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Mal-Estar

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Depois do Édipo, quase imediatamente, sentiu esse mal-estar, aquele que Freud denominava de Unbehagen. O pai da psicanálise cuspia sem querer no rosto de seus pacientes quando proferia essa palavra, o que era inevitável, pois falava em alemão. Lacan dizia que era proposital, mas não há provas conclusivas a respeito. De todo modo, os lacanianos não falam, por isso, durante o processo analítico, porque alegam que os perdigotos geram terríveis contratransferências. É um exagero evidente, pois nem toda palavra proferida lança gotículas de saliva, assim sem mais nem menos. Unbehagen, sim, esse é um mote amaldiçoado nas psicoterapias.

Sim, mas não falava do cuspe analítico. Falava do que mesmo? Ah, sim, do seu mal-estar. Ou do seu desconforto? Não sei. Só sei que sentia, provavelmente, por causa dos sacrifícios pulsionais exigidos pela vida social. Afinal, abriu mão do incesto. E não teve escolha. Se tivesse, renunciaria? Acho que não. Preferiria a perversidade polimorfa à sexualidade exogâmica. Nunca gostou da genitalidade, adorando intimamente a promiscuidade, embora tenha sido obrigada à monogamia. Enfim, abdicou da gratificação indiscriminada dos seus impulsos agressivos.

Eis o mal-estar: frustração e culpa. O ressentimento contra a civilização tornou-se um sentimento banal na sua vida.

Um dia, matou um banqueiro, quando invadiu armada o Banco Central.

Está até hoje presa numa penitenciária.

Antes, passou por uma bateria de testes psiquiátricos, mas foi julgada sã. Quem quiser visitá-la, eis o endereço: rua da Penitenciária, 112, Coari. Fica perto do Campo de Futebol.

Torcedor

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