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O promotor e o casamento gay

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“Deus me incomodou, como que me impingiu a decidir”, disse o juiz Jeronymo Villas Boas, que cancelou um registro de união estável de um casal de homens na semana passada, em Goiânia.

Seria interessante saber como foi o incômodo. Foi um vulto meio brilhante, logo, uma alucinação visual? Ou foram vozes, isto é, alucinações auditivas? Quem sabe, uma alucinação visual e auditiva — um youtube completo.  Acho isso medonho, sinceramente. Um incômodo assim é pra sair correndo. Mas, talvez, não tenha tido som ou imagem, já que pode ter sido um beliscão. Uma alucinação cinestésica?

Saindo da desconfiança psiquiátrica, pode-se aventar uma possessão. Talvez, o promotor tenha confundido uma aberração total com a Presença. Sinceramente, acho isso mais aterrorizante do que inspirador. Eu teria um choque, por assim dizer, um “repentino e paralisante assomo de horror positivo”.

Tsé-Tsé discorda radicalmente de que o incômodo tenha sido divino. Deus não incomoda e nunca desce na Terra. Não chateia, para ninguém chateá-lo — eis o brasão de toda convivência entre bípedes, infelizmente não seguido pelos humanos.

_Ultimamente, ELE está muito mais preocupado com a colisão entre a Via Láctea e a galáxia de Andrômeda do que com o casamento gay. Quem incomoda é demônio ou muriçoca! Afirma o Reverendo de forma categórica.

De todo modo, não deixa de ser estranho um juiz que tenha um contato tão próximo com o mundo transcendental ou, como queiram, com o demoníaco. Admito sua utilidade numa sociedade religiosa, onde poderia, sem problema, ser um pastor de uma assembleia de Deus, mas não numa em que a laicidade é a base do direito.

Enfim, o incômodo de Deus fez o promotor interpretar de forma reacionária a constituição brasileira. Na verdade, buscou evidências de maneira parcial, para acomodar sua provável homofobia, oferecendo como desculpa o constrangimento celeste. Foi uma epifania bem isolada e única. Preferiu sua interpretação àquela do STF — ninguém ali lê a constituição corretamente?

(o argumento principal da conservadoria é que a constituição foi lesada e que o STF não sabe interpretá-la)

Não sei por que os reaças reivindicam o Todo-Poderoso em toda querela sobre os valores. Esquecem que Deus é de esquerda, apesar de toda lenga-lenga dos ateus. A vida no Paraíso era radicalmente anticapitalista. Adão e Eva eram tudo, menos empreendedores. Já a Serpente…

Além do mais, se Deus fosse conservador, obviamente a Marcha para Jesus teria sido na Avenida Paulista.

_A Parada Gay será na Avenida Paulista! Grita Tsé-Tsé no meu ouvido.
_Não tem nada a ver! Respondo, mesmo sem raciocinar direito por causa do incômodo.

InscritosEmPedra
  1. O Sr. Jerônimo é juiz de Direito e,segundo os jornais, também Pastor da Assembléia de Deus. Como juíz, fez o juramento de cumprir com as leis do país. Por isso, ele cometeu, além de uma ilegalidade, um perjúrio, coisa grave para um juíz. No entanto, como Pastor, obedece às leis de Deus. E como tal, ouve vozes. De Deus! Às vezes, de ninguém sabe de quem. E, como membro da Assembléia, fala línguas estranhas, quando está em transe. Com tanto barulho nos seus ouvidos, mistura as coisas. É contrário ao Direito e ignorante em Teologia. Uma salada indigesta para o contribuinte e para suas ovelhas. Acabei de lhe enviar um exemplar do “Tratado do Amor Perfeito”, de autoria do Cardeal Del Bosco e do Padre Melo, onde se prova, com argumentos teológicos convincentes (aliás, todos os argumentos teológicos são convincentes!), que o primeiro ato homo-erótico da História teria sido praticado por ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Jeová. Basta ler o Capítulo 63 de minhas Memórias, onde ofereço uma resenha do mencionado best seller teológico. A propósito, a Marcha de Jesus e a Parada Gay tiveram o mesmno número de participantes, quatro milhões de pessoas. Empate! Jerônimo não disse, porém, de onde veio o tal incômodo divino. Temo que tenha sido pelas costas. E não pretendo insinuar absolutamente nada.

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