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O encontro entre o homem e o menino

8 comentários

De repente, em Intermares, abriu um buraco embaixo de uma mesa lá do Bar do Surfista. Ninguém notou, porque era muito pequeno; na verdade, acanhado mesmo. Imagine algo muitíssimo pequeno; pois bem, o buraco era zilhões de vezes menor do que aquele concebido pela sua vã imaginação. Sim, infinitesimal. Mas tinha milhões de anos-luz de comprimento. É uma extensão grande pra dedéu, convenhamos — inimaginável.

A abertura durou muito pouco, pouquíssimo, um tempo virtual, na prática inexistente. No entanto, foi o bastante para repercutir nalguns surfistas: caíram da prancha; voltaram, imediatamente; não pensaram no assunto. Não sabiam, mas colidiram com um microuniverso. A colisão matou todos os seus microseres. Os surfistas jamais entenderiam a tragédia. Além do mais, estavam mais preocupados com a próxima onda.

A abertura do buraco repercutiu, também, noutros lugares e no tempo, incluindo o passado. Pegou de surpresa um grupo de átomos de carbono. Passeavam pelo espaço, sem muita preocupação nuclear. Do buraco, saíram bósons de Higgs do tamanho de elefantes. Bateram de frente, embora não se saiba bem, nesse caso, o que significa a expressão “bater de frente”. A colisão reagrupou-os numa interação meio tresloucada e formou dois seres imprevisíveis. A batida criou, também, uma improvável casinha de madeira.

Os dois seres estavam na casinha. Um era já quarentão e o outro tinha uns doze anos. O homem notou que o menino era, na verdade, seu pai. O filho não parecia surpreso. Trabalhava na UFPB, lugar completamente surpreendente. Não se espantava mais com nada, muito menos de estar ali com aquele menino, justamente o seu pai.

_É meu pai ou será meu pai? Foi a única dúvida que passou pelo seu espírito naquele momento. Decidiu tratar o menino como seu pai, por via das dúvidas. _Ele será sempre meu pai, independentemente do tempo e do espaço — pensou o homem. Seu pai era uma maldição ontológica, não deixaria de reconhecê-lo, assim sem motivo.

O menino estava em silêncio. Parecia meio parvo. Olhava o homem de forma opaca. Não estava confuso, parecia só não saber o que dizer. Mas disse, enfim.

_Hein?!

O homem, também, não sabia o que dizer. Mas, diante do “hein?!” do menino, entabulou uma conversa sem nexo.

_Você casará com minha mãe.

Era uma afirmação lógica, talvez inapropriada. Mas era melhor do que nada. Quebrava o gelo.

_Hein?!

Meu pai só diz “hein?!”. Devia ser irritante quando menino — pensou o homem. Mudou a tática e tentou animá-lo.

_Você casará com uma loira!
_Uma loira?! Perguntou o menino, enfim interessado.
_Sim, uma loira espetacular.
_Marilyn Monroe?!
_Não, não, você casará com outra loira.
_Outra loira?! Não será Marilyn Monroe?!
_Não, não será.
_Tem certeza?
_Absoluta.
_Então, não quero.
_Mas vai…
_Não quero.

O menino era teimoso. Parecia mesmo seu pai. Decidiu trazer à tona a mais pura verdade.

_Sou teu filho.
_Você?!
_Sim, eu.
_Mas você é muito esquisito!
_Não sou esquisito.
_É muito, sim! E tem as pernas tortas.

O homem olhou as pernas. De fato, eram cangalhas. Não gostou da observação nem um pouco. Perdia a cabeça quando alguém lhe dizia isso.

_A culpa, no fundo, é tua.
_Não tenho culpa, não.
_Você é meu pai.
_Minhas pernas não são tortas assim.
_São um pouquinho. E foi suficiente para tornar as minhas ainda mais tortas.
_Deve ter sido culpa da loira.
_Não fale assim da minha mãe.
_Ela não é Marilyn Monroe. Falo o que quiser.
_Não fala!
_Falo!
_Mas você se casará com ela!
_E daí?!
_E daí que você é meu pai.
_Mas você é muito esquisito! E tem jeito de doido.
_E você ficará bem mais…
_Hein?!

A conversa estava repetitiva. Não iria muito longe. O menino era mesmo parvo, pensou o homem. E era seu pai, lamentou-se.

Porém, o lamento durou pouco. Uma enorme minhoca saiu do buraco e entrou na casinha de madeira. Estava com raiva. Morava num macrouniverso bastante aprazível — só tinha terra por todo lado. E detestava casinhas de madeira — não era um cupim. Num gesto intempestivo, engoliu o homem e o menino. O homem ainda especulou se minhoca tinha boca, mas sua indagação durou menos do que um nanossegundo. Já o menino, apenas exclamou:

_Hein?!

Sementeiras
  1. Artur,

    Que crônica doida da peste! De tão doida é muito boa. Faz tempo que não leio uma crônica tua, coisa boa.

    Será uma retomada de contos e loucura?

    Dimas

    • Irmão Dimas,
      Tens razão. Muito boa essa história de Artur. Literariamente bem estruturada e imaginativa. Fatos do cotidiano de Intermares. Nada mais! Contudo, desculpe a auto-referência. Estava me balançando na varanda de minha palafita, olhando pro Capibaribe. A tal minhoca gigante de Artur passou nadando pelo rio e me perguntou quem era o pai de Artur. Fiquei rindo em silêncio. Minha bênção nanométrica.

    • Foi uma mistura de Hawking (O Grande Projeto) e o genial Douglas Adams (Guia do mochileiro das galáxias). A doidice é um desdobramento, uma derivação.

      Rapai, vc continua elegante!

    • Artur,

      Como disse, tomei banho de Photoshop, por isso, sou mais elegante no mundo virtual do que na vida real. Na vida real, vou ao banheiro como todo mundo, embora ainda não entenda a lógica da odisseia intestinal.

      Caro Reverendo,

      Pelo tamanho da minhoca, fiquei com a impressão que foi a cobra coral em visita a João Pessoa. Não será não?

      De todo modo, sua varanda tem uma visão privilegiada.

      Dimas

      • Irmão Dimas,
        Enquanto assistia ao sorteio das eliminatórias, estive pensando. O prezado irmão acertou em cheio. A minhoca gigante de Artur não passa de uma manifestação quântica de nossa pra sempre querida cobra coral. Porém, como entidade quântica, não sei se ela perguntou ou deixou de perguntar. Quem sabe, as duas coisas simultaneamente. Ou nenhuma das duas. Enfim. Minha bênção indeterminada.

      • Reverendo,

        Tenho pra mim que Artur anda com minhocas na cabeça. Acho que é trauma (Freud explica) da Série D.

        Também pode ser alguma relação tempestuosa na infância. Como a crônica é com minhoca, suponho que esse trauma seja com o pai. A minhoca seria, não sei bem, uma espécie de alter ego do nobre morador de Intermares. Falar em Intermares, estranhei apenas o fato de não ter surgido na crônica nenhuma tartaruga gigantesca.

        Da sua varanda, o senhor não viu nada de estranho?

        Dimas

      • Li na wikipédia:

        “Tartarugas de Intermares habitam, geralmente, buracos negros do centro da galáxia e do Bar do Surfista”.

        Soube, assim, a causa da escuridão de Intermares. A escuridão não é fruto da incompetência da prefeitura de Cabedelo. Na verdade, as tartarugas do buraco negro sugam a luz de Intermares.

  2. Artur, você está trabalhando demais. Suas idéias estão embaralhadas e o Reverendo ao invés de lhe ajudar, complica ainda mais a situação.
    Na sua história, a projeção é do filho no pai ou a do pai no filho?Ninguém pode entender isso…

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