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As latrinas do Vaticano

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─ Ôxente, Quimzinho! Quando vou dormir, vivo dando murro, pontapé e não sei mais o que na esteira do meu jirau. Que nem jogador do Santa Cruz. Quero um chá pra resolver logo isso.
─ É no que dá, Tsé. Quando Ubalalauquê mandou o homem ficar de pé, foi logo dizendo: deitado, só com mulher. E você vive por aí dormindo sozinho com saudade de Marocas. E com tanta menina bonitinha na Comunidade.
─ Ora, Quimzinho! E quem vai querer dormir com um velho desdentado e cheio de perebas?
─ Vou consultar o Google. Deve ser grave, mas é melhor ir logo arranjando uma namorada.

Na verdade, como li na Enciclopédia do Vaticano, Vol. XVI, pps. 651, edição de 1325, estava com a “síndrome das pernas inquietas”, praga que peguei na visita à Capela Sistina.

Ainda não contei porque não tive tempo, mas fui à inauguração das célebres Latrinas do Vaticano, a convite de Bento, ocasião em que recebi a Medalha de Honra do Celeste Odor de Nossa Senhora.

De fato, quando fazia meu Doutorado em Roma, na década de 1950, não aguentei o fedor do Vaticano e sugeri ao Santo Padre de plantão modernizar o aparelho evacuatório do Museu, onde fica a tal Capela, para evitar os vexames habituais do cotidiano, que a perfeição do design inteligente do Todo Poderoso nos brindou.

Sugeri, também, que a ICR contratasse a mesma empresa que está desconstruindo São Lourenço para o bem de nosso futebol. Pelo menos, acabariam com a mata que restou do Bosque das Oliveiras, como estão fazendo em nosso indigitado subúrbio.
Visitara a linda Capela de Michelangelo na companhia da Irmãzinha Bavlavliquinchuia, uma linda malauiana convertida aos vícios ocidentais pelos jesuítas de lá. Estava de folga do Convento do Santo Enjoo de Nossa Senhora e aproveitamos o evento para flanar um pouco pela Cidade Santa.

No primeiro vão da primeira escada, dentro da fortaleza cristã, a irmãzinha já queria voltar pro Convento. Diante de um quadro gigantesco, representando São Pedro pescando uma traíra no Mar da Galileia, lá estava agachado um frade agostiniano, careca com uma barba chegando ao umbigo, fazendo as sagradas necessidades que afligem toda a humanidade.

Sólidas! Ou melhor, pastosas como precisou nosso guia jesuíta, explicando que não havia nenhuma poça d’água por debaixo do frade.

E, portanto, ad majorem Diem gloriam!

E não era somente isso.

Bastou subir uns degraus e descer outros tantos, a Irmãzinha também quis. E lá se foi um riacho amarelo descendo a ladeira até o Santo dos Santos que não sei onde ficava.

Bem que estranhei, logo na chegada, ao ver tudo o que era gente de máscara de hospital, como se grassasse a maior peste nos corredores do Vaticano. É verdade que existia mesmo a peste.

Dos povos! Como dizia Martinho Lutero, mas isso é outro assunto.

De vômito em vômito, chegamos à Capela Sistina.

Esqueci a irmãzinha. Ficou caladinha, olhando a esquisitice ocidental, enquanto eu tentava decifrar a genialidade de Miguel dos Anjos. Mesmo com a pintura cheia de fuligem, efeito dos churrasquinhos de carne humana dos belos tempos da Inquisição, ainda era alguma coisa para se louvar o espírito humano.

Os Teólogos da ICR, e de outras Igrejas menores como a nossa brasileira e matreiríssima Universal, passaram a vida toda imaginando o que o Todo Poderoso teria feito para dar a vida ao nosso irmão Adão.

Faltava-lhes o gênio! Nada de sopro nas narinas do Homo Neanderthalensis. Nada de Árvore da Vida nem de maçãs verdes ou vermelhas para o Homo Sapiens. Nem de palavras, nem de nada!

Nem tampouco, as gotas do sagrado sangue de Nosso Senhor!

Michelangelo pouco se preocupava com a estupidez humana. Exceto com seus rapazes renascentistas, conversava apenas com o Papa nas horas vagas sobre o preço das tintas no mercado romano.

─ O que você pretende, Miguel? ─ Perguntava-lhe o Papa.
─ Nada! Nadica de nada, Santidade. Espero apenas um toque. Nada mais do que um toque. Nem isso, aliás. A sugestão de um toque me bastaria.

Apesar de todo o horror da catinga dos corredores do Vaticano, valeu a pena ficar horas e horas contemplando a obra do gênio.
A sugestão do toque! A cumplicidade com o eterno! Eis aí o afresco da Sistina em toda a sua essência. Eis aí o que de humano nos resta, esse perene desejo de eternidade.

Enquanto dure, é verdade!

Não esqueci a catinga, porém. Finalmente, no ano passado, depois de mais de trinta anos de licitação, as novas Latrinas seriam inauguradas.

E Bento lembrou-se deste pobre e deserdado Sacerdote, autor da ideia, inspirada na pureza do afresco pintado por Miguel.

─ Bento! Mármore de Carrara, tudo bem! É logo ali. Mas torneiras e canos de ouro, só no Iraque e na Casa Branca. ─ Disse-lhe, depois de uma visita reservada à grande obra.
─ Bobagem, Tsé! Tudo ling-ling. Importado da China. Falso como tudo o resto que o Ocidente consome, inclusive o que a gente prega na missa.
─ Então, Bento, não se trata de ouro de dezoito quilates, como está no Livrinho? ─ Exclamei, estarrecido.
─ Claro que não. Sou alemão da gema. Realista, Tsé! Aprendi nos acampamentos de minha juventude. Não iria estragar nosso ouro com o xixi desses turistas metidos a merda. Custou a tirar dos astecas, dos maias, da África e de vocês da América Latina.

Mas você não reparou em nossas inovações tecnológicas, Tsé.

─ Só fiz xixi, nada mais. Nem dá descarga, aliás.
─ Homem de pouca fé. Pense num Santo, Reverendo.
─ Pensei! ─ E nada aconteceu para surpresa de Bento.
─ Estranho! Que merda de santo você pensou, Tsé?
─ Em São Bundão, o carregador de feira lá do clã dos florzinhas da Comunidade. Um santo homem!
─ Não vale, Tsé. Tem que estar morto e ser da ICR. Além disso, tem que botar uma moedinha.

Pedi emprestado a Bento cinquenta centavos de Euro. Pensei em Santo Aleixo e, pra minha surpresa, a descarga funcionou.

─ Tá vendo! Tecnologia dos jesuítas. Isso fortalece nossa Fé. ─ Disse Bento satisfeito.
─ Ora, Bento! Foi a moedinha.
─ Foi não, Reverendo. É uma questão de Fé.
─ E o resultado, Bento? Desce pra onde?
─ Não é problema nosso, Tsé. O governo da Itália que se vire. Além de tudo, trata-se de material reciclável.

Mas, voltando à “síndrome das pernas inquietas”…

Sementeiras
  1. Vôte! Sempre soube das cagadas históricas da ICR, mas nunca pensei chegassem a esse ponto.

    Pelo menos a visão da genialidade de Michelangelo compensou essa verdadeira “via faecalis”.

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