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A ida sem volta

5 comentários

A Veja deu o salto para o abismo. Macaqueou Murdoch e o News of the World. Não é surpreendente, mas dá medo.

O assunto é sério. Publico abaixo a análise de Nassif  — peguei aqui. Mais detalhes sobre o ato do jornalismo de esgoto, aqui.

De Luís Nassif, sobre a espionagem de Veja:

“A Veja chegou a um ponto sem retorno. Em plena efervescência do caso Murdoch, com o fim da blindagem para práticas criminosas por parte da grande mídia no mundo todo, com toda opinião esclarecida discutindo os limites para a ação dá mídia, ela dá seu passo mais atrevido, com a tentativa de invasão do apartamento de José Dirceu e o uso de imagens dos vídeos do hotel, protegidas pelo sigilo legal.

Até agora, nenhum outro veículo da mídia repercutiu nenhuma das notícias: a da tentativa de invasão do apartamento de Dirceu, por ficar caracterizado o uso de táticas criminosas murdochianas no Brasil; e a matéria em si, um cozidão mal-ajambrado, uma sequência de ilações sem jornalismo no meio.
Veja hoje é uma ameaça direta ao jornalismo da Folha, Estadão, Globo, aos membros da Associação Nacional dos Jornais, a todo o segmento da velha mídia, por ter atropelado todos os limites. Sua ação lançou a mancha da criminalização para toda a mídia.
Quando Sidney Basile me procurou em 2008, com uma proposta de paz – que recusei – lá pelas tantas indaguei dele o que explicaria a maluquice da revista. Basile disse que as pessoas que assumiam a direção da revista de repente vestiam uma máscara de Veja que não tiravam nem para dormir.
Recusei o acordo proposto. Em parte porque não me era assegurado o direito de resposta dos ataques que sofri; em parte porque – mostrei para ele – como explicaria aos leitores e amigos do Blog a redução das críticas ao esgoto que jorrava da revista. Basile respondeu quase em desespero: “Mas você não está percebendo que estamos querendo mudar”. Disse-lhe que não duvidava de suas boas intenções, mas da capacidade da revista de sair do lamaçal em que se meteu.
Não mudou. Esses processos de deterioração editorial dificilmente são reversíveis. Parece que todo o organismo desaprende regras básicas de jornalismo. Às vezes me pergunto se o atilado Roberto Civita, dos tempos da Realidade ou dos primeiros tempos de Veja, foi acometido de algum processo mental que lhe turvou a capacidade de discernimento.
Tempos atrás participei de um seminário promovido por uma fundação alemã. Na mesa, comigo, o grande Paulo Totti, que foi chefe de reportagem da Veja, meu chefe quando era repórter da revista. Em sua apresentação, Totti disse que nos anos 1970 a revista podia ser objeto de muitas críticas, dos enfoques das matérias aos textos. “Mas nunca fomos acusados de mentir”.
Definitivamente não sei o que se passa na cabeça de Roberto Civita e do Conselho Editorial da revista. Semana após semana ela se desmoraliza junto aos segmentos de opinião pública que contam, mesmo aqueles que estão do mesmo lado político da publicação. Pode contentar um tipo de leitor classe média pouco informado, que se move pelo efeito manada, não os que efetivamente contam. Mas com o tempo tende a envergonhar os próprios aliados.
Confesso que poucas vezes na história da mídia houve um processo tão clamoroso de marcha da insensatez, como o que acometeu a revista.

PS: Reinaldo Azevedo, convertido em porta-voz da revista para justificar a violação injustificável, está recebendo o espírito do DOPS. Vejam o que ele postou no blog que a revista lhe dá: “VEJA ESTOUROU O APARELHO DE JOSÉ DIRCEU! O APARELHO QUE ELE MONTOU EM PLENO REGIME DEMOCRÁTICO PARA CONSPIRAR CONTRA DEMOCRACIA.” O Delegado Sérgio Paranhos Fleury não produziria uma frase melhor.

InscritosEmPedra
  1. Pois é, o que me parece mais assustador é algo que Nassif parece negligenciar (pensando mais na necessa’ria ética jornali’stica e nos setores sociais “que contam”). Minha preocupação, sociolo’gico-poli’tica, é exatamente com o tipo de leitor de classe média pouco informado que “se contenta” com a Veja. Não se trata de contentar-se, mas de interagir preferenciamente, de construir-se poli’tica, social e culturalmente com a Veja. Esse setor conta sim, e muito!, na dinâmica dos debates pu’blicos e poli’ticos em sociedades democra’ticas contemporâneas, na construção/reconstrução dos sentidos desse lugar vazio que é a democracia. Lugar vazio que pode transformar-se tão rapidamente em formas populistas, moralistas e segregacionistas da democracia. Lembremos da u’ltima campanha eleitoral presidencial no Brasil, por exemplo.

    • Pois é… quem lê a Veja? Existe uma base social, fincada numa determinada classe média, que sustenta a Veja? Caso exista, provavelmente, é uma classe média prenhe de autoritarismo — o horizonte político, aqui, não ultrapassa o neo-udenismo, isto é, o moralismo como forma de fazer política.

  2. Se ha’ base social, fincada numa determinada classe média,que sustenta a Veja, isso é uma questão empi’rica, antes de tudo, né? Especulando, diria que não, pelo menos não muito determinada nem sustentando propriamente a Veja. Par contre, pode-se pensar num tipo ideal de leitor da Veja que é de situação média afastada do mundo intelectualizado, amante de telenovelas e/ou de séries americanas e que tem a Veja como leitura jornali’stica preferencial (quando lê alguma coisa). Esse tipo ideal de leitor provavelmente não se representa como classe social determinada, como alia’s as pessoas não têm se identificado muito com classes sociais na contemporaneidade (a esse propo’sito, sugiro uma entrevista com o socio’logo Shamus Khan, em http://www.laviedesidees.fr, muito interessante sobre o que ele define como nova elite norte-americana). Mas que elas existem, existem!, como os fantasmas. Em minha velha tese, defini a realidade subjetiva desse tipo ideal de classe social como “distinção moral” e, Artur, trata-se de gente nosta’lgica de autoritarismos e mergulhada em representações sociais moralistas. Nem precisa ser dito que é gente com profundas afinidades eletivas para com as atuais formas de populismo, nesse mundo globalizado de meu deus. Oremos.

  3. Sim, existe uma base de leitores que pensa de modo compatível com a Veja. A Veja é uma empresa que precisa estar sintonizada com o seu público. Não necessariamente é gente que sai por aí brandindo argumentos reacionários e proto-fascistas. E a maioria não se interesse muito por esse tipo de debate. Mas eles existem, eles lêem Veja e a Veja conta com eles para se manter. Claro que a revista extrapola até mesmo os conceitos políticos desse público, afinal, trata-se um panfleto com uma motivação política que trabalha por uma causa, com duzentas aspas de cada lado da palavra “causa”.
    No primeiro semestre de 2010, antes das eleições presidenciais, uma parte grande desse público botou a cabeça pra fora de suas tocas e entrou com tudo no debate eleitoral, aqui no Estado de São Paulo. Classe média paulista. Foi um horror, houve momentos em que eu pensava que esse povo levaria de lavada a eleição. Quando a Dilma cresceu e passou o Serra, eles voltaram para as tocas, para sair de novo na onda fundamentalista que o Serra promoveu no país às vésperas do segundo turno.

    Em resumo, eu não me iludo com a idéia de que a Veja é uma revista que escreve apenas para os seus dono. Ela tem público, e público grande. Que não necessariamente partilha da sua contundência, mas tem idéias afins. Agora o Nassif tem toda razão quando diz que até mesmo gente do lado do espectro ideológico da Veja rejeita a revista por sua falta de seriedade. Mesmo por estas plagas conservadoras tenho visto isso. Há esperança.

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