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LVIII – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

3 comentários

(Acqua sine diem)

58º CAPÍTULO

O céu amanhecera nublado em Roma. Tempo abafado e pouco vento; prenúncio de tempestade. Tomávamos o café da manhã, eu e a irmãzinha Antonietta da Sagrada Tentação do Deserto, quando os primeiros raios desceram com um barulho de fim de mundo.

Dias e noites de fortes chuvas impediram que Antonietta voltasse ao Convento do Milagre dos Pães, onde morava. Apesar das inúmeras cerimônias no quarto do Monsenhor Lippi, meu padrinho, em viagem a Inglaterra para visitar Constanza, senti-me um tanto culpado por tanta pajelança. Precisava trabalhar na tese, mas tanta fartura me desviava do assunto.

Antonietta era a Vice Madre do Convento e inventara uma visita a uma tia adoentada para se justificar. Que seja! Conheci-a como confessor. Era a solista da capela e deslumbrei-me com voz tão elegante e refinada. Mas Tontom tinha outro confessor, o bispo auxiliar de Monte Baffio, perto de Roma.

De tão impressionado com a beleza de Antonietta, usei os artifícios jesuíticos da intriga justa e beatificada. Boatei entre as irmãs do Convento que o bispo não era de nada e se encontrava com seus coroinhas debaixo da Ponte Milvia. Foi o maior escândalo e ele foi demitido.

Ganhei como presente a visita de Antonietta para a santa confissão. Era muito pecado junto para uma voz tão linda. Não houve nada. Apenas dois olhares e cinco suspiros. O resto ocorreu um mês depois, no apartamento de Lippi, para meu sagrado espanto.

Tontom era especialista em dança do ventre!

Nunca vi tanta água na cidade. O jornal disse que um vagabundo maltrapilho estava pregando um novo dilúvio, numa das colinas de Roma. Para afogar os pecados da Nova Babilônia!

Olhei para a rua e a coisa estava séria. Água pelo pescoço dos transeuntes mais afoitos. Desci para comprar o pão e pensei no pregador do dilúvio. Quem sabe? Em Roma, tudo pode acontecer. Passei na esquina e aluguei uma jangada. Ajudado por Tontom, montei uma barraca de acampamento por cima da embarcação, levei todos os víveres do apartamento, algumas roupas de Lippi e uma ou duas batinas para improvisar um vestido para Antonietta.

Esperamos mais um ou dois dias. A chuva continuava. A jangada, amarrada na janela do apartamento, flutuava livremente. Depois de breves Ave-Marias, resolvemos abandonar o apartamento, no quarto andar. Sai remando pelas ruas da cidade. Paisagem desoladora. Lixo, objetos domésticos e alguns animais em decomposição boiavam aqui e ali. Cadáveres de padres e freiras abraçados uns nos outros. Que horror!

Um breviário perdido, em cima de um telhado!

Guiado por Tontom, romana de nascimento, dirigi a jangada à colina do Capitólio. De cima, não se via mais nada. Água por todos os lados. Uma ou outra agulha de igreja aparecendo. O estranho, segundo Antonietta, era que ninguém tivera a mesma ideia de arranjar um barco qualquer. Os pecadores romanos, envoltos em sua lascívia, não prestaram atenção às advertências de Jeová.

Mudamos de colina umas sete vezes com medo dos deslizamentos. Na época, ainda não havia a defesa civil.

Finalmente, a chuva parou. Roma, cidade aberta! E deserta!

Voltamos ao apartamento, milagrosamente intacto, e mandei Tontom de volta. Semanas na colina, em doce conluio, deixaram-me exausto. Além disso, precisava retomar meus estudos.

Mas havia um grosso problema. Nem sempre a teoria resolve as coisas do mundo. Como saber quantos alfinetes cabem na cabeça de um anjo? Desde a Grande Guerra Nazista, nenhum deles havia aparecido. Estavam com medo dos americanos, decerto. Lippi, recém-chegado da Inglaterra, aconselhou-me a medir as cabeças dos anjos das pinturas e esculturas sagradas. Depois, com a média craneana, seria mais fácil.

─ Irmão Cardeal! Segundo os cálculos de Lippi, há milhares de pinturas e esculturas angélicas, só na Itália. Mal tenho dinheiro para andar de bonde por aqui. E agora?

─ E como se virou no dilúvio, Tsé? Pensei que tinha morrido. ─ Desconversou Ferrughi.

Contei-lhe minha aventura, omitindo a presença da encantadora e corajosa irmãzinha Antonietta.

─ E o senhor? Pensei que estivesse boiando na Piazza Burghesi. ─ Respondi à altura.

─ Fiquei na fazenda. Que eu saiba, só pobre é que morre afogado e soterrado.

─ E o Santo Padre? ─ Perguntei curioso.

─ Estava na África do Sul rezando missa no aniversário do apartheid.

─ E os malditos anjos? O que devo fazer com anjo sem cabeça?

─ Porra, Tsé! Nunca vi um padre tão problemático. Amanhã, confesso o Santo Padre e, em troca da absolvição dos pecados, vou lhe pedir uma bolsa de viagem pra você. Mas, faça-me o favor! Segundo meu colega, professor de Anatomia Teológica da Gregoriana, orelha, lábios e queixo fazem parte da cabeça. Não se esqueça de tão sagrado detalhe. Tem mais. Só vale anjo louro e de olhos azuis. ─ Terminou o Cardeal.

O dilúvio fora apenas parcial. Todos os ricos, bispos e cardeais e demais autoridades haviam escapado. O povão se fodeu.

Como sempre!

Comprei uma fita métrica e saí por ai medindo tudo o que era cabeça de anjo. Ao todo, 5.230, com a média logarítmica de um metro e meio quadrado por cabeça. Apliquei a equação Susan-Lippi e reduzi a amostragem para 620.

─ Irmão Cardeal! Ainda resta um problema. O bom senso começou a brigar com o senso comum. Encontrei anjo desde a Idade Média e não seria justo enterrar alfinete moderno na cabeça deles.

─ Num tem problema, Tsé. Para os medievais, aplique alfinetes enferrujados. Para os bizantinos, alfinetes de prata. Para os renascentistas, dourados. Para os atuais, de aço mesmo, de latão, de lata de aveia, do raio que o parta. Ninguém vai notar mesmo.

Enfim, redigi as 854 páginas da tese e mais cento e vinte só de bibliografia e material de arquivo.

Uma semana antes da defesa, Ferrughi me disse:

─ Tsé! Tem um problema. Designaram o Patriarca de Veneza pra sua banca. Meu desafeto, além de notório tric-tric. Vive cantando os soldados da Guarda Suíça. Vai dar vexame.

Pouco me importava! Já havia escrito uma carta para minha Comunidade, anunciando meu retorno. Uma tarde de sufoco na defesa de tese seria café pequeno.

Minhas irmãzinhas estavam todas presentes prestigiando meu dia de glória.

Nem tanto! Os tric-trics foram feitos para isso mesmo. Qualquer dia, volto a Veneza e dou um banho de cheiro em plena Basílica de São Marcos.

InscritosEmPedra
  1. Hehehe!
    Antonietta da Sagrada tentação do Deserto? Nome inpirador.
    O povinho da ICR estava mesmo virado. Água fria costuma funcionar até para separar cães no cio…
    Oitocentos e cinquenta e quatro páginas, mais cento e vinte de bibliografia?
    E tem anjo pra isso tudo? Ou o senhor incluiu algumas das irmãzinhas, anjos de candura, na sua tese?

  2. Irmão Ducaldo: Morrer até que pode. Mas, não em situações indecorosas, abraçados em plena rua inundada, em Roma, como os padres e freiras no dilúvio. Quanto aos anjos de minha tese, só incluí Marocas, pois se trata de um anjo autêntico ambora mal orientada pelo padeiro da esquina. Minha bênção úmida e enlameada.

  3. Enquanto o Reverendo aguarda a defesa de sua tese, bem que Pepê poderia escrever um artiguinho por aqui, né?

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