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LXII – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

2 comentários

(Ars amatoria)

62º CAPÍTULO

Acordei tarde depois de um sono reparador. Batiam à porta, espreguicei-me e mandei esperar. Finalmente, levantei-me e o boy do Hotel depositou um buquê de rosas vermelhas, cortesia, segundo o cartão, da Arquidiocese de Veneza.

Não gostei! De mau humor, tomei o café da manhã no restaurante onde já me esperava o Padre Melo. Enquanto bebericava o café, recebi um envelope de Roma, enviado no expresso noturno pelo Monsenhor Lippi. Dentro dele, outro envelope com uma carta do Dr. Quim Júnior.

A guerra havia começado e Quimzinho pedia-me conselhos táticos de como conduzir as batalhas contra a “Comunidade do Outro Lado do Rio” que resolvera acabar com a gente, apoiada pelo Prefeito de Bel-O-Kan.

Em Roma, já havia tomado conhecimento de algumas hostilidades dos bandidos, embora não esperasse nenhum conflito iminente.

Pedi licença ao Padre Melo e escrevi um longo telegrama com as principais diretrizes para acabar de vez com o inimigo. Noutro telegrama, alertava o Monsenhor Braguinha, meu pai, para usar de todos os meios diplomáticos, inclusive pressionando o Prefeito, para repelir a agressão à nossa República Telemista.

Como era impossível meu retorno imediato, resolvi sossegar e lá fomos, eu e o Padre Melo, visitar Veneza na gôndola oficial da Arquidiocese pilotada por Antônio, o Belo que não se cansava de cantarolar, talvez pensando que eu fosse uma figura importante da ICR.

Embora preocupado com o início das hostilidades em nossa Comunidade, apreciei de bom grado as informações do meu cicerone e ex-colega de Seminário. Sem dúvida, um cara muito bem informado e de bom gosto.

A maior surpresa! Veneza era igualzinha a Bel-O-Kan. Tantos rios, canais e belíssimas pontes, com suas margens recheadas de palafitas a perder de vista. Certamente, Veneza era a Bel-O-Kan italiana.

E não o contrário, como alguns espíritos colonizados gostam de dizer.

Na volta, antes mesmo do almoço, recebi um bilhete da Arquidiocese, avisando-me do adiamento do meu seminário para o dia seguinte em função de um forte resfriado de Sua Eminência, o Cardeal Del Bosco.

Até que não achei muito ruim. Escreveria uma longa carta a Quimzinho, traçando um plano de como conduzir a defesa intransigente de nossas palafitas.

Até a última criança, se preciso!

Depois, eu chegaria para a missa do sétimo dia.

O Padre Melo aproveitou minha folga e passou-me o manuscrito do livro que ele e o Patriarca escreveram sobre suas atividades noturnas. Pediu-me sigilo e uma crítica rigorosa do ponto de vista teológico.

Ainda mais essa! Ler e criticar as 382 páginas do Tratado do Amor Perfeito, certamente malucas, blasfemas e sem sentido, à vista do que já fora escrito no Manifesto al Popolo d’Italia, de autoria do Patriarca.

Por causa da urgência de tais obrigações, tive que adiar a visita prometida ao Convento de Nossa Senhora das Almas Afogadas de Veneza, onde me esperava a Irmãzinha Virna dos Sagrados Pelos de Nosso Senhor.

Menos os de baixo! Segundo ela própria fizera questão de me informar.

Virna era Madre Superiora na sua instituição de piedade cristã. Conhecemo-nos em Roma, numa divertida e erudita tertúlia sobre os mexericos dos vizinhos de Nosso Senhor, na pequena aldeia de Nazaré de dois mil anos atrás. Afinal de contas, uma virgem que aparece grávida só pode mesmo causar espanto.

Embora sagrado!

Bem não havia terminado a leitura do texto de Del Bosco e do Padre Melo, percebi a necessidade de resenhá-lo. Anos depois, aliás, já morto e enterrado o Patriarca, o livro se tornaria um best-seller na Europa e nos Estados Unidos.

A Introdução do Tratado do Amor Perfeito era muito estranha, embora forrada de uma erudição teológica impecável. Nada demais quando se sabe que a Teologia, Mãe de todas as Ciências da ICR, é por demais complexa e, muitas vezes, sutil e misteriosa. Dessa forma, os teólogos tornam-se autênticos detetives para os quais um simples xixi de mosca é importante para se saber se esse ou aquele preceito divino é verdadeiro ou falso.

Aliás, basta formular uma hipótese inquestionável pela Lógica Dedutiva e o bonde anda perfeitamente.

Como dizia Ferrughi, embora eu discorde, Teologia é Lógica.

A Introdução do livro começa com estatísticas, demonstrando que muitas espécies animais, especialmente entre os mamíferos, mantém práticas homo eróticas. Além disso, 36% da humanidade pratica a homossexualidade ou, pelo menos uma vez na vida na vida, a praticou.

Pode ser! Enfim, nunca fiz nenhuma pesquisa desse tipo.

A parte teórica do texto de Del Bosco e do Padre Melo (DB-PM) baseava-se nas ideias de Parmênides, meu herói e filósofo grego pré-socrático preferido. Por isso mesmo, li as 70 páginas introdutórias com o máximo de boa vontade.

Para o filósofo grego, o Ser Primeiro era Imóvel, Uno e Único, embora apenas no sentido metafísico. O problema é que não existe espaço-tempo sem massa ─ daí, a imovibilidade divina ─ pois a substância primeva, de qualidade diversa da nossa, era o Tudo e, portanto, participava de tudo o que, posteriormente, veio a existir. Não teria precisado de espaço nem tempo. Simplesmente estava! Enfim, pra que serve tudo isso? Aquele Ser poderia estar ao mesmo tempo em nossa Via Láctea e nos mais distantes quasares. No início ou no fim dos tempos.

Além disso, seu primeiro e maior atributo era a Perfeição. Acrescentem-se a Onipresença, a Onipotência, a Onisciência e todos os “Onis” que se puder imaginar.

Uno porque, sendo o Tudo, não haveria possibilidade lógica de conter partes. Compacto, portanto, como alguns carrinhos da FIAT.

No entanto, ninguém sabe por que cargas d’água, o Ser Supremo ─ pelo menos Aquele que se chamava Jeová ─ precisou se reproduzir e criou o Filho em um dado momento da Eternidade. De sua mesma substância, aliás.

E aí aparece a primeira ilação teológica de DB-PM. Ninguém faz um filho sem Amor e a substância eterna estava, por isso mesmo, possuída pelo Amor Perfeito, desde que tudo nela é perfeito. Com propriedade ou sem, os Autores deduziram que fazer um Filho teria sido o primeiro “ato erótico” pensado.

Erótico transcendente, mas não sexual.

Sexo é sinal de imperfeição pois precisa de Dois e, não, de Um. Tratava-se, pois, de Amor Absoluto e nada mais.

Contudo, ainda havia um problema. Jeová é também Único e, em consequência, nada havia em seu entorno para compartilhar sua paternidade. Quando ele anunciou no batismo de Nosso Senhor, por exemplo, que acabara de gerar o Filho, ninguém sabia ao certo o que isso significava.

DB-PM, no entanto, mataram a charada, dois mil anos depois. De fato, eles construíram mais uma teoria teológica irrefutável. Afirmavam que a substância divina era, por natureza, narcisista e que o Pai havia gerado o Filho, a partir de sua própria substância, para estabelecer o diálogo consigo mesmo e, especialmente, com o mundo que depois iria criar.

Portanto, como afirma João, o Evangelista, o Verbo era Deus ─ isto é, Jeová ─ e sempre estivera com Ele, apesar de serem distintos como pessoas.

Ora, argumentavam os Autores, Jeová gerou um Filho de si mesmo exatamente porque somente poderia fazê-lo com um Igual. Como nada existia, a conclusão é óbvia: o Igual de Jeová era Ele próprio. O que teria caracterizado um “ato homoerótico transcendental” (sic), isto é, entre Iguais (homo=igual). Na verdade, o primeiro e o último que a Teologia reconhece, embora nem sempre isso seja verdade; o ato peregrino e solitário às vezes se torna uma boa saída.

Ocorre que o homem foi criado à semelhança e à imagem de Jeová. E, portanto, partilhava da substância primeva, embora em pequeníssima quantidade. Tratava-se mais de qualidade, é claro. Substâncias compartilhadas, pois, e não seria teologicamente errôneo assumir que o Todo-Poderoso é, também, nosso chapa.

É provável que moléculas da centelha divina tenham restado em nossa natureza. E a melhor delas é, sem dúvida, a aspiração pela homogeneidade. Todos queremos ser Unos, como Jeová sempre foi. E a única maneira possível é compartilhar tudo com iguais.

Daí, inclusive, a discriminação quanto à diversidade.

Dessa forma, segundo alguns filósofos, o homo erotismo nada mais seria do que um reflexo divino metamorfoseado no desejo sexual de homens por homens e de mulheres por mulheres.

Será?

Como dizia um filósofo católico francês, “a homossexualidade é a própria natureza”. E continua: “no ato de duas pessoas do mesmo sexo se unirem, há um esforço da natureza para se realizar, até mesmo sem os meios adequados”.

Em suma, para DB-PM, o homo erotismo seria a prática do Amor Perfeito.

Vôte! Nossa Senhora da Novela das Oito que me defenda!

Seguramente, a imaginação teológica é fértil em demasia. De minha parte, pouco me importo com o “esforço da natureza”. E sempre prefiro, aliás, “os meios adequados”.

O primeiro capítulo do livro de DB-PM é uma bem documentada história do homo erotismo na Antiguidade, com ênfase especial na civilização greco-romana. O segundo versa sobre o mesmo assunto como aparece na Bíblia. O terceiro, talvez o mais interessante, trata da homossexualidade na ICR; padre com padre, freira com freira e, até mesmo, para minha surpresa, Santo Padre com membros da alta cúria romana.

Aliás, para meu desgosto, DB-PM citam alguns santos insuspeitos, um deles meu preferido objeto de devoção, o piedoso São Pyetrovich das Estepes, que morreu crucificado no Século V E.C. (Era Comum).

Del Bosco e o Padre Melo concluem seu estudo com uma avaliação moderna do preconceito homofóbico. Para eles, foi a herança judaico-cristã que gerou todo o problema, agravado durante o Romantismo no Século XIX. E citam inúmeros exemplos históricos de como a homossexualidade era bem aceita na Antiguidade e, até mesmo, durante a Renascença.

Assim, por exemplo, Péricles não deixou de ser o maior estadista de Atenas. Nem Sócrates e Platão deixaram de ser dois dos maiores filósofos e cidadãos da Grécia. Os espartanos eram os melhores soldados da Antiguidade clássica. Alexandre Magno foi endeusado até hoje como general e civilizador do Oriente, apesar de ter morrido nos braços do amante, um soldado raso do seu Quinto Batalhão de Infantaria. Júlio Cesar, além do grande escritor de De Bello Gallico, foi divinizado logo depois de sua morte.

Na Renascença, nem Leonardo Da Vinci nem Michelangelo deixaram de ser artistas plásticos geniais e benfeitores perpétuos da humanidade.

E vai por aí, incluindo-se a modernidade.

Terminei a leitura do Tratado do Amor Perfeito por volta das quatro horas da manhã. Um tour de force, certamente. Mas, dormi tranquilo e melhor preparado para a entrevista com o Patriarca de Veneza.

Acordei decidido, isto sim, a combater meus preconceitos homofóbicos. Del Bosco era um chato de galocha. Mas merecia meu respeito como intelectual, grande escritor e cidadão, tanto quanto o Padre Melo, poeta de talento e excelente latinista.

Afinal de contas, e pelo menos desde o Iluminismo, sexo é uma questão privada e não diz respeito a ninguém salvo aos próprios praticantes. E que grande ou pequeno mal pode fazer o homo erotismo? Que os meninos e meninas se divirtam como bem quiserem. Ninguém tem nada a ver com isso.

O que interessa é o exercício da cidadania. Nada mais!

Mas, porém, contudo, todavia…

Sou contra! Radicalmente contra!

DimasLins
  1. Amor Perfeito? pois sim.

    Reverendo, se esse capítulo cair em mãos de algum conservador da ICR a inquisição vai ser reativada só para persegui-lo.

    Por outro lado – o outro lado é o rabo, dizia a saudosa Leila Diniz – O Luiz Mott iria a-do-rar essa aborgadem teológica de DB – PM. (heheheh).

    “Irmãzinha Virna dos Sagrados Pelos de Nosso Senhor.” Mais uma para minha coleção.

    Feliz Páscoa. O time do santo nome ganhou a primeira da semi-final!

  2. Reverendo,
    nunca mais tinha lido suas divertidas crônicas. Gostei. Aproveito pra mandar um grande abraço.

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