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Luvanor Biansky, o novo colunista
(Acima, parte de um mural de David Alfaro Siqueiros — aquele que, dizem, jogou um mural na cabeça de Trotski)
Não me lembro do rosto de Luvanierz Biansky. Quando Tsé-Tsé apresentou-me ao gigantesco polonês de cara vermelha, era muito pequeno e só conseguia enxergar suas sandálias e seus enormes pés. Tsé-Tsé chamava-o de “Luvanor” e não, como seria correto, de “Luvanierz”. Achava seu verdadeiro nome impronunciável, sei lá. Era o ano de 69 do século passado, ano pesado da ditadura militar, e Luvanierz estava de saída, aliás, de fuga planejada.
_Luvanor é um sobrevivente – disse Tsé-Tsé
_Não é “Luvanierz”? Retruquei, do alto de minha inocência infantil.
_A terminação “ierz” é impronunciável.
_O senhor acabou de dizer “ierz”.
Tsé-Tsé deu aquele longo suspiro que é a base de sua vocação de reverendo. Tem uma significação simples: “antes de meter a mão nesse fedelho, conte até dez, pense na piedade e na compaixão, como valores absolutos, e suspire bastante”.
_Luvanor é um sobrevivente – repetiu, dando um ponto final na discussão.
Em 69, Luvanierz passara um mês em Bel-O-Kan. Chegara do Peru, fugindo do golpe de 68, quando Juan Velasco Alvarado depôs Fernando Belaúnde Terry. Mas fugir de um golpe militar para uma ditadura já instalada não foi um bom negócio. Disse que não tinha opção e, naquele momento, menos do que nunca, pois o SNI já sabia que estava no Brasil.
_Luvanor vai fugir — disse o Reverendo, com uma pontinha de alívio. Gostava de Luvanierz, porém o cabra sempre trazia problemas, a começar pelo serviço secreto brasileiro.
_Pra onde?
_Turquia…
_Turquia?! Isso é longe?
_Bem longe…
_Ele conseguirá?
_Ele sempre consegue. Tem muitos contatos.
Depois disso, nunca mais o vi, exceto em retratos, mas sempre tive notícias de suas desventuras. Toda vez que tinha algum golpe no mundo, Tsé-Tsé franzia a testa de preocupação. Em 1971, houve um golpe militar na Turquia. Soubemos que fugira para o Uruguai. Passou apenas dois anos, pois, em 1973, Juan María Bordaberry dissolve a Assembleia Geral, com o apoio das Forças Armadas, e tome ditadura. Luvanierz encadeou, assim, uma peregrinação pela América Latina e, também, pelos golpes: 1975, outro golpe no Peru; 1976, no Equador; no mesmo ano, fugiu feliz para Buenos Aires, e pumba!, outro golpe; chega a El Salvador, fica três anos e foge em 1979, por causa de… um golpe.
Em 1980, o Reverendo recebe uma carta de Luvanierz, esculhambando a América Latina. “Vocês são uns merdas…”, começava assim. Terminava a missiva elogiando a Ásia e a Coreia do Sul.
_Que coisa estranha. Golpe e Luvanierz andam juntos.
_Coincidência — afirmava Tsé-Tsé.
_Parece não.
_Mas é.
_O que é, então?
_Mulheres.
E não conversava mais.
Claro, em 12 de dezembro de 1979, teve um golpe na Coreia do Sul, e Chun Doo-hwan assumiu a presidência. Luvanierz desapareceu e não escreveu mais. Foi aí que, em 1987, o Reverendo recebeu um pombo-correio com uma mensagem dizendo que o polonês estava fugindo de um golpe em Burkina Faso.
_É meio enjoado isso, né?!
Tsé-Tsé olhou-me com um olhar de homicida. Não admitia qualquer gracejo em relação a Luvanierz.
Bem, como a mania continuou, resumo o resto da estória, omitindo os pormenores:
- 1988: golpe no Mianmar por Than Shwe;
- 1989: Omar Hassan Ahmad al-Bashir assume com o golpe no Sudão;
- 1994: Yahya Jammeh assume na Gâmbia em golpe de estado;
- 1999: um golpe militar na Paquistão;
- 2000: um golpe militar na Fiji;
- 2002: um golpe militar na República Centro Africana;
- 2003: golpe de Estado na Mauritânia;
- 2006: golpe de Estado na Tailândia, realizado pelo Exército da Tailândia contra o governo do primeiro-ministro;
- 2008: golpe de Estado na Mauritânia de Mohamed Ould Abdelaziz contra Sidi Ould Cheikh Abdallahi.
E, enfim:
- 2010: Golpe de Estado em Quirguistão contra Kurmanbek Bakiyev.
_É um sobrevivente. Disse Tsé-Tsé, repetindo uma frase dita há 31 anos.
De fato…
_Temos que ajudá-lo. Falou o Reverendo.
_Como?! Não parece um cara que precise de ajuda.
_Ele já está velho. E as mulheres…
_Entendo. Mas, repito, como ajudá-lo?
_Pelo menos, escreveria para o blog alguns textos.
_O blog? Como? Não temos dinheiro.
_Eu pago.
_Aaah, assim é melhor.
Pronto, foi assim que Luvanierz ou Luvanor Biansky virou nosso colaborador.
Bem… er… diria que Luvanierz é de extrema-esquerda, em suma, um revolucionário. Minha hipótese é que tentou fazer a revolução em tudo que é país e deu tudo errado. Cá entre nós, sem que Tsé-Tsé me ouça, acho meio patético isso tudo, embora reconheça um valor nessa perseverança. Além do mais, não me convence essa história de rabo de saia. De todo modo, aparentemente, Luvanor não muda. Pelo que sei, nunca fez autocrítica, sendo muito parecido com Tsé-Tsé (“nunca errei!”, afirma o Reverendo). Seus textos são… Deixa pra lá. Vocês lerão. É o reverendo quem está pagando, e sou facilmente subornável.
Aguardemos os textos, pois. Penso até em fazer uma entrevista…


















Tomara que Luvanor não tente fazer revoluções no futebol brasileiro, pois, com seu currículo de fracassos revolucionários, a situação do Santinha, certamente, ficará muito pior.
No mais, bem-vindo, Luvanor!
Dimas