Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

O acarajé

7 comentários
Comi e me lasquei!

Comi o acarajé. Era uma tentação muito grande. Sabia das consequências. Não sou um espírito sensível, mas tenho o estômago de uma moça. Ponderei muito, é verdade, mas a reflexão é insuficiente diante de um desejo violento. A razão, quando se trata de um acarajé, deve ceder o lugar à fé. A iguaria baiana coloca um limite evidente à racionalidade. Sua presença fez-me desistir de encontrar a resposta ou a escapatória no mundo físico. Suspendi, por um momento, meu materialismo. O acarajé tornou-se transcendental, em suma.

Sabia do perigo do sanitário. Sabia da diarreia. A consciência não leva, necessariamente, à ação. A conscientização não é, automaticamente, uma terapêutica. Se fosse, não existiria a tentação e o pecado. O discernimento do risco não implica evitá-lo. E não nego o prazer de fazer um ato perigoso ou proibido com conhecimento de causa.

Porém, mesmo diante do fracasso da razão, tive fé que não teria uma diarreia. A razão não poderia me salvar da caganeira – uma salvação sem merda, por exemplo. Num mundo cartesiano, comeria o acarajé e poderia me salvar por conta própria. Ledo engano, pois “penso, logo existo” é incompatível com esse bolinho de feijão-fradinho descascado. Apelei para a fé e, no fundo, para um Outro. Sim, repito, queria me salvar do desarranjo que ameaçava minha existência. Comeria o acarajé, sem razão, mas com fé e, quem sabe… com sabedoria. Como nunca encontrei a sabedoria na razão, talvez a fé ajudasse a encontrar a serenidade, esse desejo da sabedoria.

Infelizmente, não fui sereno ao comer o acarajé. Como podia sê-lo? É muito tarde para ter fé. Já fechei a janela faz tempo. Não há abertura no meu espírito. Não sou generoso, pois não acredito em Ninguém. Assim, comi o acarajé com medo. Cá entre nós, para alcançar a serenidade, é preciso vencer os medos. Sem isso, o banheiro é o nosso destino.

Na verdade, deveria comer o acarajé por amor. Afinal, se é para ter fé, sabedoria e serenidade, o amor seria a escolha mais óbvia. Venceria o medo. Não teria, certamente, a diarreia. Contudo, com medo, comi o acarajé sem paixão. A vendedora notou toda minha hesitação. Falou o óbvio: na Bahia, come-se acarajé por amor para evitar a diarreia. A paixão substituiu as fontes tradicionais do desarranjo intestinal. E, sem paixão, eu não conseguiria sacralizar o acarajé. O sagrado impõe o sacrifício, até a doação da vida, mas nos salva da latrina. Mas não sou baiano, afinal de contas, e não daria minha vida por esse bolinho apimentado.

Eis mais um problema: não entendo, simplesmente, o sagrado. Não consigo morrer por Deus, pela pátria, pelo comunismo, quanto mais por um acarajé. Se amasse, estaria disposto a tudo. Sim, entendo isso. Certamente, sacrificar-me-ia por amor, pelas pessoas que amo. O novo iluminismo é o amor, São Paulo, segundo a Nova Esquerda — é o que restou.

(Acho uma frescura esse cristianismo todo. Acarajé cristão, argh!)

No cômputo final, tive sorte, pois estou vivo para contar essa estória. E, mais um pouco, aquela porcaria teria me matado.

E continuo sob o efeito do acarajé, sem dúvida. Leio o escrito acima e percebo que preciso ir ao banheiro. Foi mal aí, pessoal. O texto saiu assim um tanto líquido. A vida é assim mesmo — acontece. A gente vive, caga e, depois, esquece (hihi).

DimasLins
  1. Pois é… Estou eu aqui, com estômago de “hômi”, comendo alguns acarajés da Bahia (Eunápolis)…
    Mas esse texto me fez lembrar das palavras do meu tio que disse: “beber cerveja quando está tomando antiinflamatório é certo que a diarréia aparece”…

    Vamos ver, né?
    Tenho fé que não.

    Abraços!

    • Dona Clare! Sabia que um texto sobre acarajé despertaria a curiosidade de uma baiana. Tenho uma notícia boa: se a cerveja for Frevo, sua mistura com anti-inflamatório dá… barato! Aliás, a própria cerveja Frevo causa alucinações e delírios. Abção.

  2. Bem que avisei…
    Mas arrasou, Artur! Esse texto deveria estar também no Cazzo: isso é perfeito para um blog de teoria/metodologia em ciências sociais. Voilà lançado “o paradigma do acarajé – ciências sociais no século XXI. A Europa, França e Bahia revisitada por um pernambucano”. Abraço

    • E eu estava no Conlab (não-sei-que-lá-congresso-luso-africano-brasileiro-ciências sociais), apresentando um trabalho sobre diarreia, ops!, cronicidade na saúde mental…

      Vc devia ter me avisado antes da viagem…

    • Concordo com Tâmara. E Jonatas, que gosta dessas coisas de desejo, animalidade, sei lá, vai adorar.

      • Curioso, quer dizer que Jonatas gosta de desejo, animalidade, essas coisas?! É bom saber. Utilizarei a informação quando dos embates políticos. Imagino a cena política: Jonatas discordando de mim e eu retrucando:

        _e vc, rapai, que gosta de desejo e animalidade!?

        Matou…

  3. E eu la’ sabia que você ia inadvertidamente à Bahia? Sou do quintal, meu irmão, se soubesse do risco que você corria, o socorreria (essa rima eu aprendi em Campina Grande com Ronaldo Coisa Linda).
    E eu pensando que iria conhecê-lo no congresso da SBA de Curitiba, muito mais fa’cil de decorar (esta’vamos em Gts vizinhos!).
    Mas ainda acho que o ti’tulo pode ser melhorado: “o paradigma do acarajé e as ciências sociais no século XXI. Europa-França-Bahia ressignificada por um pernambucano”. Acho que ressignifiação pode valer uma bolsa de produtividade! Ma como é que se escreve mesmo? Abraço

Deixe um comentário