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Não escuto mais vozes

2 comentários

Escutava vozes — todas as vozes. Alegres, tristes, sonilundas, cantantes, poéticas, chulas. Escutava até grilvos.

Cometi o erro ou o acerto, nunca se sabe, de contar ao povo. Várias pessoas, claro, já sabiam. Escutavam as vozes? Não, apenas me viam escutando, eis a grande diferença. Até aqui, não havia problema. Elas não faziam mal a ninguém; porém, eu causava medo, principalmente quando berrava, segundo o ponto de vista dos outros, comigo mesmo. Ora, não era solilóquio, e sim uma voz a me provocar. Precisava lhe responder aos gritos, do contrário jamais me deixaria em paz. Ainda mais, era uma velha conhecida. Gostava de aparecer ao entardecer.

Mas a sinceridade depende das circunstâncias. Chamaram-me de louco.

E apareceu um amigo. Era psiquiatra. Conversamos e passeamos bastante. De repente, estava num consultório do hospital psiquiátrico. Não era esse o trato. Senti-me traído. Seria apenas uma consulta. Tomaria somente uma medicação. E, de fato, estava meio ansioso – só um pouquinho. Além do mais, escutava agora uma voz poética, quase musical. Ficaria calmo, de toda maneira, e nem precisava de remédio.

Passei um tempão no hospital. Tomei muita bomba. As vozes pararam. Foram sumindo uma por uma. Ficavam inaudíveis aos poucos. No sumiço, pude conhecê-las mais. Deu saudade até das vozes sacanas.

Cada voz era uma vida, disse ao meu psiquiatra. Eu tinha muita estória para contar. Escutava duzentas vozes, logo, tinha dentro de mim duzentos romances. Ele me diagnosticou como esquizofrênico. Não acreditava em múltiplas personalidades – nem eu. Rimos, pois isso era coisa de americano, e entramos em consenso.

No final, fiquei surdo por dentro. Não tenho mais verdadeiras conversas interiores*. Só escuto agora o eco de mim mesmo. Minhas entranhas são silenciosas, porque vivem na completa escuridão.

Os psiquiatras festejaram. Deram-me alta e tapinhas nas costas. Deram-me prescrições. Tomo alguns remédios. Tampam, com a química, meus ouvidos. Só escuto as vozes lá de fora. Nada vem daqui de dentro.

Sinceramente…

Desde que deixei de escutar as vozes, sinto-me perdido.

Perdido aonde?!

Nesse mundo, onde loucura alguma pode ser pensada ou aceita.

*Artur me disse que Cynthia escuta vozes interiores 😎 . Ela é adepta do realismo crítico. Deve ser louca. Temos um free em comum. Bacana.

Sementeiras
  1. Disse a Archer que tinha um amigo que só tinha entranhas em seu interior. Nenhuma vozinha. Ela deu uma gargalhada e disse que conheceu um reflexivo fraturado que era igualzinho. Sugeriu eletrochoque.

  2. Já dei choque em Luvanor. Deu barato, e quase o viciei. O cara é muito aditivo.

    Ia dar choque em Tsé-Tsé, mas fugiu do hospício.

    De tanto vc falar em Archer, já venho escutando as tais vozes — vote!

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