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Momentum e Morte
Dirigia o carro na estrada. Não corria, como sempre, apesar de a estrada ser muito boa. Gostava de dirigir um carro bom e potente. Era até mais seguro.
Botou um CD. Tocava a Ária na corda Sol ou Ária da Quarta Corda, uma adaptação para violino e piano do segundo movimento da Suíte nº 3 para orquestra, de J. S. Bach. Instintivamente, fechou os olhos. Escuta-se Bach de olhos fechados e, se possível de joelhos, em reverência. É quase uma obrigação. Era sensível o suficiente para aceitar o imperativo categórico.
Antes mesmo de pensar em se ajoelhar, o carro desgovernou-se, capotou duas vezes e foi esmagado por uma jamanta. Morreu na hora.
Morrera feliz, ainda mais nessa espécie de catarse estética, na qual Eros e Tânatos rodopiaram juntos? Morrer, enquanto se escuta Bach, define felicidade? Talvez, o momentum abarque toda a totalidade de uma vida. O leito de morte seria esse ponto singular a partir do qual todo julgamento seria possível. Porém, a singularidade do momentum precisaria da estética para se qualificar como juízo final.
Enfim, debaixo do carro, tivesse ainda tempo, ele aproveitaria para julgar sua vida? Importaria, nesse instante, saber se foi feliz ou não?
Quando chegou a polícia rodoviária federal, estavam o carro, o corpo e nenhum pertence. A população da estrada já tinha dado o rapa — inclusive, o cd de Bach.
(E, se estivesse, no momentum, escutando Chitãozinho & Xororó, teria a mesma possibilidade de fazer a Grande Retrospectiva? Nivelar todo instante não seria combater toda forma de elitismo? Se tudo é bom, o juízo final não tem direito de julgar uma vida como vulgar. Mas aí seria especular demais…)

















CD? Não era rádio? Piano? Não era um cravo? Artur? É você?
Não sou eu. Impossível. Estou na Bahia. Não se pode ser em Salvador. Com acarajé, tudo que é sólido se desmancha no ar.
Uma emenda, companheiro: em Salvador, com acarajé, tudo que é so’lido desmancha no vaso – sanita’io. Sem hora para o intestino! Confie em minha larga experiência sotoropolitana: acarajé não é para iniciantes. Abraço.
Pois é, queridinha… sinto-me um pós-humano após o acarajé ou um pós-culo, para seguir uma lógica já discutida.
Quem morre escutando C&X merece ser pisoteado pelas bestas do apocalipse.
Isso dá uma enquete legal:Qual a trilha sonora que você quer no “momentum” de embarcar?