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Bebendo sangue de canequinha

(pra quem quiser ler outras estórias de Freud e Orravan: um, dois, três, quatro, cinco…)
Segue um trecho da biografia de Freud escrita por J. B. Barnes, extraído do volume 35 da sua monumental “Crônicas dos homens de ciência do século XX”.
Ali o biógrafo resgata um episódio aparentemente banal da juventude de Freud em seu convívio com o amigo Orravan. No entanto, graças ao seu olhar meticuloso, Barnes acredita ter encontrado nessa singela passagem, o embrião de muitas das idéias que imortalizaram Freud.
Lembro aos esquecid@s quem é ou quem foi J. B. Barnes — como ninguém sabe se já morreu, pois se escafedeu após uma visita ao cemitério de Pere Lachaise, prefiro a dúvida à certeza de sua ausência no mundo dos vivos. “É um clássico”, disse Nelson Rodrigues. “É um ímpio. Espero encontrá-lo no Inferno”, desabafou Ratzinger, o Papa. De todo modo, produziu uma renomada biografia de Freud. Escreveu também uma biografia, jamais publicada, de Orravan, amigo de Freud e grande bebedor de leite de gironda, o que já diz muito de sua importância. Segundo Barnes, a noção freudiana de ID foi construída a partir do perfil de Orravan. A biografia, infelizmente, foi censurada pela Internacional da Psicanálise, ainda no tempo da gestão de Alfred Ernest Jones. O escrito sofreu, depois de tanto tempo, a crítica roedora dos ratos, conforme alguns lacanianos, esses agentes duplos do freudismo.
Ah, sim, Barnes foi um antigo center back do Liverpool. Fez um famoso dueto na defesa com Longworth.
Boa leitura.
___________
por J. B. Barnes,
Freud estava ansioso. Sempre ficava assim quando marcava uma bebedeira com Orravan. E aquela tarde seria dedicada a isso, copos e copos de leite de gironda. Caminhou até a casa do amigo, mas foi surpreendido por uma estranha concentração de pessoas. Um padre, mulheres com caras de beatas, gente passando, afastando móveis e uma certa agitação no ar. Orravan parecia contrariado e a mãe dele distribuía ordens, como de costume.
Freud percebeu aquela presença e sentiu seu coração aquecer. Sempre tivera um fraco pela mãe de Orravan. O tempo poderia passar que ele ficaria ali, sem reclamar, apenas olhando a sua movimentação e seu jeito autoritário de tocar a vida e de organizar aquele estranho espetáculo. Também estava ali Noêmia, tia de Orravan e mística em alto grau. Devota e crente fervorosa, tia Noêmia era católica, era espírita, era carismática e, nos últimos tempos era até meio evangélica. Não podia ouvir um pregador novo ou descobrir uma igreja diferente que entrava para conhecer. Geralmente se encantava e quase sempre aderia.
Naquela tarde Tia Noêmia havia trazido o tal padre para algum tipo de ritual que Freud não entendia bem. E compreendia menos ainda o que havia levado Orravan e sua mãe a aceitarem aquilo.
_ Foi tia Noêmia, encheu tanto a paciência da minha mãe que ela acabou aceitando.
_ Vou embora então…
_ De jeito nenhum. Quando acabar a gente sai. Mas não pode dar um piu.
_ Mas o que está acontecendo?
_ É tia Noêmia, cismou que Sílvia deve ter rogado alguma praga.
_ Silvia? Quem é Sílvia?
Freud tentava se situar naquele caos, quando a mãe de Orravan veio lhe falar:
_ Você pode ficar, mas não vai abrir a boca e se der uma única risada, um mero sorriso, jogo você pela janela.
Freud ficava maravilhado cada vez que a mãe de Orravan falava assim. No fundo, desejava ardentemente que ela o pegasse e o jogasse pela janela. Era quase uma fantasia. Até cogitava a hipótese de rir, apenas para provocar essa reação. No entanto, temia a índole iracunda da família. Eles eram imprevisíveis quando irritados, o que deixava Freud bastante obediente.
“_ É para afastar os maus espíritos e os maus fluidos de Sílvia”, segredou-lhe tia Noêmia ao passar por ele, num estado de transe místico, preparando-se para o acontecimento.
Freud estava muito espantado com aquilo tudo. Sussurrou ao amigo:
_ Quem é Silvia?
Mas ouviu um _ Pchhhhhht…. da mãe dele, mandando-o calar o bico.
O padre então pediu uma bacia de água. Frau Else, empregada antiga que foi babá de Orravan, torceu o nariz, deixando claro que ela mesmo não ia buscar essa bacia. A mãe de Orravan olhou feio para ela, mas ela não se abalou e devolveu injuriada:
_ Desde quando isso é padre?
Com um gesto imperial, a mãe de Orravan a mandou sumir dali. Frau Else se foi, mas ficou por perto, espiando a cena.
Os móveis foram finalmente afastados deixando o centro da sala livre para o padre. A bacia com água chegou por outras mãos e o espetáculo pode enfim começar. O padre pediu silêncio e fez algumas rezas em voz baixa. Em seguida pediu um “Pai Nosso” coletivo, fez mentalizações, mexeu na água com os dedos, olhou para o movimento na bacia, analisou, franziu a testa e vaticinou:
_ Coisa ruim, muita coisa ruim nesta casa, mau olhado…
Tia Noêmia emitiu um suspiro de sofrimento, mas que também exprimia um prazer secreto de constatar que ela tivera razão em trazer o padre. Afinal a casa estava povoada de maus espíritos, precisavam portanto daquela presença. O padre continuou:
_ Estou vendo pessoas, gente bebendo sangue de canequinha…
Atônito, Freud não se segurou e cochichou a Orravan:
_ Mas o que é isso, pelo amor de Deus?
_ Tia Noêmia, você não conhece?
Os dois foram silenciados pela ferocidade do olhar da mãe de Orravan. Freud sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Deixou o estranho ritual de lado e passou a se concentrar apenas na mãe de Orravan, sua nuca, sua expressão, sua cintura. Sim, a cintura, não a cintura de uma jovem, uma cintura na medida certa para uma mulher madura. Num misto de desejo e pânico, pensava no que aconteceria se de repente fosse compelido por alguma força misteriosa, avançasse até ela e pegasse naquela cintura. O que lhe sucederia? Achava que valeria o risco. Aquela cintura de mulher madura e parecendo tão jovem… Parecia uma garota. Era isso, madura mas com cara de garota. E o padre prosseguia:
_ … gente bebendo sangue de canequinha.. vejo vários…
E tia Noêmia fazia coro da cena com mais um de seus gemidos:
_ Isso é coisa de Silvia!
E Freud, cada vez mais aflito:
_ Quem é Silvia?!
Orravan o mandava sossegar:
_ Fica quieto, daqui a pouco a gente sai.
A cerimônia prosseguiu com mais rezas, mais pais nossos e até uma espécie de libação foi feita com um copo de vinho barato. Nas despedidas, tia Noêmia era a mais feliz por haver possibilitado que a casa fosse libertada da presença dos maus espíritos e saiu para levar o padre embora, junto com o seu cardume de beatas. Depois disso, Frau Else enfrentou a mãe de Orravan:
_ Nunca vi isso de padre com bacia d`água! Isso lá é padre? Isso é um catimbozeiro! Se ele entrar aqui de novo eu dou nele!
Findo o espetáculo e os comentários, saíram os amigos para beber e dedicaram toda a tarde a isto. Enquanto conversavam, Freud se lembrava da cintura da mãe do amigo, a cintura madura, na medida, a cintura que era madura mas também era de garota, e imaginava cenas ardentes, às vezes medonhas, com aquela mulher. Numa das fantasias ele no lugar de Orravan, com todos os direitos de filho, todo o acesso, toda a intimidade, vivendo sob o mesmo teto, a intimidade de uma vida doméstica. Foi quando, por um motivo qualquer, Orravan fez referência ao pai. “Pai?”, perguntou-se Freud, “como assim pai? Isso é hora de falar de pai?” A figura de um pai conturbava toda aquela fantasia de intimidade doméstica e representava a destruição completa de seus devaneios. Perturbado por esse interferência indevida, Freud se questionava: “por que essa história de pai agora? Numa situação dessas um pai deveria ser eliminado, exterminado.” Procurou alguma referência que lhe ilustrasse esses pensamentos complexos e lembrou de Édipo e de Laio. “Laio foi surgir no meio de uma história dessas, Édipo foi pra cima e o liquidou”. Era isso, Édipo e Laio, esse era o remédio para essa inoportuna menção à figura paterna de Orravan. Édipo nele! E seguiu viajando na tragédia de Édipo e na cintura de Jocasta, digo, da mãe de Orravan. E assim o tempo passou, o leite de gironda desceu redondo, em grandes quantidades e, mais tarde à noite, estavam de volta à casa da mãe de Orravan, mas num estado lamentável.
E foi nesse estado que Freud voltou a se encontrar com a cintura madura e de garota da mãe de Orravan. Parou, olhou e ficou concentrado naquela cintura, enquanto a mãe de Orravan passava uma descompostura em Frau Else. Depois que Frau Else saiu e num momento em que Orravan se ausentou, Freud tomado por sabe-se lá que impulso, deu três passos adiante, cutucou as laterais da cintura da mãe de Orravan com os dois indicadores e deixou escapar um grunhido em falsete. A mãe de Orravan virou-se e olhou para ele. Freud abriu seu melhor sorriso e mandou:
_ Frau, a senhora está uma garota!
Sem mover um único músculo da face, a mãe de Orravan rebateu:
_ Freud, você está bêbado.
No caminho de volta, Freud caminhava sozinho rumo a sua casa. Em seu rosto, um sorriso que não se cansava. O olhar da mãe de Orravan, a cintura madura, a garota, “você está bêbado”, tudo aquilo tinha uma aroma de paraíso. Estava feliz. E sentia-se também inspirado. Pensou sobre essa relação de sua tara pela mãe do amigo com a tragédia de Édipo e tinha uma forte intuição de que ali havia uma idéia rica. “Isso dá samba”, refletia. E seguiu seu rumo com a certeza de que uma grande idéia se formava em sua mente. Mas nesse momento, lembrou-se de uma questão da mais alta gravidade, que não fora esclarecida e que o deixou perturbado:
_ Meu Deus… quem é Sílvia?…
Alguns analistas sugerem que a lacuna mental provocada por esta pergunta teria sido o motor principal de boa parte de sua obra, em especial “Mal Estar na Civilização”.

















Eu conheço Si’lvia e sei que ela esta’ mais para Frau Else do que para tia Noêmia. Alia’s, penso que se o jovem Freud tivesse um fraco por Frau Else, ao invés de ficar tarando a mãe dos outros, a histo’ria da psicana’lise seria menos grega. Talvez fosse mesmo um pouco baiana. E ai’, o Paradigma do Acarajé seria freudiano e não arturiano.
A dita-cuja é uma maldição, um ser diabólico e perigoso. Seu nome não deve ser pronunciado, e sim, na verdade, esquecido.
O Complexo de Acarajé existiu, de fato, como uma noção paralela na cabeça de Freud. Mas a mãe de Orravan foi mais forte, e o Édipo venceu a parada. Além do mais, Freud não sabia bem o que era um acarajé — as informações etnográficas eram confusas na época. Achava tb impronunciável o termo — a pronunciação da palavra, uma vez, quebrou dois dentes de Freud, afora a dormência de dois dias na sua língua.
Nesse sentido, a língua alemã impediu a incorporação do Complexo de Acarajé na psicanálise. Uma pena, pois nosso inconsciente não seria mais formatado pela tragédia grega e sim pela comédia baiana, o que seria terapeuticamente muito mais interessante, né?!
Si’lvia, Si’lvia, S’ilvia, elevada ao infinito! – que é assim que maldita vira bendita.
E mais uma vez demonstram-se os limites da li’ngua alemã e dos antropo’logos!
Meu lindo, se a psicana’lise fosse formatada pela comédia baiana, até eu seria viciada numa terapia, oxentxe! Ja’ pensou? Psicanalista com a cara de Dorival Caymi, deitado numa rede e cantarolando “Rosas a me confundir”?! Impaga’vel!
Agora, sim, está tudo cristalino: do riso como catarse, no ensaio sobre o chiste, ao riso como fonte de criatividade, no ensaio sobre o humor. E pensar que tudo se deve à cintura de Frau Else e às fantasias freudianas de defenestramento. Um gênio, esse Freud.
Cynthia, a cintura é da mãe de Orravan e não de Frau Else.
Complexo de Édipo com a mãe dos outros? Sei…
Haha! A essas alturas, sei lá quem era mãe de quem!
Sim, de fato, a propalada cintura era da mãe de Orravan. Se fosse a de frau Else, a estória da psicanálise teria sido diferente. Os humanos não teriam um inconsciente, por exemplo.
Orravan perdoou o desejo pela sua mãe? Pode ser. Por Else? Jamais perdoaria. Em represália pelo gesto inominável, além das surras em Freud, desejaria toda a família, incluindo frau Zinha (paixão infantil freudiana). Sigmund, com isso, ficaria absolutamente abufelado e avexado.
Os temas arquetípicos da psicanálise seriam a vingança, a vendetta, e sua narrativa seria raivosa. Provavelmente, a terapia não seria pelas palavras e sim pelo infanticídio ou coisa pior.
Mas… será que Freud desejou a cintura de frau Else? J.B. Barnes, num escrito apócrifo, insinua que as noções de pulsão de morte e de vida surgiram daí, desse desejo escondido. A tese é habilidosa: Freud recalcou o desejo pela cintura de Else; depois, sublimou na cintura da mãe de Orravan.
Inclusive, Barnes vai além e afirma que, no Totem e Tabu, a cintura de frau Else é metaforizada, porém acrescenta: “mas se tal questão realmente existiu, ele não foi macho o suficiente para encará-la de frente e deixou o assunto de lado”.
Lembro que Freud tinha medo de frau Else, pois ela tinha a mania de espancar seus amantes. É provável que Orravan tenha pego essa mania de dar porrada com Else. Não batia nas suas amantes, é certo, mas batia em Freud, por qualquer motivo.
E, segundo Barnes, Orravan apanhava da mãe e também das babás. Não se transformou num espancador contumaz por causa disso; ao contrario, era um cara pacifico em relacao ao mundo e ao conjunto da humanidade, com excecao de Freud. Toda a sua furia recalcada, ele projetou em Freud.
Freud, em suma, inventou a psicanálise e, consequentemente, o inconsciente por um mecanismo de defesa. É engraçado pensar assim, mas é a pura verdade.
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Ducaldo, pois saiba que J.B. Barnes defende a tese de que, ao desejar sua mãe, Édipo desejou todas as mães. Mãe é um valor universal. É única. São absolutamente iguais nas suas diferenças.
Da amizade entre Freud e Orravan teria surgido o famoso comentário
“não bote a minha mãe no meio senão eu boto no meio da sua…”