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Vida boa, vida em crise

6 comentários

O que me espanta, de fato, com a atual crise do capitalismo é o seguinte: as finanças causaram o colapso e sairão fortalecidas; na verdade, os financistas sairão mais ricos e poderosos. A receita para sair da crise é a receita para reforçar os setores que causaram a desgraça. E reforçar tais setores significa enfraquecer, justamente, todos os setores do trabalho — uma regra banal, esquecida na atual conjuntura de “banalidade do mal”. Estamos diante de um apagão ideológico. Um mundo maluco no qual o indivíduo não percebe o que percebe e percebe o que não percebe, não acredita no que acredita e acredita no que não acredita — toda e qualquer opinião torna-se verdadeira e tudo fica muito opaco.

(Tenho sorte de me drogar com psicotrópicos, pois somente assim posso perceber o que, realmente, acontece — Perrusi Filho diz que eu deliro, mas o rapaz é adepto da falsa consciência e não pode ser levado a sério)

Enfim, seria como se a regra fundamental do capitalismo financeiro fosse, primeiro entrar em crise, para depois realizar seus objetivos. Essa lógica, caso seja levado ao seu reductio ad absurdum, fará com que a crise, para o capitalismo, não seja mais episódica e sim constante, já que gera mais lucro e poder. O tempo todo em crise, eis o novo brasão. Já, já os economistas farão estudos e estudos mostrando a vantagem econômica de se viver em crise. Darão gargalhadas e baterão palmas. Com a legitimidade econômica, um novo estilo de vida surgirá: “vida boa, vida em crise”.

Imagino como serão os atendimentos nos consultórios de psicologia, psicanálise e de psiquiatria…

A esperança? Os cidadãos gregos, com a redescoberta da ágora e suas palavras de ordem: “não devemos, não vendemos, não pagamos”. São adequadas aos novos tempos — bem diferentes da época da divisa “Paz, Terra e Pão”.

DimasLins
  1. Parabéns atrasados para Luvanor, Pepê e Tsé Tsé, que fizeram aniversário!

  2. Minha afinidade com seu texto foi imediata: terei alunos de economia no pro’ximo semestre e ja’ estou tentando me preparar para a arrogância com que esses meninos e meninas olham um socio’logo. Decidi que vou botar pra quebrar, deixar claro por a mais b que a ciência econômica não passa de um monstro burro, destrutivo e sem charme. Mas que, infelizmente, continua dominando cada vez mais nossa orientação cognitiva e existencial.Você tem esperança na redescoberta da a’gora pelos gregos contemporâneos? Bom, os a’rabes andam também fazendo barulho contra isso e otras cositas mas, todo mundo internectado e tudo mais, mas o problema é que todos no’s, gregos, baianos e a’rabes, brigamos contra o que esta’ ai’, mas somos apaixonados por jogos e compras. As palavras de ordem dos gregos dizem tudo do que somos. Até cientistas sociais especializados em movimentos sociais contemporâneos, cri’iticos, engajados e etc. e tal, usam termos sai’dos diretamente da ciência econômica para a avaliação dos movimentos. Transmutamo-nos em seres de produtividade, otimização e agregação de valor. Minha u’nica esperança é uma cata’strofe globalizada, porque ainda acredito no instinto de preservação da espécie. So’ não sei se esse instinto vai prevalecer antes que seja tarde. Penso agora na Possibilidade de uma Ilha, do reaciona’rio Houelebecq: triste fim de um não Policarpo Quaresma. Valeu pelo texto.

    • E o fim está próximo, Tâmara, caso os republicanos decidam a moratória americana. Quem diria…

      Mas que derrota: muitos americanos acreditando piamente que foi o “socialismo” democrata o causador da crise — no fundo, o estado, qualquer estado, todo estado.

      Dá um medo desgraçado.

      Estamos num tempo de resistência. Voltemos a Benjamim. Bjs.

  3. Pois bem, acho que precisamos, bestamente, de um meio termo entre Benjamim e Lenin. Benjamim era a coisa mais linda do mundo, mas, no que diz respeito à resistência, foi um suicida. Lenin, morreu cedo pra se saber, mas não acredito que fosse um sanguina’rio como Stalin. Entretanto, acho que tinha tudo para realizar-se como um Czar mais o menos esclarecido – mais pra menos do que pra mais.Os sonhos são outros.

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