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LXIV – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

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(Corpus infantilis)

64º CAPÍTULO

 

Desculpem o sumiço. Tive um unheiro e as compressas de folhas de mangue requentado, antibiótico criado pelo Dr. Quim Júnior, não deram resultado. Ao contrário, os fungos passaram de um dedo pro outro, até mesmo para aquilo que não tinha nada a ver com o caso.

Mas, onde estava mesmo nesse troço de Memórias?

─ Tudo bem, Quimzinho! Já sei. Num tem nada a ver com o maldito alemão.

Eis aí! Havia terminado meu ciclo romano e preparava-me para embarcar no Constelation da Panair, de volta a Bel-O-Kan. Viagem, aliás, desgraçada que durou uma semana e quase me enlouqueceu.

Devo dizer, de logo, que a ingratidão é a principal virtude da ICR. Nenhuma das minhas dedicadas Irmãzinhas foi ao aeroporto. Apenas uma delas mandou um bilhetinho desejando-me uma boa viagem de regresso. Estava ocupada preparando a visita do Bispo de sua cidade.

Sei muito bem que tipo de visita!

Pra minha desdita, sentei-me numa poltrona do corredor. Na janela, estava uma jovem, até bonitinha, com uma criança de colo.

Tudo bem, pensei, os Sagrados Países Baixos de Nosso Senhor salvar-me-ão de qualquer escorrego. Afinal de contas, o avião corre lá por cima e não lá por baixo.

Das pontes!

Comecei a ler meu Breviário ricamente ilustrado com as figuras do Kama Sutra (Roma, Vaticanus Librorum, 1922) e com o devido Imprimatur das autoridades competentes. Edição, diga-se de passagem, especialmente recomendada para os jovens sacerdotes, recém saídos do Seminário.

Não havia passado da primeira ilustração ─ já sabia o texto de cor e salteado ─ quando senti o primeiro impacto daquilo que hoje se chama de elemento “menor de idade”.

Raciado com gato, só podia ser. Infelizmente, não havia como enterrar aquilo tudo. Virei-me para a criança e resmunguei:

─ Bebê cagão!

O infante sorriu e fez gugu. Um sorriso inocente, irresponsável e desligado do real como quem diz “não tenho nada a ver com isso”. Enfim, um sorriso, como diria, sei lá…infantil.

─ Desculpe, Padre! Não ouvi direito. ─ Observou a mãe, enquanto limpava a bundinha suja do filho e colocava a fralda borrada embaixo da poltrona.

Fingindo que lia o Breviário, disse numa voz pausada:

─ “Bebei Abrão! Bebei Abraão! Despencou bêbedo do camelo e quebrou as pernas. Antes ele do que eu” ( Brevii., pg. 112).

─ Coitado, Padre! Tadinho do seu amigo! O senhor não acha meu neném bonitinho? De novo, meu lindo? ─ Aperreou-se a irmãzinha.

─ E perfumadíssimo!

Passar duas a três noites junto a uma criança com dor de barriga e vocação felina não me parecia nada agradável. Tapei o nariz e voltei ao meu Breviário, o que me impediu de sentir coisas mais graves dentro do Constelation.

Foi quando o alto-falante anunciou:

─ Senhores passageiros! Apertem os cintos! Devido ao entupimento dos toaletes de nossa aeronave, o Comandante Barroso resolveu fazer uma escala em Valencia, onde aterrisaremos dentro de meia hora. Os passageiros que quiserem ir ao banheiro, preencham o devido formulário e o apresentem às autoridades espanholas. Pela sua atenção, Obrigado.

Destampei o nariz e ─ confesso ─ ainda preferia o perfume do bebê da irmãzinha.

Contei oitenta e três passageiros na fila do único toalete do aeroporto. Pelo menos cinco deles tinham o rosto esverdeado e se mostravam muito aflitos. Passei ao largo e me dirigi à livraria. Com tanta gente, teria um bom par de horas de leitura. Sentei-me numa mesinha do bar e, enquanto degustava um cappuccino, lia a história em quadrinhos protagonizando a “Tocha Humana”, meu herói predileto, e seu fiel companheiro “Centelha”.

Uma dama muito jeitosa sentou-se ao lado e começou a amamentar seu pimpolho. Hereticamente, percebi uns seios lindos. Pensamentos sujos, nojentos e machistas! Tratava-se do mesmo bebê cagão, sem dúvida.

─ Padre! O senhor poderia ficar com meu bebê enquanto vou ao toalete? Estou precisada.

Já havia percebido que os sacerdotes da ICR são os seres mais infelizes do mundo. Além de ignorantes, virgens e mentirosos, têm que praticar boas obras.

O bebê era uma gracinha. Fazia lembrar os três que me esperavam na Comunidade.

─ Pummm!

─ Não! Aqui e agora, não, seu Cagão de merda. ─ Resmunguei, dando um beliscão na bochecha do infante.

─ Gugu, gugu, gugu! Tô precisado, também, Reverendo. ─ Disse-me o safado.

─ Deixe pra fazer quando sua mãe voltar.

─ Gugu, gugu, gugu! Não posso! Pummm!

Durante meu Doutorado, havia tido aulas de fraldário na Gregoriana, como introdução à “Teoria Sagrada do Limbo”. Limpei a bunda do menino, coloquei a fralda suja debaixo da cadeira, deitei-o ao lado e rezei pra que o avião saísse logo.

Nem demorou tanto. Reembarcamos e tive o cuidado de procurar uma nova poltrona, longe do bebê cagão. E dos toaletes.

Uma hora depois, novamente o alto-falante:

─ Senhores passageiros! Em virtude de uma tempestade em Portugal, o Comandante Barroso decidiu fazer uma escala técnica em Sevilha. Como o Dr. Salazar já providenciou o banimento das nuvens negras do seu país, o tempo da escala será de aproximadamente duas horas. Pela sua atenção, Obrigado!

Dirigi-me ao Comandante Barroso que, respeitosamente, beijou meu anel de Reverendo.

─ Então, Comandante? Preciso chegar em Bel-O-Kan.

─ Desculpe, meu querido Padre. Vou aproveitar a escala forçada pra visitar minha prima que faz aniversário. Mora logo ali, pertinho do aeroporto. Por que não visita a catedral de Sevilha? Muito bonita, aliás.

A irmã Rosinha, com seu indefectível bebê no colo, aproximou-se:

─ Padre! Tome conta do meu bebê. Vou aproveitar pra ir às touradas. As fraldas estão na sacola. Nada de Coca-Cola nem guaraná. Somente água e suco de laranja.

─ Gugu, gugu, gugu! Reverendo, o senhor é meu pai? ─ Balbuciou o sem-vergonha.

─ Não! E vou jogá-lo na latrina do toalete. ─ Ameacei.

─ Que pena! Quero uma Coca-Cola!

─ Nada de beber porcaria. Vai ser água da torneira mesmo.

─ Cadê minha mãe? ─ Gritou o bebê.

─ Foi ver as touradas.

─ Coitado do toureiro!

─ Sua mãe é casada? ─ Indaguei.

─ É!

─ Inda bem! Pelo menos você não foi gerado em pecado. Não é filho da…daquela, daquilo, sei lá.

─ Que nada, Padre! O marido viajou e ela pulou a cerca com um elemento do Agreste. Sou o resultado do romance.

─ É nisso que dá ser boazuda. ─ Acrescentei.

─ Mais respeito com minha mãe, seu padre de merda. ─ Resmungou o bebê.

─ Tá bom! Desculpe! Ela parece uma linda flutuação quântica do vácuo.

─ Nem tanto. Apenas gosta de se requebrar. E o senhor ficou espiando enquanto eu mamava. Safado! São bonitos?

─ Lindos! O leite deve ser delicioso.

─ Nada de leite. Puro mel de uruçú!

─ Então, é por isso que você está se cagando todo.

─ Ora, Padre, mais vale um gosto do que seis vinténs. Pummmm!

─ Acho, Paloccino, que você vai ter a bunda mais limpa do mundo. ─ Disse, colocando nova fralda no bebê.

─ E a cara, também! Quando crescer, vou ser médico, entro no partido e, aqui e ali, dou uns golpes. Vou ficar rico, Padre.

─ Lembre-se de mim, meu filho.

─ Bobagem, Padre! Rico num se lembra de ninguém.

─ Vou jogar você pela janela do avião.

─ Gugu, gugu, gugu! Quero uma Coca-Cola! Quero uma Coca-Cola!

Sementeiras
  1. Foi esse bebê que inspirou o Polanski a filmar “O Bebê de Rosemary”?
    Cagão, feioso, falante, consumista…

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