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Vete a tomar por culo!

14 comentários

Exposição contrassexual na Galeria de Arte de Paris

Meus amigos e amigas, apresento-lhes uma nova atitude, um novo comportamento: a contrassexualidade. Percebendo que o blog é moderninho e antenado com as mudanças na mundanidade, decidi ajudar os amigos e amigas que ainda têm dúvidas sobre o verdadeiro significado da vida e outras coisitas mais.

Claro, não me responsabilizo pelas consequências. Seria demais, além do que, respeito a autonomia moral de cada um. Mas acho que as considerações abaixo ajudarão alguns a assumir suas mais viscerais aptidões. Não somos ocos, podem ter certeza. Temos vísceras, isto sim! E, como tais, indicam um caminho que vai até ao…

Não, não quero me adiantar. Um suspense é feito vinhozinho gaulês, é bom e só faz bem. Assim, antes de tudo, leiam abaixo uma parte fundamental do “Manifesto contrasexual”:

El ano presenta tres características fundamentales que lo convierten en el centro transitorio de un trabajo de deconstrucción contrasexual. Uno: el ano es un centro erógeno universal situado más allá de los límites anatómicos impuestos por la diferencia sexual, donde los roles y los registros aparecen como universalmente reversibles (; quién no tiene ano?). Dos: el ano es una zona de pasividad primordial, un centro de producción de excitación y de placer que no figura en la lista de puntos prescritos como orgásmicos. Tres: el ano constituye un espacio de trabajo tecnológico; es una fábrica de reelaboración del cuerpo contrasexual poshumano. El trabajo del ano no apunta a la reproducción ni se funda en el establecimiento de un nexo romántico. Genera beneficios que no pueden medir-se dentro de una economía heterocentrada. Por el ano, el sistema tradicional de la representación sexo/género se caga.

O “Manifesto contrasexual” foi escrito por Beatriz Preciado. É uma filósofa e uma ativista queer. Ensina história política do corpo e teoria queer em Paris VIII. É autora de Terror anal e Pornotopía: Arquitectura y sexualidad em “Playboy” durante La guerra fria.

Foi um amigo antropólogo que me emprestou o livro. Ah, a antropologia, espaço da liberdade de pensamento, ao contrário da sociologia, que voltou aos tempos de Comte. Não existe nada mais reacionário, atualmente, do que a sociologia nas ciências sociais, até mais do que a ciência política, essa ciência de gênero, dos gordinhos de cinto, calça de linho, camisa encasacada e sapato social — tudo combinando, claro. Curiosamente, meu amigo tem diarreias constantes. Acusa os vermes, os protozoários e os rotavírus. Talvez seja uma acusação injusta. Seguindo Preciado, pode ser um recalque, o protesto anal de um cu não assumido como vontade de poder. O cu líquido, como diria Bauman.

Dois pontos fundamentais dessa discussão. O primeiro é a afirmação de longo alcance: quem não tem cu? Sim, a você que está lendo agora, pergunto na bucha: você tem ou é tapado do cu e, consequentemente, do entendimento? Claro, você pode ter hemorroidas, logo, incapaz de assumir uma atitude contrassexual, fazendo parte desse novo grupo de exclusão social. Mas, não sofrendo de dores anais, você pode assumir completamente o cu como valor universal. Pois é, seria esse o grande argumento filosófico do trecho acima. E, convenhamos, a argumentação é implacável. O cu está aquém e além do pênis ou da vagina, produtos atávicos da evolução. Todos o têm, inclusive, mamíferos e outros animais — até protozoários têm sistema excretor, logo conceitualmente cu,  mostrando sua anterioridade ontológica em relação a todos os orifícios da vida.

O cu é, paradoxalmente, uma tapa de luva em todos os pós-estruturalistas e pós-modernos, inimigos do Universal. Seria a volta recalcada do Iluminismo? Certo, os iluministas não o assumiram como universal, preferindo outros valores, o que foi um erro anal de grandes consequências filosóficas, cá entre nós. O cu estava ali embaixo o tempo todo —  sempre. Funcionava no dia a dia, exceto quando acometido de prisão de ventre — depois do suicídio, o problema filosófico mais instigante. Era óbvia sua presença, mas a banalidade será sempre invisível à reflexão. O verdadeiro mistério é o visível e não o invisível, dizia Oscar Wilde. A consciência anal foi presa fácil da ideologia, sendo reprimida e excluída do pensamento ocidental. Sade foi uma exceção na filosofia, e deu no que deu. O flato (versão política do peido) pode ser, assim, interpretado como a luta anal pelo reconhecimento e pela visibilidade político-cultural.

O segundo ponto é muito importante —  o cu como tecnologia e  fábrica. O capitalismo não reconhece a produção anal. É uma produção complexa, envolvendo uma tecnologia ainda não reproduzível pela ciência contemporânea. Será que estamos diante dos limites do fetiche da mercadoria?! A merda, como tal, não teria valor de troca? O efeito corrosivo da mercantilização não a diluiria? Nem tudo, assim, que é sólido desmanchar-se-ia no ar? Talvez, estejamos diante de uma crítica implacável ao capitalismo. O cu, como produtor, não faria parte da acumulação primitiva, nem da acumulação ampliada do Capital; ao contrário, negá-lo-ia, sendo o cúmulo da produção anticapitalista. É uma cagada geral.

Nesse exato instante, compreendo o grito de guerra da antiga LibeLu (Liberdade & Luta, organização trotskista) nos congressos estudantis de minha época: “Coito Anal! Derruba o Capital!”. Estavam à frente do tempo, e eu não sabia…

Enfim, por tudo isso, caros amigos e amigas, em vossa homenagem, posso tranquilamente, sem culpa e sem pena, mandar todos vocês tomarem no cu!

Torcedor
  1. A merda enquanto conceito (a vontade absurda de cagar) carrega em si um paradoxo quântico: ela é simultaneamente sólida, liquida, pastosa e ainda exala parte de si sob forma gasosa (metano). É impossível se determinar seu estado com precisão antes de ser expelida

    • E dizem que é impossível determinar, ao mesmo tempo, a posição e a velocidade da merda — a própria tentativa já faz o cientista quântico se borrar todo.

      Em tempo: o Reverendo esclarece que não é a velocidade e sim o momento da partícula (momento = massa x velocidade). Claro, há toda uma polêmica a respeito da diferença quântica da merda. J.B. Barnes, físico de Southwark, chega a afirmar que a merda não tem momento algum, só velocidade (Barnes, JB – A merda a respeito – São Paulo: Editora Tabuísta, 1999).

    • Me interessou a merda como valor de troca. A correlação com a música do Mestre Ambrósio foi automática:

      Em Zé Limeira pra prefeito eu vou votar
      bota uma lei pra lascar
      nem real e nem e nem cruzeiro
      bota bosta por dinheiro
      para ver povo enricar

      Além do mais, como no meu site costumo colocar músicas para acompanhar o texto, deixo essa música para ilustrar o manifesto:

      Com Carinho

      http://www.torcedorcoral.com/audio/comcarinho.mp3

      Dimas Lins

  2. Amigos do Blog:
    Metafísica barata e inconsútil. Nada disso. A cópula anal não passa de mera contingência anatômica. O Criador nos fez assim e, segundo o Evangelho, temos que admirar sua obra. Nós, da Comunidade Gay do Congresso Nacional, apenas admiramos os músculos masculinos, um dos quais nos causa bastante prazer. A última frase do artigo é injuriosa, preconceituosa e homofóbica. Não “tomamos”! Apenas, compartilhamos o que a humanidade masculina tem de melhor.
    Beijos.

  3. Amigo,

    Um ensaio muscular, com insights centrais sobre esse ponto, por vezes, obscuro da economia existencial e libidanal humana. Concordo com muito do ex-posto: sim, o cu é a verdadeiro apelo do(a) outro(a), como diria Levinas, pois só podemos constatar essa dimensão de nossa fábrica e produção primária inclinando-nos em direção a(o) outro(a). Abrirmo-nos para tal abertura é o gesto ético fundamental. O cu é, também, como diriam os psicanalistas nossa usina básica, o instrumento dos instrumentos – sacada que certamente levarei para os meus ensaios na área de sociologia da técnica. Voltemos um pouco. Levinas nos diz que ao nos abrirmos ética e ontologicamente para a face do outro(a), não deveremos ver ali olhos, boca, nariz, nada que o objetifique. Logo a verdadeira face do(a) outro(a), para o célebre filósofo francês, é o cu, a possibilidade de toda ética.

    E é claro que concordo com você que a relação entre capitalismo e retenção anal é estreita. Como diria outro grande pensador do século XX, Georges Bataille, o capitalismo é a impossibilidade do dispêndio, é prisão de ventre, é contração férrea de esfíncter. (E é claro que o amigo já leu seu ensaio sobre a excreção.) Donde o moto da LibeLu, que você nos lembra de forma tão oportuna. Aqui, todavia, fica óbvio seu desvio pequeno-burguês quando afirma que a LL esteve na vanguarda da história. Ora, por tudo o que foi dito, é preciso reconhecer que os trotskistas estiveram em sua (da história, óbvio) retaguarda.

    Fiquei impressionado que você tenha percebido na ideia de liquidez de Bauman algo evidente: uma adesão clara a proctosociologia. Acho também que você poderia explorar mais a importância de Sade para pensar essa retaguarda pulsante do Iluminismo.

    Agradeço pelo texto e análise do lado escuro da Força. Jonatas

    • Hehe…

      Não tinha pensado em Levinas, como expoente da ética anal. Entendo agora. Esse dado explica, inclusive, o mistério da mudança do nome do livro “Entre le Cul: essais sur le cul-à-l’autre” para “Entre nous: essais sur le penser-à-l’autre” — foi censura do editor.

  4. Eu estou impressionada com o vigor e a potencialidade dessa proposta ética anal. Mas surgiu uma du’vida, como que um paradoxo entre a teoria e a experiência: passando a mão pelo meu, acho-o tão objetivado…Como resolver essa dimensão aporética de minha aproximação reflexiva para com a ética anal? No mais, concordo com Artur, emendado pertinentemente por Jonatas por aquele pequeno desvio pequeno-burguês, sobre o papel de retaguarda emancipato’ria da Libelu.

    • A objetivação anal é um problema clássico da alienação humana. Um cu objetivado é um com falsa consciênca. Recomendo a sua subjetivação urgente. Dizem que há técnicas holísticas para tal. Não resolve a aporia, mas a contorna — ou, então, sugiro fazer como Alexandre fez com o nó górdio (metáfora muito suspeita): pegou a espada e crau no nó górdio!

  5. He, he, he. Sei não, doutor, mas sua prescrição lembra o analista de Bajé. Não tinha pensado ainda que esse psi freudiano ortodoxo pudesse aderir à ética anal.

  6. Outro dia ouvi a seguinte frase: Quem tem cu tem medo. Na era da sociedade do risco e da liquidez, acho que a afirmação revela uma verdade fundamental: o cu é o exponte máximo da modernidade tadia. É afeito a rasgos de liquidez, não tem genêro, revela uma sensata e dialética relação entre aparência e essencia (visceral); além disso, ninguém sensato duvidaria da relação entre capitalismo e prisão (de ventre, este quase sempre associado a criação). Mas há também muito medo a povoar o horizonte das experiências e da reflexão teórica atual. A relação ente cu e medo parece ratificar o imaginário da inseguança, mas essa é só uma das faces de Jano, a outra é libetária, contrassexual.

  7. Não pude resistir à tentação de voltar a esse ponto.

    Andei estudando o tema a partir da leitura desse que já é um clássico da ensaística nacional, o “vete a tomar…”. Vi que mais curiosos como eu colaboraram para o desenvolvimento do tema – e esclareço: alguém interessado no tema em questão, mais que um pesquisador, será sempre um curioso. Quanto à ponderação acerca da tangibilidade/intagibilidade do cu. Aqui há de se esclarecer: a história do ocidente é ocularcêntrica; o tato nunca gerou conhecimento metódico, teoria – própria palavra teoria, do grego theorein, como ensina Jay, denuncia o nosso apego à visão. Daí que intuir de modo táctil o terceiro olho não seja conhecê-lo. É preciso sair deste narcisismo primário e perceber que só nos conhecemos a fundo através do auxílio de nossos entes queridos.

    E a relação entre cu e medo – bem achado Verna! – só pode ser traduzida de forma expressiva em termos de liquidez, de diarréa. Daí a imagem que persegue Bauman sempre que ele fala na contemporaneidade.

    Colega, Artur. Perdoe-me por me empolgar.

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