Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Ressentimento

4 comentários

Por Luvanor Biansky,

Fugi da Polônia no começo da adolescência. Queria correr mundo, mas escapava também do totalitarismo. Vivera, ainda criança de colo, a ocupação nazista e não aguentava mais outra forma de opressão. Nessa época, talvez por causa da minha trajetória, fiquei maníaco por política e com uma ojeriza contra toda forma de tirania. Adquiri, além disso, por motivos misteriosos, uma dendrofobia, conhecida mais por “medo de árvores”. Não causa surpresa, assim, minha adoração por desertos.

Minha ojeriza não é um medo; ao contrário, ela me empurra para a luta. Na verdade, sou compulsivo em combater ditaduras. Tenho um belo currículo a respeito (leiam aqui). O fato de estar presente ou ser testemunha de vários golpes militares é uma mera coincidência. Já me chamaram de corvo e de urubu da tirania. É uma acusação injusta, além de irracional. Meu problema é outro, muito mais sério: não consigo evitar os golpes. Pressinto-os, luto contra, mas não os impeço. Talvez, combater as ditaduras e, no fundo, toda forma de poder seja inútil. Há quem me acuse de desejar a utopia, em vez de me conformar com o possível. Dessa vez, é uma acusação justa. Retruco com Mário Quintana: “se as coisas são inatingíveis, ora / Não é motivo para não querê-las”. Tenho a dignidade de tentar. Eu tento, porque busco, desesperadamente, um sentido na vida. Não tenho culpa de viver numa época na qual a evasão é impossível. Infelizmente, tentar transmutou-se em apostar. E fazer apostas tem seus riscos e, principalmente, cobra seus fracassos. Nesse sentido, sou um jogador e aposto sempre na liberdade. A derrota me acompanha sempre, não nego – como poderia? Quem sabe seja uma maldição ou uma tragédia. Não importa. Sou um perdedor, um loser, um marginal, um inadaptado, mas tenho dignidade. Isso importa.

Contudo, não escreverei, agora, sobre minhas lutas. Detesto amostração. É melhor escrever sobre os meus defeitos. Como diário, um blog é perfeito para isso. Desconstruir minhas virtudes, eis um bom objetivo. Quero, assim, escrever sobre um efeito colateral da minha compulsão. Sou um ressentido. O ressentimento é um grude na minha alma. Em tese, não há uma correlação entre a luta pela liberdade e o ressentimento — exceto… Exceto quando serve para esconder um profundo ódio.

Estou sendo injusto comigo mesmo? Meu espírito libertário é apenas a sublimação de uma profunda raiva? O combate seria uma terapêutica? A ação transmutaria o ressentimento em emancipação?

Não é fácil escrever sobre esse assunto, pois a confissão, nesse caso, é um jogo de esconde-esconde. Mas tentarei, como sempre.

Já fui preso várias vezes. Sou pobre. Muitas vezes, vivi de favores – estou, agora, hospedado na casa de Tsé-Tsé, em Bel-O-Kan. E sou um derrotado. Mas faço, de tudo isso, minha glória. Sinto-me superior a todos os vencedores e poderosos. Sobrevivo da revanche dos vencidos. Isso é ressentimento? Ainda não, se reajo e luto contra o poder. Não me refiro, porém, a esse momento. Falo de um instante anterior à luta. É um sentimento moral, na verdade.

Na inércia, faço da minha condição subalterna e do meu insucesso uma virtude, um motor de meu desprezo. Eu desvalorizo todos os valores dominantes e valorizo todos os estigmas, as fraquezas e as mediocridades. Geralmente, aproveito a situação e torno meus defeitos uma plataforma moral. Transmuto o desejo de emancipação numa apologia da mediocridade, agora entendida como uma vantagem e uma superioridade no mundo. Se não sublimasse esse sentimento na ação, ficaria imerso nessa espécie de revolta sem eira nem beira. É uma paralisia moral, porque faço uma valorização dissimulada da ideologia dominante, no mesmo momento em que a desprezo. É uma homenagem invertida, pois meus valores, na verdade, são os negativos dos dominantes.

O ressentimento não cria novos valores. Não há alternativa, somente revanchismo. Os estereótipos, principalmente aqueles provenientes dos poderosos, são valorizados, jamais superados. Meu raciocínio é um claro-escuro de verdade-engano: não consigo nada, logo, isso é um mérito; outros obtêm o sucesso, eu não, logo, o triunfo é consequência de um mecanismo de dominação no qual sou a sempiterna vítima.

Assim, vivo da negação do Outro. Assumo meus defeitos e meus fracassos como méritos e virtudes. Considero o sucesso do Outro como uma usurpação e um arbítrio, sempre conquistado por causa de seu poder e de sua condição privilegiada. Toda conquista, nesse mundo alienado, é fruto da violência e das relações de dominação. Desse jeito, minha desgraça é meu critério de comparação moral. Com isso, relativizo todos os valores e só percebo, por trás deles, dominação e violência. Como consequência, tenho o potencial de cometer atrocidades.

(Jamais as cometi, aviso aos navegantes. A luta contra a injustiça purga minha maldade intrínseca. Repito: a ação justa é a terapia contra o meu ressentimento. Sou, logo, eu faço. Na boa ação, a possibilidade nunca se realiza – meu ressentimento não será uma passagem ao ato. É um equilíbrio precário, confesso. E tem um tabu: nunca chegar ao poder. Não posso dominar ao combater a dominação)

O ressentido não luta contra a injustiça. Jamais acerta o alvo. Seu inimigo é um bode expiatório. Sua moral é a “vitimização”. Tem inveja e cobiça. Rumina e vive de queixas. É um poliqueixoso. O lamento é sua senha para interpretar o mundo. Ao lamentar, transforma a queixa num solilóquio. Esquece o mundo e fica completamente imerso no seu egoísmo. Cai no solipsismo, embora acredite na partilha universal de suas lamúrias. No fundo, tem uma sensibilidade igualitária: pensa o outro como um outro ressentido.

Eu uso o ressentimento para maquiar minha frustração e meus limites. Sou subalterno e dominado, mas minha situação é “objetiva”, penso sempre. O ressentimento é uma renúncia. Quando estou assim, renuncio a afrontar minha condição e a encará-la de frente. Sou um idiota da objetividade.

Assumo uma moral de escravo. Enfrento o senhor e, ao mesmo tempo, com orgulho, assumo minha condição de servo. Não abandono minhas ilusões a respeito de minha condição, simplesmente porque reproduzo uma situação baseada em ilusões. Admito minha má-fé nessa suposta libertação dos valores dominantes.

Vivi tão mal. Sofri tanto. Sinto-me tão impotente… É possível viver sem queixa e sem denegação? Queria ser religioso e acreditar noutro mundo. Gostaria de parar o sofrimento sem esforço algum. Acabar com a desigualdade num passe de mágica. Com o ressentimento, posso me emancipar imediatamente. Fico nessa constante revolta contra o imediato. Crio rituais inúteis para exorcizar o cotidiano. Eu recuso, renuncio e paro por aqui. E chamo isso de emancipação.

Minha sorte é a velhice. A idade não me fez mais sábio, longe disso. Simplesmente, tenho consciência de uma verdade bem prosaica: um velho ressentido não vale nada. A amargura e o rancor, se possuírem completamente minha alma, serão inócuos diante de um corpo já envelhecido. Meu corpo não tem mais a chama necessária ao ressentimento. Há ainda, claro, a última labareda. Ajuda-me a pensar, um ato sem desperdício de energia. E isso me basta.

Sofro apenas de ranzinzice, essa doença senil do ressentimento.

E, claro, do medo das árvores.

DimasLins
  1. Maravilha de forma de ressentimento. Pode ter certeza de que você vai para o céu (ou para o inferno, se for sua preferência), porque esse seu ressentimento não faz mal a ninguém – a não ser a si pro’prio. O problema é quando ele é (e tantas vezes o é…)a matéria coletiva de um projeto de emancipação social. Quantas tiranias que você combateu não foram fundadas sob essa forma de ressentimento. E quantas ainda vão bem de sau’de, travestidas democraticamente e tudo.
    E que texto bonito! Virei sua fã.

  2. Caro Luvanor Biansky,

    O seu ressentimento age como fertilizante. Dele brotaram verbos, substantivos e adjetivos, excelentes combustíveis para a escrita, afinal, há mais chances de escrever bem quem sente ou observa o sentimento em estado latente.

    A questão é que o ressentimento também carrega outras formas gramaticais como contrapeso, no seu caso um “porém”, conjunção adversativa que faz oposição à sua luta pela liberdade e se abriga no pavor ao calabouço, representado aqui pelo medo das árvores.

    Está bem, está bem, viajei! Talvez o medo se relacione ao fato não de temer ser o inquilino do calabouço, mas o seu senhorio. Ops! Viajei novamente.

    Porém – lá vem a conjunção adversativa opositiva novamente – nas últimas linhas escapa um cheiro de sentimento de culpa – a impotência, a possibilidade de ter vivido sem queixas e a dúvida derradeira sobre a religiosidade. Da minha parte, acho que o ressentimento e o sentimento de culpa, no seu caso, foram propulsores dignos das grandes artes.

    Belíssimo texto, Luvanor, belíssimo!

    Dimas

  3. Cadê todo mundo?

  4. Estou sempre aqui Cynthia!
    Agora onde os meninos se meteram é que eu não sei?
    Saudade das memórias do reverendo…

Deixe um comentário para Tâmara