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LX – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

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(O tempora!)

60º CAPÍTULO

Non! Rien de rien! Non! Je ne regrette rien!

Ouvia a divina Piaf no trem em direção a Veneza. E pensava. Vida de cachorro, de cão sem dono. Ser obrigado a esclarecer o óbvio para um idiota boçal como o tal Patriarca de Veneza. Em nome de quê? De uma bosta de tese que não me serviria pra nada? Pagar o pato por causa de uma briguinha que ele tivera anos atrás com Ferrughi, meu Orientador?

Logo eu, um sacerdote honesto que se dedicava ao bem-estar da humanidade, ouvindo seus pecados e consolando a todos. Muitas vezes, enfrentando situações desconfortáveis, embaixo de pontes, viadutos e pedaços de mangue.

Parei de escrever estas Memórias por uns tempos, porque estava relendo Hitler, de Ian KERSHAW, São Paulo, Companhia das Letras, 2010 (1077 págs.).

Radiografia precisa e bem escrita do terror nazista na Europa.

Leitura obrigatória! O Nazi-Fascismo é imperdoável. Pra sempre!

Na semana passada, acordei amarrado no meu girau, tendo o Dr. Quim Júnior sentado à minha cabeceira.

─ Merda! Que está havendo por aqui? ─ Gritei.

─ Calma, Tsé! Você desmaiou numa festa. ─ Respondeu Quimzinho, na maior gozação.

─ Que festa, que festa? E faça o favor de tirar essas cordas.

─ Tiro, Tsé! Mas se prometer não fugir como das outras vezes.

─ Já sei! Fui ao aniversário de Piquinho, bisneto de Zé das Neves.

─ Foi! E comeu cinco quindins, duas empadas, dez brigadeirinhos, duas porções de arroz doce, três queijadas e meia dúzia de olhos de sogra. Esqueceu que era diabético e deu no que deu.

─ Rostinho de anjo! Um ar divino, mas doce do que o mel do Paraíso.

─ Pedófilo! Pedófilo! ─ Esbravejou Quimzinho.

─ Seu bosta! Refiro-me a Ninha, filha de Chico Pirão com minha comadre Celestina. ─ Respondi indignado.

─ Mesmo assim! Ninha tem somente doze anos.

─ E daí? Falei apenas do rostinho e do ar da menina que me lembraram minha aventura em Veneza quando fazia aquele maldito doutorado em Teologia. E trate de tirar esse soro do meu braço, senão fujo de novo.

De fato, apesar de revoltado em ter que ir a Veneza visitar o Patriarca, passei o tempo todo no trem suspirando pela Irmãzinha Gertrudes dos Sagrados Pés Descalços de Jesus.

Que rostinho, que ar divino! Ninha, minha afilhada, mal chegava aos pés de Gert.

A defesa de minha tese havia sido um desastre, graças à implicância do Cardeal Del Bosco, Patriarca de Veneza, com minhas equações. Concordara, finalmente, que tudo era uma questão de elegância matemática e que ambas as formas estavam corretas. Mas, de qualquer modo, segundo ele, havia um grave erro aritmético na contagem dos alfinetes.

Em vez de 554, como eu afirmava, o correto seria 555, número mais homogêneo e mais de acordo com a ordem natural das coisas.

Por quê? Não sei. Nem o sacana do Cardeal tampouco sabia.

Fora aprovado por quatro dos examinadores e estava tranquilo quando começou minha discussão com o Patriarca que ficara para o fim do exame. Não arredei pé! Reafirmei que só cabiam 554 alfinetes na cabeça de um anjo e mais nenhum.

Questão de honra!

O impasse ficou no ar e a banca se retirou para deliberar. Meia hora depois, Ferrughi, o Presidente, voltou carrancudo e abriu o Código Canônico.

Segundo ele, Del Bosco solicitara um adiamento da decisão da banca para que eu tivesse tempo de achar o alfinete restante ─ se houvesse! Ora, no Vaticano, tudo tem que ser decidido por unanimidade. Até mesmo a existência ou não de um certo Senhor lá de cima.

Assim, segundo o Artigo 847, § oitavo, Alínea 312, o exame estava suspenso por quinze dias, prazo para minha eventual retratação.

Ferrughi chamou-me ao seu gabinete e foi peremptório:

─ Tsé! O Patriarca Del Bosco convidou você para passar uma semana em Veneza com as despesas pagas pela Arquidiocese de lá. Você terá dois seminários com ele para poder demonstrar se está certo ou errado.

─ Mas, Irmão Cardeal, está me jogando às feras? ─ Exclamei assustado.

─ Não, Tsé! Que eu saiba, as feras não balançam a bunda. ─ Respondeu Ferrughi, irritado.

─ Pior! Muito pior! Não sou Alegrista! Não vou e pronto! Volto pra minha terra e dormirei sossegado.

─ Muito bem, Tsé! Mas não se esqueça de me convidar para os funerais do meu amigo Monsenhor Braguinha, seu pai, que vai morrer de desgosto.

E lá estava eu no trem expresso para Veneza, suspirando por Gertrudes.

Conhecera a irmãzinha por acaso. Tomava um vin chaud com os coleguinhas da Gregoriana no boteco lá da esquina do Albergue. Discutíamos as nuances do sagrado Mistério da Santíssima Trindade quando uma freirinha se aproximou, saltitando com os pés descalços. Estendeu uma sacola, pedindo-nos um óbolo para as obras sociais do seu Convento.

Enfeitiçado por seu rostinho, depositei uma moeda de uma Lira, esquecido de que era a última para pagar o bonde. Ela afastou-se e eu mandei os sagrados mistérios para as cucuias dos infernos.

Voltava a pé, arrependido de minha generosidade, quando, na outra esquina, lá estava a irmãzinha no seu ofício de pedir esmolas. Aproximei-me e lhe disse:

─ Irmãzinha! Não está com frio? O Paraíso é um pouco mais quente. ─ Entabulei uma conversa pra lá de inocente.

─ Talvez, Padre! Talvez! Mas fiz votos de andar descalça para o resto da vida. Pertenço à Ordem Mendicante das Sagradas Caminhadas de Jesus e, como o senhor sabe, ele andava descalço.

Fomos andando, andando e, como que por milagre, deparei-me na porta do prédio de apartamentos do Monsenhor Lippi.

Viajando, como sempre!

─ Irmãzinha! Noto, em seu lindo rosto, um ar de cansaço. Não gostaria de repousar um pouco? ─ Disse-lhe apontando para a janela do apartamento de Lippi, explicando-lhe que era hóspede do ilustre clérigo.

Na grande sala do apartamento, Gertrudes deliciava-se com as obras de arte e com o refinado gosto de Lippi. Abri uma garrafa de Chandon-La Truîte, safra de 1920. Contou-me sua história atribulada, filha de fugitivos lituanos do Nazismo. Ainda criança, fora entregue aos cuidados da Madre Genova e sentia-se feliz em servir a Nosso Senhor andando descalça pelas ruas estreitas de Roma.

Na segunda taça de vinho, começou a bocejar. Um sinal de cansaço no seu divino rosto me preocupou. Gertrudes estava à beira de um colapso.

─ Irmãzinha! Por que não dorme um pouco no quarto de hóspedes? Depois, faço-lhe companhia até o convento.

Fechei as cortinas da janela, enquanto Gert se deitava aconchegada ao travesseiro. Cobri seu corpo esguio com uma manta de lã da Calábria e sai silenciosamente do quarto.

Fiquei no escritório de Lippi, lendo o Capítulo 52 do Breviário que tratava do Mistério da Transubstanciação.

Foi aí que o demônio da esquerda sussurrou-me que Lippi só voltaria no dia seguinte. O da direita recriminou-me de não haver deitado logo junto de Gert por causa do frio. O da frente acrescentou que, se fosse ele, teria botado pra quebrar. O de trás aconselhou-me a esperar, deixando que a Irmãzinha tomasse a iniciativa.

Ave Maria gratia plena! Livrai-me das horrendas tentações deste mundo! Rezei com toda a fé e convicção.

Todavia, segundo o Breviário, a Transubstanciação é um fato. Tudo que começa bem, termina ainda melhor! Agnus Dei qui tolet pecata mundi! Afinal de contas, comer carne na missa é muito mais barato e nutritivo. Proteína divina, decerto!

De repente, ouvi um leve grito.

─ Tsé! Onde estou? Pelo sagrado pé esquerdo de Nosso Senhor!

Sentada na cama, havia baixado o capuz do hábito que, milagrosamente, escorregara, deixando desnudados os ombros e um colo mais alvo do que a neve. Como se estivessem anunciando uma aurora de róseos dedos.

Ou seriam duas? Quem sabe!

Sempre fui admirador de ombros femininos e suas adjacências frontais. Juro que nunca contemplei uma mulher tão bela. Um rosto iluminado por todos os mistérios da ICR!

Transcendente!

Com uma suavidade infinita, expliquei a Gertrudes o que ocorrera. Riu e exclamou:

─ Tô com frio, Tsé!

─ Tem razão, Irmãzinha! O aquecimento tá quebrado. Mas, posso explicar a Transubstanciação enquanto lhe aqueço. ─ Disse-lhe, aconselhado pelos quatro diabinhos do Breviário.

Insinuei-me por baixo da manta de lã. Coladinhos e quentinhos, coloquei a cabecinha de Gert no meu ombro. Um ronronar de gatinha satisfeita acalentava meu peito.

O trem em direção a Veneza diminuiu a marcha, aproximando-se da estação.

Sementeiras
  1. O reverendo sempre muito solícito com as irmãzinhas…
    Senti falta de suas memórias.
    Por favor não demore tanto para escrever da próxima vez!

  2. “…posso explicar a Transubstanciação enquanto lhe aqueço.”

    Hahahaha!

    Eu teria uma resposta na ponta da língua para uma cantada horrorosa dessas.

  3. Ai que saudades que eu tenho da aurora de minha vida que os anos não trazem mais! E como teria funcionado se fosse, de fato,uma cantada. Aliás, nem precisava, né? O problema, irmãzinha Cynthia, é que Gertrudes era vegetariana e tive que imaginar mil argumentos teológicos para transubstanciar a carne viva de Nosso Senhor num delicioso bife de soja. Mais de uma hora. O resto foi o calorzinho da manta de lã. Nada mais. Porém, naqueles tempos, adorava uma ponta de língua das menininhas, eu próprio, um reles menininho. Por isso, tô curioso em saber o que a sua língua teria aprontado. Curioso também em saber que tão horríveis cantadas a irmãzinha Ana Paula teria recebido. Vige! Poderíamos, aliás, formular até uma “teoria de cantos inter gêneros”. Que acham? Minha bênção

  4. As cantadas do Reverendo são infalíveis, ou ele não teria um catálogo de irmãzinhas maior do que a lista telefônica de New York.

    Fiquei curioso para saber como o Reverendo se saiu do cerco do patriarca Del Bosco “Turíbulo Quente”.

  5. Maior besteirol, mas achei divertido.
    Especial para o reverendo:

    http://www.youtube.com/watch?v=FymK8Lp87d4

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