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LXIII – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

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(Roma finita est)

63º CAPÍTULO

A chuva parou por volta do meio-dia. Almocei uma carne dura de cordeiro e quase quebrei um dente. Felizmente, o vinho era bom.

Veneza estava encharcada e era água por todos os lados. Canais entupidos, de calha alta e cheios de detritos. O prefeito viajando. Dois chutes em três sapos, uma porrada num marsupial embriagado, uma cusparada num felino desdentado e fedorento.

Uma cobra coral esquivou-se e deu uma belíssima risada!

Fui andando até o palazzo arquidiocesano, equilibrando-me nas calçadas esburacadas, pulando árvores caídas, maldizendo os deuses, os anjos e o bispo. O sol abriu e um grande arco-íris dobrava-se sobre o Grande Canal. De uma margem à outra, escondendo-se nas entranhas do pátio do belíssimo prédio barroco onde morava o Patriarca.

O Padre Melo conduziu-me até a grande biblioteca, onde fiquei esperando Del Bosco. Estantes magnificamente trabalhadas e cheias de livros, alguns raríssimos, roubados, como diziam, de Bel-O-Kan.

Na parede, por trás do birô do Cardeal, um quadro da crucificação de Salvador Dali com o Cristo sem o tapa-sexo evangélico. Blasfêmia pura! Tadinho de Nosso Senhor assim tão desprotegido!

Um contraste surpreendente num ambiente de inspiração barroca!

Ao centro, uma grande mesa de mogno, contrabandeado da Amazônia pelos jesuítas no Século XVIII.

─ Padre Tsé! Meu jovem e belo mancebo! ─ Aproximou-se o Patriarca em dois passinhos de balé, estendendo-me a mão num gesto gracioso pra que lhe beijasse o anel cardinalício.

Bichona porra louca! Pensei, trincando os dentes pra represar o som de minhas palavras.

(Preconceito, preconceito, preconceito…)

─ Venha cá, meu jovem! Sente-se aqui ao meu lado. Quero mostrar-lhe uma coisa.

Por razões nada teológicas, sentei-me no lado oposto da grande mesa de mogno. Nossa Senhora do Bem-Bom jamais permitiria que me acontecesse algo de ruim!

─ Atchhimmmm! Com medo, Padre Tsé? ─ Disse o Patriarca, assoando-se num lenço cor de púrpura.

─ Nada não! Desconfio desse tipo de vacina importada. ─ Respondi, ambiguamente, para esconder meu desconforto.

O Patriarca abriu uma pasta de couro preto com o brasão da Arquidiocese de Veneza, lindamente gravado a ouro. Estendeu-me uma folha de papel. Tratava-se da cópia de um ofício dirigido ao Reitor da Gregoriana, aprovando minha tese com Distinção e Suma Cum Lauda.

─ Desculpe, Padre Tsé! Tem razão! O anjo que faltava quebrou uma asa em voo rasante num dos picos do Himalaia. Conforme nota de pé de página, na folha 321 de sua tese que, sem querer, havia passado por cima. Morro de remorsos!

─ Claro, Iminência… ─ Ia respondendo.

─ Eminência, Tsé! Eminência, por favor! De qualquer maneira, uma semana de graça em Veneza não é pra qualquer um. Tudo pago pelo evangelista São Marcos! Fique até Domingo pra ver os meninos de nosso coral. São lindos! Verdadeiros anjos celestiais!

─ Obrigado, Eminência! Terei o maior prazer! ─ Disse rapidamente, embolsando o ofício aprobatório.

Trataria de me livrar do Patriarca o mais rápido possível, pois ainda havia umas contas a saldar no hotel arquidiocesano. Do outro bolso da batina, retirei o Manifesto al Popolo d’Italia. Assinei-o à vista de Del Bosco e lhe entreguei.

Três lágrimas inundaram o rosto do meloso Patriarca. Duas do olho direito e uma do esquerdo.

─ Obrigado, Padre Tsé! Pelo que ouvi da nova e revolucionária Teologia das Palafitas, seu gesto de apoio parece-me bastante encorajador.

─ Iminência! Não se trata de apoio. Solidariedade, nada mais! Uma porrada nos colhões do Santo Padre. ─ Respondi.

─ Eminência, Padre Tsé! Eminência! ─ Murmurou o agradecido Cardeal.

Em suma, não existe almoço de graça! Levantei-me, fazendo menção de me mandar. Del Bosco, numa voz blasé, disse:

─ Meu Bem! Amanhã à noite, daremos um baile à fantasia em nosso palazzo de verão. Você é nosso convidado de honra. Irei fantasiada de colombina. Padre Melo lhe emprestará um lindo traje de pierrô.

Beijei novamente o anel do Patriarca, e o Padre Melo veio ao meu encontro na antessala da Biblioteca.

─ Desculpe, Tsé! Já sabia do ofício aprovando sua tese. Queria apenas lhe fazer uma surpresa. Eu mesmo o encaminhei à Gregoriana, Doutor Tsé-Tsé!

─ Padre Melo! Reserve uma passagem pra mim no primeiro Expresso de amanhã. ─ Respondi-lhe secamente.

─ Mas, como Tsé! E o nosso baile?

─ Divirta-se, Padre Melo! Estarei rezando o Terço, amanhã à noite.

Sofia dos Peixinhos Fritos dos Milagres de Jesus chegou às oito da noite em ponto.

Meses atrás, havia conhecido a Irmãzinha como voluntário da Cruzada de Catequese dos Turistas da Itália, patrocinada pelo Bispo Auxiliar de Roma. Fiquei encarregado da ala sueca, que nem Garrincha na Copa de 1958.

Sofiazinha era greco-romana, qual Afrodite-Vênus pudica e reluzente. Ajudara-me a montar minha barraca debaixo da Ponte Milvia. Testamos o abrigo com muitas antecedências, aliás. Com isso, pude trazer muitas almas para o santo aprisco do Senhor, ao ponto de ganhar uma medalhinha de santo consagrada, em retribuição ao meu empenho. Ainda hoje, tenho pendurado no pescoço aquele merecido troféu.

A Irmã Sofia estava em Veneza para inspecionar a filial de sua instituição, o Convento das Parábolas de Nosso Senhor. Como convinha, passamos a noite estudando as Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha.

Muitas idas e vindas, subidas e descidas, em tão sagrado e tortuoso caminho.

Do Termini em Roma, direto ao gabinete do Cardeal Ferrughi, meu ex-orientador. Contei-lhe o que se passara na cidade das águas fedorentas de San Marco, inclusive a bichice do casal episcopal.

─ Besteira, Tsé! Eu mesmo, quando seminarista, comi o Bispo de Alacanto.

─ Cardeaaaal! ─ Exclamei aturdido.

─ Ora, Tsé! Era o Bispo ou as cabras. Não tinha escolha.

─ Que cabras, Irmão Cardeal? ─ Perguntei, mais espantado ainda.

─ No quintal do Seminário, havia um cercado com umas cinco ou seis. Leite e queijo de graça. Jamais me esqueço de Madalena, a cabrita mais sensual que já vi.

─ Prefiro as cabras, Cardeal! ─ Respondi resignado.

─ É! Mas, num fim de semana, houve um churrasco de carne de bode pra comemorar os trezentos anos do Seminário. E lá estava Madalena pendurada num espeto em cima do braseiro. Metade da turma chorava. A outra, vomitava.

─ Que horror! Minha Nossa Senhora do Arame Farpado que me defenda!

Colei grau de Doutor em Teologia Cristã no salão nobre da Gregoriana, tendo como testemunhas o Monsenhor Lippi, meu padrinho e o Cardeal Ferrughi.

Já Doutor pra todos os efeitos, o Reitor entregou-me o segundo Diploma por causa da menção Suma Cum Lauda unânime da banca examinadora. Foi assim que recebi o título de Reverendo Sagrado e Vitalício, ad seculum seculorum.

Finalmente, nascia, em Roma, o insigne Reverendo Ambrósio Tsé-Tsé, a mais fedorenta língua de trapo da Paróquia da Torre.

As saudosas palafitas me chamavam. Em Roma, ouvia seus brados e gemidos. No caminho do aeroporto, despedia-me com estranheza da Cidade Eterna, cheia de padres e freiras deambulando como zumbis pra lá e pra cá.

Meu Deus! Que desperdício!

Sementeiras
  1. Reverendo, “matriarca de Veneza” não seria mais apropriado?

    Afinal, quantas irmãzinhas, digamos, ajudaram a armar sua barraca durante o período do doutorado? Eu perdi as contas.

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