ser” de sua estudante. Não admira que ele tenha sido grande incentivador da JN (leia-se Juventude Nazista e, não, Jornal Nacional). Contudo, o que mais me surpreendeu foi a feiura ingênua, e um pouco desengonçada, de Hannah, embora parecesse emocionada e entusiasmada com a chegada da “madrugada do pensar” no seu “já foi”.

Talvez tenham sido tais cenas vividas que inspiraram a futura filósofa em sua tese sobre a banalidade do mal, quando escrevia sobre o julgamento de Eichmann.

Duvido um pouco. Afinal de contas, uma suruba universitária tão intensa e bela não poderia mesmo lembrar nada do horror nazista.

Nem mesmo Heidegger!

No final da conversa, minha linda visitante recusou-se a vender as fotos ao nosso Museu. Antes, preferiu doá-las sob a condição de que fossem usadas na educação das criancinhas da Comunidade.

Fiquei pensando no Ser e no Tempo. O Ser, essa coisa maravilhosa, que flui eternamente do Éden.

O Tempo, essa desgraça que me corrói!

Torcedor
  1. Reverendo, só mesmo o senhor para me fazer rir após uma derrota vergonhosa do Santa Cruz.

    Consta que Gilberto Gil é leitor e fã de Heidegger. É só escutar, ou ler, uma de suas ininteligíveis entrevistas para constatar que isso é verdade.

    O “estar-a-ser” de um nazi no “vir-a-ser” de uma judia daria um pornô de época sensacional.

    Ana Paula, libera as fotos (hehehe).

    • Ducaldo as fotos já foram doadas pro museu. Agora só o Reverendo poderá revelá-las.
      E quanto a Heidegger meu orientador tenta me convencer em vão que aquilo não é só um mero jogo de palavras e uma retórica vazia, bem ele ainda não me provou o contrário.
      Frases como “o nada nadifica” e “a coisidade da coisa” são uma afronta ao leitor.
      P.S -> Wittgenstein também achava! haha
      Abraços pra você e um beijo grande pro Reverendo!

      • Uma pequena amostra do estrago que a leitura de Heidegger pode fazer aos incautos: “Heidegger considerava o seu método fenomenológico e hermenêutico. Ambos os conceitos referem a intenção de dirigir a atenção (a circunvisão) para o trazer à luz daquilo que na maior parte das vezes se oculta naquilo que na maior parte das vezes se mostra, mas que é precisamente o que se manifesta nisso que se mostra. Assim, o trabalho hermenêutico visa interpretar o que se mostra pondo a lume isso que se manifesta aí mas que, no início e na maioria das vezes, não se deixa ver.”

        Com perdão da má palavra, que M**DA é essa? Vai ser obscuro assim em caixa-prego.

        Abraços, Ana Paula.

    • Ducaldo as fotos já foram doadas pro museu. Agora só o Reverendo poderá revelá-las.
      E quanto a Heidegger meu orientador tenta me convencer em vão que aquilo não é só um mero jogo de palavras e uma retórica vazia, bem ele ainda não me provou o contrário.
      Frases como “o nada nadifica” e “a coisidade da coisa” são uma afronta ao leitor.
      P.S -> Wittgenstein também achava! haha
      Abraços pra você e um beijo grande pro Reverendo!

      • Irmãzinha,
        Wittgenstein tinha razão. Especialmente quando se sabe que aquilo que reproduzi não passava de um poema da juventude, segundo confissão do próprio Heidegger, em homenagem ao maior lider europeu de todos os tempos. Depois de Julio Cesar, talvez, embora maior do que Napoleão. Minha benção coisificante do nada vezes nada.

  2. Eita! Meu nome ficou parecendo marca de remédio.

  3. Irmão Ducaldo:
    As fotos estão sendo restauradas pelo nosso Laboratório. Elas serão expostas nas Arquibancadas do Arrudão, logo após a próxima derrota de nosso querido Santinha. Teremos ainda uns dez anos de sofrimento!
    Minha bençao pessimista.

  4. Reverendinho! Que saudade!

  5. Pois eu comecei a ler essas coisas depois que Artur disse que não tinha interior. Tó pra vocês:

    http://quecazzo.blogspot.com/2012/01/hubert-dreyfus-35-licoes-sobre-ser-e.html

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