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A metaforização do acarajé

1 comentário

por Biansky

Será que Perrusi Filho é um deprimido? Pensei nisso quando lia sua crônica sobre o acarajé. Escrever aquilo tudo é sintoma de uma personalidade mórbida. Sendo eu mesmo um depressivo, não nego minha identificação profunda com sua diarreia. Ela é deprimente.

Não gostei de ler sua crônica, pois fiz uma associação misteriosa entre o acarajé e minha melancolia. Não sei o motivo da associação. Levarei o tema a Tsé-Tsé, atualmente meu analista. Faço com o Reverendo uma psicoterapia “selvagem”. Para cada revelação de um recalque, levo um choque elétrico. Segundo a teoria, recalque é um segredo a ser esquecido, se possível para sempre. Aflorou o mecanismo de defesa? Leva choque na hora. Levarei muito, certamente, depois dessa associação entre acarajé e depressão.

Numa dessas sessões de psicoterapia elétrica, descobri que minha depressão tem dois ritmos: o primeiro afeta toda a minha existência; o segundo, certos conteúdos de meu pensamento. Misturo, assim, uma lentidão global de toda minha atividade psíquica com a ativação energética de um conteúdo de pensamento – a ideia fixa fica apitando no meu consciente como se fosse a buzina do Chacrinha. É uma fixação bastante agressiva, embora seja absolutamente estúpida. Seria como passar o tempo todo com a ideia de um acarajé na cabeça, junto de outros pensamentos mais relevantes.

O Reverendo acha a depressão global uma patologia importante, mas chama a outra de frescura.

_Se afeta toda tua existência, merece meu respeito. Tome um antidepressivo!
_Mas… e a outra depressão?
_Coma um acarajé e a expulse por meio da terapia líquida. Ou, então, se quiser tratar a frescura, procure um psicanalista – diz, de forma enfática.

Notei, enfim, por que fiz a associação entre o acarajé e a depressão. Recalcara a ordem do Reverendo. No fundo, o acarajé metaforizava minhas fantasias doentias – como tais, acessíveis a uma psicoterapia tradicional ou mesmo a uma papoterapia. Mas o desprezo de Tsé-Tsé inibiu minha vontade de me tratar com um psicoterapeuta convencional.

Lembro-me como tratou meu alcoolismo. Inicialmente, como um problema hepático.

_Teu fígado é doente do álcool.
_E meu delirium tremens?
_Nada demais. É uma incidência neuropsiquiátrica banal.

Jamais reconheceu meu alcoolismo como equivalente depressivo, mesmo se o álcool era, para mim, uma automedicação antidepressiva. Tentava brecar, talvez, minha mania de reduzir toda psicopatologia ao modelo da depressão. De fato, eu já fizera, no passado, outra redução: achava tudo expressão de uma angústia primitiva. Sempre fui ansioso e sofri, durante anos, da síndrome das pernas nervosas. O Reverendo, inclusive, usou um método infalível para os meus impulsos deambulatórios compulsivos: quebrou minhas pernas! Passei seis meses no gesso. Doeu, mas funcionou.

_Mas os antidepressivos são formidáveis. Eles funcionam! Isso não significa nada?!
_Ao reduzir todo sofrimento psíquico a um transtorno tímico, você estimula a reprodução ampliada do capital farmacêutico. A indústria farmacêutica adora antidepressivos. Os capitalistas te agradecem.

Era uma tapa de luva daquelas, pois sou um bolchevique. Não quero fazer parte, de forma alguma, do Circuito Ampliado do Capital. Sentiria muita vergonha, caso fosse verdade. Só de pensar nisso, deprimia-me ainda mais. Uma vez, fiquei bem mal. Comi muito acarajé e tive diarreia, mas não adiantou. Findei, assim, tomando antidepressivos. O Reverendo ficou fulo de raiva. Fiquei feliz. Derrotara, sem querer, o velho religioso no seu próprio terreno. Mas paguei um preço caro pela vitória: levei várias sessões de choque. Segundo Tsé-Tsé, não era revanchismo, longe disso. Chamou de tratamento moral. Minha necessividade de antidepressivo – logo, do Capital — precisava de terapia radical, pois era um perigoso recalque pequeno-burguês. O choque funcionava como um enquadramento ideológico.

O choque elétrico, como tratamento moral, tem sua base lógica, principalmente para um bolchevique. Mas sempre o achei estranho e desnecessário. Preferia um processo reeducativo, por exemplo, como a leitura obrigatória de “Imagens da Loucura”, um romance vulgar de terror. Sempre funcionou, mas nunca deu barato, como o ECT.

Sementeiras
  1. Acarajé e melancolia? Sei não.

    Acho mais plausível associar quitute baiano à ansiedade. Não há nada mais aflitivo do que diarreia, especialmente em hora e locais impróprios.

    Para aparelhos digestivos mais sensíveis a culinária baiana é indutora de movimentos rápidos – dos intestinos e dos membros motores.

    Convenhamos, um depressivo que se movimenta lépido e fagueiro, mesmo em direção à latrina , não é algo aceitável.

    Outrossim, a terapia do Reverendo é bem apropriada – nada harmoniza mais, pelo menos no Brasil, do que choque elétrico com bolchevique. Ustra, o brilhante, que o diga…

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