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As Maldições de Lobato

12 comentários

(Artigo originalmente publicado na Revista Pittacos, revista de Cultura e Humanidades)

 

Recentemente, a obra do escritor Monteiro Lobato foi acusada de ter conteúdo racista. De fato, existem passagens em trechos de sua literatura infantil, sua literatura adulta, artigos e em sua correspondência pessoal que suportam preconceitos de raça, valores racistas e até defesa da eugenia. É legítimo, portanto, que se adotem alguns cuidados, advertências e orientações adequadas aos professores, quando da apresentação para as crianças dos trechos de livros em que isso acontece.

Mas não é propósito deste artigo fazer um julgamento da obra de Lobato em função de seus atributos racistas. Ao contrário, o que me move aqui é o receio de que, no calor desses debates, crie-se uma tendência de resumir sua obra à de um “escritor racista”. Se, por um lado, a existência de preconceito racial em sua obra é real, por outro, nem de longe é um mote de maior relevo entre o que ele escreveu. Vale lembrar que Lobato foi um homem nascido no tempo da escravidão, quando a questão racial não estava posta para as mentes da época da maneira como está hoje.

Ao mesmo tempo, se há uma constante ao longo da vida pública deste escritor, é a polêmica. Sua capacidade de despertar entusiasmos e adesões em prol das causas e debates que defendeu era diretamente proporcional à de arranjar brigas e adversários. Portanto, a atual celeuma em torno do conteúdo racista de sua obra não é a primeira; pelo contrário, é mais uma de sua vasta coleção.

O historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, estudioso de Lobato, disse certa vez que a vida desse escritor é marcada por uma série de “maldições”, que é como ele chamou todas as polêmicas, as acusações e as brigas em que Lobato se meteu. A mais conhecida destas maldições diz respeito ao artigo em que criticou duramente a exposição da pintora Anita Malfatti, uma das precursoras do movimento modernista de São Paulo, em 1917. A repercussão do episódio custou a Lobato a inimizade de boa parte do grupo dos modernistas da capital paulista e, muito provavelmente, dificultou o reconhecimento de Lobato como um escritor relevante também na literatura não-infantil. Quando o grupo modernista de São Paulo “assumiu o poder” nas artes brasileiras, passaram a ditar o que deveria ser considerado bom ou não em nossa produção cultural. Em função disso, Lobato ficou limitado à posição de escritor de literatua infantil.

Advogado formado pela São Francisco, em São Paulo, Lobato começou sua vida profissional como promotor público no município de Areias, interior de São Paulo, ainda no século XIX. A cidade o impressionou pelo marasmo e pela invariavel constatação de que ali nada acontecia. Depois disso, administrou a fazenda que herdou do seu avô, o Visconde de Tremembé, no Vale do Paraíba.  A região era economicamente empobrecida e sua agricultura era atrasada para os padrões da época. Lobato não conseguiu modernizar e recuperar a fazenda e a empreitada resultou em fracasso.

Esta vivência de cidade rural, somada à de fazendeiro do Vale do Paraíba, serviu para consolidar alguns de seus primeiros mitos, como as “Cidades Mortas” e o “Jeca Tatu”. Por meio deles, Lobato procurou explicar o atraso do interior do país em função de uma cultura pouco afeita ao trabalho e, sobretudo, ao caráter ocioso e apático do trabalhador caipira, o Jeca Tatu. Num primeiro momento, Lobato enxerga no camponês representado pelo Jeca o grande responsável pelo subdesenvolvimento do interior do país:

“Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba que vive a vegetar de cócoras. Impenetrável ao progresso. Nada o esperta, nenhuma ferroada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jeca, antes de agir, acocora-se.”

 Aos 36 anos, publicou seu primeiro livro, Urupês, em que aprofundou os temas rurais e as características do Jeca Tatu. Urupês foi um sucesso de vendas, mas provocou reações indignadas contra uma imagem tão crua do caipira brasileiro. Parte dessa reação veio dos círculos literários cujos cânones tendiam a associar o homem do campo às heroicas figuras de José de Alencar e Coelho Neto, dentre outros. Em sua defesa, Lobato alegava que o seu personagem traduzia a realidade do campo, ao contrário “do que faz a literatura fabricada nas cidades por sujeitos que jamais penetraram os campos e que falseiam o caboclo e sua miséria, tudo colorindo com tintas róseas de criminoso otimismo”.

A imagem negativa do caipira inaugurada por Lobato, no entanto, sofreu drástica transformação promovida por ele mesmo quando tomou conhecimento do trabalho dos sanitaristas brasileiros, em especial Miguel Pereira, Belisário Pena, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Arthur Neiva. De acordo com esses médicos, o homem pobre do campo era vítima de uma série de doenças ancestrais e endêmicas como verminoses, amarelão, Mal de Chagas, tuberculose, filariose, etc, que atingiam, de acordo com estatísticas da época, cerca de 17 milhões de pessoas, em um Brasil cuja população era de 25 milhões de habitantes. Lobato começou, então, a escrever em defesa do trabalho desses médicos e sobre a importância dos investimentos em saneamento público. E o Jeca saiu do papel de vilão da história e assumiu o de vítima. Como era dotado de uma prosa poderosa e cativante, Lobato novamente despertou adesões, mas também criou adversários, ao mostrar um país tão cheio de enfermidades que comparava a “um vasto hospital”. A elite que se preocupava em divulgar uma imagem positiva do país no exterior não o perdoou pelo que considerou uma ofensa nacional.

De todo modo, seus livros continuavam a ser muito bem vendidos, a ponto dele começar a prestar atenção ao assunto sob uma perspectiva comercial. Em 1918, com uma nova tiragem de Urupês pronta, partiu para uma ação de vendas mais agressiva. Constatou, inicialmente, que o país inteiro possuía pouco mais de trinta estabelecimentos capazes de receber e vender livros. Lobato então redigiu uma proposta comercial para lojas, as mais variadas, propondo que vendessem seus livros, entre as quais haviam lojas de ferragens, farmácias, bazares e papelarias.

“Vossa senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada “livro”?  V.Sa. não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro, batata, querosene ou bacalhau. E como V. Sa. receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais “livros”, terá uma comissão de 30%; se não vendê-los, no-los devolverá pelo correio, com o porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa.”

Alguns circuitos literários o censuraram por tratar o livro de maneira tão comercial, como um produto de venda qualquer, mas o resultado foi que a adesão foi grande e Lobato passou dos trinta e poucos vendedores anteriores para mais de mil pontos de vendas. As tiragens começaram a crescer a grande velocidade e, como as gráficas não estavam prontas para a nova demanda, Lobato investiu em uma oficina própria e criou sua própria editora. Passou a publicar autores como Oswald de Andrade, Vicente de Carvalho, Menotti del Picchia, Lima Barreto, entre outros.

A empresa ia de vento em popa quando estourou a Revolução de 1924 e a cidade de São Paulo ficou sitiada por cerca de um mês. Além disso, uma seca de proporções inéditas para a época fez com que a companhia elétrica, a Light, fosse obrigada a cortar dois terços no fornecimento de energia nos meses seguintes. Lobato foi à falência, em grande parte pelos motivos acima, mas talvez também porque não fosse tão bom administrador quanto empreendedor.

Entre 1927 e 1929, o autor viveu nos Estados Unidos. Retornou de lá impresionado com a prosperidade daquele país  e  tornou-se um batalhador contumaz para que o Brasil investisse na produção siderúrgica (ferro) e na exploração de petróleo, que entendia serem condições fundamentais para o desenvolvimento. Suas pregações sobre o petróleo renderam dezenas de artigos e livros que mobilizaram a opinião pública de tal maneira que motivou o presidente Getúlio Vargas a convidá-lo para ser titular do futuro Ministério da Propaganda, que seria criado em breve. A recusa de Lobato seguiu por escrito para Vargas:

“Meditei longamente sobre as idéias que V. Excia. Me manifestou, dum serviço de propaganda, que determine a entrada de capitais estrangeiros, e cheguei à conclusão de que tudo quanto fizermos nesse campo resultará inútil. Propaganda é palavra de mau sentido. Significa enganar, apresentar fatos sob um prisma sedutor, e portanto, falso.”

 Posteriormente, no entanto, a força da campanha que criou em defesa do petróleo brasileiro atingiu escala nacional. Num segundo momento Lobato voltou suas baterias contra os trustes estrangeiros do setor e isso acabou motivando sua prisão pelo governo ditatorial de Vargas.

Seus artigos, sua literatura, sua obra escrita, em suma, foram movidos por esse espírito de defesa do país, do seu desenvolvimento e de sua cultura. Lobato unia uma prosa vigorosa a uma vivência intensa daquilo sobre o qual escrevia. O resultado é uma obra de alta qualidade literária, tanto infantil quanto adulta. E mais: sua literatura adulta representou uma virada no que se escrevia no Brasil do começo do século. Oswald de Andrade declarou, mais tarde, que “Urupês”, de 1918, foi o autêntico “marco zero” do movimento modernista:

“Foi em Lobato que a renovação teve de fato o seu impulso básico. Ele apresentava, enfim, uma prosa nova.”

 E, sem dúvida, sua literatura infantile revela um escritor único no país. Único pela combinação de fatores diversos, tais como o universo de encantamento que cria, o resgate de tradições culturais brasileiras, suas mitologias, suas incursões pedagógicas pela gramática, pela aritmética, pela história e pela literatura universais, seu enveredar pela mundo das ciências, seu texto preciso e cativante e, resumindo, por sua alta qualidade literária. Não temos nenhum outro escritor capaz de encantar e estimular a mente infantil com a mesma intensidade. Razão pela qual é tão justo se prevenir contra esta mais recente “maldição”, a do racismo. Eis o motivo porque não podemos resumir Lobato e sua obra a esse preconceito racial que aparece em alguns momentos de sua literatura.

Moral da história, que sejam tomados os devidos cuidados contra os conteúdos racistas de Lobato, mas que antes disso seja preservado o patrimônio de alto valor cultural que a sua obra carrega.

 

Sementeiras
  1. Excelente artigo.
    Li tudo, ou quase tudo, da sua literatura infantil, que é genial,e nada da sua obra voltada para os adultos, descrita como irrelevante na maioria dos compêndios que tratam da matéria.

  2. Ducaldo, esse é o ponto. Ele é tratado como escritor adulto irrelevante por uma questão política. Em 1918 ele brigou com o grupo dos modernistas ao publicar aquele famigerado artigo contra a exposição de Anita Malfati. Daí veio uma inimizade profunda, especialmente com Mário de Andrade. A partir dos anos 30, os modernistas conquistaram o seu espaço a passaram a ter o poder de ditar o que deveria ser considerado bom ou não nas artes do eixo Rio – São Paulo. Por conta disso Lobato ficou sitiado nesta seara em que ele é raro e inquestionável, a da literatura infantil. Mas experimente ler o conto “Negrinha” para você sentir o porte do cara. Ou mesmo reler “A Chave do Tamanho” sob uma perspectiva não mais infantil. Um delírio interessantíssimo.

    Quando escrevi o artigo para a revista Pittacos havia um espaço limitado, então cortei muitas informações. Revi parcialmente agora e republiquei com algumas alterações depois que você leu.

  3. Muito bom, Fernando, penso algo muito parecido sobre o autor.

    Gosto particularmente desse trecho: “Vale lembrar que Lobato foi um homem nascido no tempo da escravidão, quando a questão racial não estava posta para as mentes da época da maneira como está hoje.” Isso é algo que me incomoda profundamente nas “militâncias” hoje em dia: julgar o homem do passado com valores só adquiridos às vezes séculos depois. Que me desculpem os que pensam diferente, mas isso para mim é burrice em estado bruto.

    Abraços e Feliz Natal pata todos do blog.

  4. Saiu, inclusive, uma “caixa monteiro lobato adulto” com as obras “Urupês”, “Cidades mortas”, “O macaco que se fez homem”, “Negrinha” e “O presidente negro”. Vale a pena.

  5. O conto “O macaco que se fez homem” é bem divertido. É a história de um chimpanzé que cai de uma árvore, bate com a cabeça no chão, fica ruim das idéias e começa a se tornar humano. E o ponto principal dessa metamorfose é a dúvida e a hesitação. Antes olhava uma banana, ia lá, pegava e comia. Via uma fêmea, ia lá e crau. Depois da queda não, via uma banana, aí via outra do lado, ficava sem saber qual pegava, até que outros macacos menos recalcitrantes sumiam com as duas bananas.

    Do mesmo modo, vacilava ante duas fêmeas, sem saber qual escolher, até que outros mais ágeis sumiam com as duas. E assim surgiu o homem.

    Agora não sei se em algumas destas obras está o conto “Bugio Moqueado”, que acho do balacobaco. Forte pra chuchu.

    Edmar, minha tendência é pensar exatamente como você. Mas no meio desses debates, acabou me chegando um artigo de Ana Maria Gonçalves, que comete exatamente esse tipo de raciocínio, olha para um homem do século XIX com olhos do século XXI. No entanto, os trechos que ela cita são muito fortes, em especial quando se refere à idéia de crianças negras nas escolas públicas tendo que ouvir sua obra falar de negros de maneira depreciativa, sem ninguém para contextualizar isto. Esse trecho me tocou, bem como algumas passagens da obra de Lobato citadas pela autora. Segue o link: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1825
    De todo modo, o argumento procede, não podemos jogar fora um conjunto tão essencial em função dessas referências do seu tempo.

    É um tema tão inesgotável que, morássemos os 4 na mesma cidade, pediria uma cerveja imediatamente. Não há de faltar uma chance.

    • Compreendo a necessidade da contextualização nesses casos, Fernando. O que eu não concordo de jeito nenhum é com alteração dos textos originais, ou com a eliminação dos livros da escolas, que já vi muita gente defendendo.

      Eu tinha na cabeça coisas mais idiotas quando escrevi, algo do tipo que já escutei várias vezes quando alguém fala, por exemplo, sobre o nascimento da democracia na Grécia. Invariavelmente aparece alguém com aquele ar professoral para dizer que aquilo não podia ser chamado de origem da democracia porque havia escravos. Ora, a escravidão era universal no período (desconheço um povo da época, que não tivesse escravos, mas se alguém souber de um eu gostaria de saber), praticada inclusive pelos povos escravizados quando invadiam outros. Não era algo contrário à moral ou à ética humana da época. Julgar o período sem ter isso em mente, tomando como referência apenas os valores modernos, é um absurdo, na minha opinião.

      Rapaz, um dia temos mesmo que dar um jeito e sentarmos para horas de cerveja e papos. Diz o Artur que talvez venha a BH ano que vem, quem sabe vocês não animam também?

      Abs.

      • Li o artigo de Ana Maria Gonçalves. É bem interessante. O desafio pedagógico é como contextualizar um autor como Monteiro Lobato. Aliás, qualquer contextualização histórica é difícil, mais ainda sendo feita diante de… crianças.

        Digamos que exista momentos racistas na obra de Lobato. O desafio, diante de uma criança e, em particular, de uma criança negra , na minha opinião, é como fazê-la compreender isso, sem que deixe de gostar da obra. Mas, para fazer isso, é preciso relativizar os momentos racistas da obra — o que, para muitos militantes, é um absurdo, eis a questão. De todo modo, a relativização pode acontecer a partir do momento que a criança compreende que o “objeto” das reinações de Narizinho não é a posição subalterna de Anastácia. Ou, pelo menos, compreender que há outras questões, no conjunto estético da obra, que não passam necessariamente pelo racismo. Há varios “valores” na obra de Lobato. Reduzi-la ao momento racista, como se esse momento fosse o determinante, é não entender a obra. Ao mesmo tempo, escamotear tais momentos, em nome de um canône literário, é deixar de lado a contextualização histórica e a necessidade de abordar o racismo na escola brasileira.

        No fundo, estaríamos diante de uma falso problema: a obra de Lobato seria fundamental, pedagogicamente, para discutir “reinações infantis” e, ao mesmo tempo, o problema do racismo na sociedade brasileira.

        Penso isso tb em relação ao sexismo. Há obras que explicitam claramente uma posição subalterna da mulher. Mas o “objeto” da obra, muitas vezes, não é a dominação masculina. Já discuti Machado de Assis do ponto de vista (repito o recorte específico: de um ponto de vista) do gênero. A figura de Capitu, por exemplo, é fantástica para discutir os papéis sociais femininos.

        O exemplo de Edmar é eloquente; inclusive, deparo-me constantemente, na sala de aula, com o exemplo do surgimento da democracia na Grécia (mas estou diante de um público universitário — a pedagogia é diferente). Marx colocava, por exemplo, a democracia grega como a democracia da não-liberdade, por causa da escravidão. Mesmo assim, com um pouco de sensibilidade e muita discussão, podemos evitar um julgamento do passado pelo presente (digo “julgamento”, porque é diferente de uma “interpretação”, de uma “compreensão” do passado). A diferença entre interpretação e julgamento não é evidente e depende muito dos valores do professor, de sua concepção de história, etc e tal.

        O desafio do professor é fazer, da contradição ética (ou política, ou ideológica, ou de gênero) da obra, um salto pedagógico, induzindo discussão, debates e, principalmente, crítica.

      • Correto Edmar, mexer nos textos seria absurso e eliminá-los uma completa sandice. Quanto a isto não há nem o que argumentar, é não e pronto. O exemplo da democracia grega é bem adequado. Julgar aquilo com nosso olhar de dois mil anos depois não nos leva a lugar algum. Defendo ferozmente a presença de Lobato na formação das crianças, aliás milito nesta questão em casa com meus dois filhos, que adoram e pedem sempre que leia para eles. É como desenvolveu Artur no post abaixo, há momentos em que precisamos saber lidar. Deixar claro para as crianças que aquele escritor sensacional viveu em uma época em que uma pessoa poderia pertencer a outra e todas as derivações que daí advem.
        De todo modo, tenho um pressentimento de que nesse período em que Artur vai a BH terei um compromisso importantíssimo por aí. Fica pre-agendado.

  6. Fernando, concordo inteiramente com você e pretendo me penitenciar comprando o box mencionado por Artur.

    • Ducaldo, aqui em São Paulo ainda existem acadêmicos que, por conta de uma formação fortemente embasada no pensamento modernista (USP principalmente) que não consideram aceitar Lobato para além do escritor infantil, e pelo mesmo motivo que apontei no texto. Um rancor herdado de duas ou três gerações por conta do artigo contra Anita Malfati. Então tem mais é que se penitenciar e comprar mesmo. E depois dizer o que achou.

      • Realmente, curiosa essa estória: uma querela que virou um grude, transformando-se depois numa “verdade”. Nesse sentido, foi fundamental a citação de Oswald de Andrade, colocando o escritor de literatura infantil como marco zero do modernismo: “Foi em Lobato que a renovação teve de fato o seu impulso básico. Ele apresentava, enfim, uma prosa nova”.

      • Sim, faz toda a diferença ter essa frase assinada. Oswald de Andrade foi um dos que se reconciliou com Lobato anos mais tarde, após o episódio Anita Malfati. Mário de Andrade, por exemplo, nunca o perdoou. Os dois, Mário e Lobato, freqüentavam o Ponto Chic, do Centro de São Paulo, mas a inimizade entre os dois era tão institucionalizada que eles o faziam em horários diferentes e respeitavam isso com a maior seriedade.
        E outra, quando lemos o Lobato adulto em seus textos de antes de 1920, vemos uma prosa direta, fluente e objetiva. Só aí já temos um indício bem evidente da ruptura do seu texto com os estilos que prevaleciam até então.

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