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Dor e sofrimento como política pública

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O que houve?

Estou perplexo com o “tratamento”, implementado pela dupla Alckmin-Kassab, para os dependentes de crack.

O que é isso? Que tipo de higienismo é esse?

E o discurso oficial é delirante: por meio da “dor e do sofrimento“, convencerão os dependentes a procurar os serviços de saúde. Propicie dor e sofrimento e haverá adesão ao tratamento. É uma revolução na saúde pública.

_Viciados, sofram e tenham dor, pois é o caminho da redenção e da conscientização!

Não seria surpreendente a venda de cilícios pelo governo paulista.

_Viciado em crack, experimente cilícios  Opus Dei, os que causam mais dor e sofrimento. Você correrá imediatamente para um médico!

Em São Paulo, a PM tem mil e uma utilidades: serve para criminalizar estudantes da USP e, agora, para “tratar” usuários de drogas. A dupla Alckmin-Kassab percebe situações de conflito e de saúde como uma questão de segurança, logo, de polícia. Política é segurança; política é polícia. A violência agora é explícita e se tornou política de governo. Tal atitude não pode se tornar política pública de jeito nenhum. Não pode se espalhar pelo Brasil. É um retrocesso democrático perigosíssimo.

E combater narcotráfico, ao mesmo tempo em que se “combate” dependência, no local de venda das drogas, parece “ingenuidade”. O traficante da venda não é tão importante quanto o traficante da produção. No local, não se encontrará quem organiza a produção e a distribuição no mercado. E, para encontrar os donos da droga, parece ser mais eficiente a inteligência do que a repressão. Esse tipo de política é um higienismo de espetáculo que faz a festa de programas de TV, como o de Datena.

(…)

Claro, essa minha reação pode ser vista como “patrulha” ou como “falácia esquerdista” (vide colunista da Folha, Igor Gielow). O colunista não critica a empreitada; no máximo, alega que é jogo eleitoral. Higienismo? Nem pensar. Aparentemente, apoia a medida combinando polícia militar e saúde pública (sem dúvida, tal combinação não caracteriza, pelo menos no manual de redação da Folha, “higienismo”). Mas acha que é um risco — para a estratégia eleitoral da dupla Alckmin-Kassab, evidentemente, e não para a saúde dos dependentes de crack. Aproveita e joga uma frase de efeito moral: é ridículo dizer que os farrapos humanos que praticam crimes para sustentar sua doença têm direitos que se sobrepõem aos da massa impedida de andar pelas ruas do “centrão” sem correr riscos. Desconfio de todo jornalista que começa a frase com “é ridículo” (além de ser bem adolescente). Ele não quer argumentar, e sim apenas impor sua opinião. E, lendo sua frase, o que alhos têm a ver com bugalhos? Afinal, quem quer sobrepor direitos? Na verdade, a ação policial anula direitos. Farrapos humanos contra massas impedidas? É ridículo. O raciocínio é parecido com a crítica conservadora que se faz aos direitos humanos — só serve para defender bandidos; neste caso, farrapos humanos. Afinal, se alguém está ameaçado no seu ir e vir é o não usuário de crack. Vá à Luz e veja por si. Não preciso nem sair da cadeira para perceber o uso liberticida, tão comum no jornalismo liberaloide, da noção de liberdade — em nome da liberdade, dane-se os direitos, pois são imposição do Leviatã, isto é, do Estado (ui, que medo). Já, já defenderão que o mercado é aquilo que sana, próprio para sanar, como elixir paregórico.

Atualmente, ser jornalista implica dor e sofrimento, por isso o nível do jornalismo político é tão redentor. Contudo, a preocupação não é com a qualidade da imprensa, e sim com o fato de existir gente que apoia e sustenta esse tipo de policiamento sanitário (para evitar o uso esquerdista do termo “higienismo”). O apoio é tão evidente que se tornou… jogo eleitoral.

Sementeiras

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