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O maior título da Terra

1 comentário

(publicado orginalmente no Torcedor Coral)

Há momentos na vida que você suspende tudo e pensa: rapaz, não é que vale a pena viver?! Posso até admitir que seja melhor sonhar do que viver – mas… e quando a vida coincide com o sonho?

Já tentei até ser racional, perguntando-me por que diabos torço pelo Santinha. Pergunta cartesiana, absolutamente sem graça, retilínea pra dedéu. Ora, os caminhos até o Arruda são tortuosos, exceto a Beberibe, é claro.

Foi assim que, um dia, olhei-me no espelho e perguntei na bucha:

_Qual é a resposta, carai?

O espelho me encarou, deu um sorriso matreiro e respondeu:

_Qual é a pergunta, porra?

Claro, não se pergunta em vão a um espelho. Não são os melhores interlocutores. Tudo ali é reflexo. Parece mais psiquiatra de saco cheio. Além do mais, diante do indizível, é melhor ficar calado.

E, cá entre nós, eu sei qual é a resposta. Sempre soube. Até já respondi: torço pelo Santinha porque é um desses momentos raros no qual o sonho torna-se vida, e a vida, sonho. Sei, sei, é raro, muito raro. Mas, com a idade, adquiri a paciência e sei que vale a pena esperar – oh, sim, como vale! É preciso disciplina para se lidar com o que é raro e precioso, pois a esperança, nessas horas, é sacana. Aparece bonita e bem sedutora. E, com a sua amiguinha, a decepção, elas podem transformar a vida de um pobre torcedor num pesadelo – a série D, por exemplo. Por isso, tomo cuidado com essa vadia. Não quero morrer nobremente por uma causa, e sim viver humildemente por uma.

Todavia, se tenho que morrer de forma sublime, que seja no Arruda, lugar de todas as causas impossíveis e inimagináveis. Torcedor é estádio. Tricolor é multidão. Quem for capaz de se entediar no Mundão lotado é um imbecil – repito e acrescento: imbecil e desprezível. Ali, o movimento da massa sacode o pensamento e as fibras; faz tremer a caixa de ossos. O tricolor, antes entorpecido e descrente, quando entra no Arruda, sente-se tomado pelo riso e pela mania nervosa ou pelo tormento amoroso ou pela alucinação da forma (tal fato acontecia muito quando tomava cerveja Frevo). Nesse momento, ele toma consciência de que está molhado de suor e com lágrimas nos olhos – tricolor chora e se emociona fácil, caros amigos. É uma manteiga derretida. Seria aqui, nesse exato instante, que descobre que não está só. Despede-se provisoriamente da solidão da existência. Pois o mais egoísta, o mais frívolo, o mais misantropo dos tricolores vira um animal solidário no Arruda. Agora, possuído pela multidão, não desfruta mais daquela tranquilidade, justamente aquela vivida na mediocridade do cotidiano. Ele, enfim, recebe essa divindade do futebol.

No céu, resplandecente e desenhado,
o Clube do Santo Nome;
na terra, transtornado e possesso,
encontra-se quem o evocou.

(convenhamos: uma vida, na qual o Santinha não está convidado, não vale a pena ser vivida. Será mais tranquila, é certo; porém, nada de história, nem sal, nem açucar. Já dizia o filósofo: “atrever-se, assumir riscos, é perder o pé momentaneamente. Não arriscar-se é perder-se a si próprio para sempre”. Nesse mundo velho e enfadado, ser tricolor é o cúmulo do atrevimento e do risco. É provocar os deuses do futebol, esses sobrenaturais de Almeida. Mas é um gesto de orgulho e uma opção pela liberdade)

O tricolor é um animista. Pensa que tudo é vivo, tudo tem um princípio vital – logo, tudo é influenciável. Time e torcida fazem uma só e mesma alma. E é essa crença inabalável que faz a torcida mexer com o time. Não é só rezar, pedir, implorar, suplicar; é agir e jogar junto. Memo, o guerreiro das multidões, disse que, diante daquela massa, era impossível cansar ou parar de correr. Ora, ora, como isso foi possível? Porque nós estávamos ali no seu espírito e nas suas chuteiras. Ele deu duas corridas impossíveis já no meio do segundo tempo – numa delas, fez uma jogada maravilhosa, deixando Gilberto na cara do gol. O campo estava pesado. Ele estava cansado. Aquilo não foi preparo físico; não, foi a vontade da torcida, encarnada no coração e na mente de Memo.

Nesses tempos conturbados, de fato, pensei que a gente ia se escafeder. Tinha até predito que o fim do mundo estava próximo. O título deu-me a certeza de que o Santinha sobrevive de qualquer maneira. As cobras corais sobreviverão à hecatombe nuclear (vi isso no Animal Planet), podem crer. Apenas se tornarão radioativas, é claro. Alguns estudiosos dizem que darão choques elétricos, o que duvido muito, já que cobra não é enguia. Mas o assunto é polêmico.

Acho, inclusive, que o clube já está desse jeito faz tempo, com o contador Geiger explodindo. E, mesmo assim, radioativo ou explodindo, sobrevive e persiste. É muita insistência; é muita vontade de viver e continuar vivendo. A gente não morre nem a pau. Ressuscita o tempo todo – mais do que Lázaro, ressuscitado apenas uma vez, coitado. Damos tapa de luva na eternidade, pois nosso objetivo é a transcendência.

Na verdade, o Santa Cruz Futebol Clube é a maior resistência cultural de todos os tempos do futebol brasileiro. Resistimos contra a CBF, essa plutocracia do fut nacional; contra a Máfia dos 13, esses assassinos dos clubes nordestinos; contra a FPF, essa dinastia da incompetência; contra a Coisa, o coveiro do futebol pernambucano, e até contra nós mesmos, já que cobra, muitas vezes, morde o próprio rabo.

Por isso, defendo isso aqui: esse foi o maior título da Terra. Foi bíblico! Teve até um recorte de classe: enfrentamos a aristocracia que, num movimento típico, procurou voluntariamente a guilhotina. Não são marsupiais, os burgueses, parecendo mais lemingues, aqueles roedores suicidas do Ártico. Enfrentamos o novoriquismo, com sua soberba ululante e os maneirismos franceses dos Dubeux – pobres de espírito que não sabem que dinheiro não se come. Fomos o povão que invade a Bastilha e bota fogo na cidade. Porque o povão é assim: quando desce os morros, sai de baixo. Corta cabeças, escandaliza a sociedade e, depois, sobe novamente o morro e fica lá um tempão quietinho.

Esse campeonato foi histórico. Fizemos história. Os filhos e os netos escutarão de seus parentes a grande saga. De geração em geração, os tricolores saberão o que aconteceu naquele domingo. Saberão o que significou esse título: redenção e renascimento. Recuperamos o dom da vida, o entusiasmo. Agora, levantamos de manhã, começamos o dia e oferecemos nosso melhor sorriso aos aristocratas e aos novos-ricos. O Santinha, decididamente, está dentro de nós. É a realidade que penetra em tudo e não se deixa captar, mas sem a qual não entenderíamos nosso vigor, nossa esperança, nosso sonho – em suma, nosso entusiasmo.

Podemos, finalmente, olhar para frente, parando de olhar cabisbaixo. Redescobrimos pela sempiterna vez  que “somos, ao mesmo tempo e a cada instante, aquilo que já fomos e aquilo que um dia seremos” (Borges).

Somos campeões.

DimasLins
  1. Tudo errado! Bonito e tocante, mas incorreto. A resposta nunca foi essa, e sim 42!

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