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Cenário apocalíptico

5 comentários

Uma das imagens mais assombrosas, um pesadelo interminável, é o EUA tornando-se fascista. Acho que é o fim do mundo. Será que estamos no início do fim? O próximo Hitler será uma mulher? Por via das dúvidas, sempre coloco um bigodinho em Sarah Palin.

Leiam esse artigo que pesquei no VioMundo:

Fascismo nos Estados Unidos: O futuro do Tea Party

Fascist America: Is This Election The Next Turn?

By Sara Robinson (autora de quatro artigos sobre o assunto. Já traduzimos um, ao qual ela se refere na abertura do texto. Está aqui)

Em 21/10/2010, no blog Campanha pelo Futuro dos Estados Unidos

Em agosto de 2009, escrevi um artigo intitulado Estados Unidos fascistas: Já chegamos lá? que causou muita discussão entre a direita e a esquerda da blogosfera. Eu argumentei que — de acordo com a melhor literatura sobre a ascensão de regimes fascistas — os Estados Unidos estavam num caminho que corria muito próximo do ponto de segurança a partir do qual nenhuma democracia prévia tinha sido capaz de recuar antes de se tornar um estado fascista completo. Também notei que o então emergente Tea Party tinha várias marcas proto-fascistas e que tinha o potencial de se tornar um perigo claro e presente para o futuro da democracia se ganhasse tração suficiente para começar a ganhar eleições de forma convincente.

No primeiro aniversário daquele artigo, Jonah Goldberg — o revisionista-em-chefe da direita em questões relativas ao fascismo — usou uma coluna inteira da National Review para me provocar sobre o que caracterizou como uma previsão fracassada. Onde estava o estado fascista que eu havia prometido?, ele perguntou.

É engraçado que ele tenha perguntado. Porque esta próxima eleição pode, de fato, ser um ponto crítico naquele caminho.

A série de três artigos sobre “Os Estados Unidos Fascistas” foi construída a partir do livro Anatomia do Fascismo, de Robert Paxton — um trabalho-chave que deixa claras as condições para prognosticar o fascismo. Paxton definiu assim:

“… uma forma de comportamento político marcado pela preocupação obsessiva com o declínio comunitário, humilhação ou vitimização e pelos cultos compensatórios da unidade, energia e pureza, na qual um partido de massas de militantes nacionalistas, trabalhando em colaboração difícil mas eficaz com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e persegue com violência e sem limites éticos ou legais objetivos de limpeza interna e expansão externa.”

Paxton descreveu os cinco ciclos básicos de bem sucedidos movimentos fascistas. No primeiro estágio, um estado industrial maduro diante de algum tipo de crise forja um movimento novo, rural, que é baseado em renovação nacionalista. Este movimento invariavelmente rejeita a lógica e glorifica a emoção pura, promete restaurar o orgulho nacional perdido, adota os mitos nacionais tradicionais para seus próprios objetivos e insiste que o país seja expurgado da influência tóxica de estrangeiros e de intelectuais, que são “culpados” pela miséria atual.

(Já soa familiar?)

No segundo estágio, o movimento ganha raízes, se torna um partido político real e consegue um lugar na mesa de negociações. Sucesso neste estágio, escreveu Paxton, “depende de certas condições relativamente precisas: fraqueza do estado liberal, cujas inadequações condenam a nação à desordem, declínio e humilhação; indecisão política porque a direita, herdeira do poder mas incapaz de exercê-lo sozinha, se nega a aceitar a esquerda como parceira legítima na governança”.

(O Partido do Não se habilita…)

Diante da indecisão, as elites corporativas forjam uma aliança com os nacionalistas rurais, criando um casamento que, se continuar, em breve dará lugar a um estado fascista. E, naturalmente, isto é precisamente o que está acontecendo agora entre os irmãos Koch, as companhias de petróleo, o Americans for Prosperity e o Tea Party.

A maioria dos movimentos fascistas da história morerram justamente neste estágio — quase sempre por causa da básica incompetência autoritária de suas lideranças, o que garantiu que nunca conseguiram nada mais que um pequeno e temporário punhado de assentos na mesa de negociação política. Os fascismos bem sucedidos, de outra parte, nasceram daqueles movimentos que se mantiveram unidos, com influência política suficiente para tornar inevitável que capturassem o governo. E, assim que conseguiram, não houve caminho de volta, já que tinham o poder político e o músculo nas ruas para silenciar qualquer oposição (partidos fascistas quase nunca obtiveram apoio majoritário em qualquer estágio — mas ser minoria é apenas problema em uma democracia que funcione. Não é um problema se você usa a força para conseguir o que quer).

De acordo com Paxton, existem três perguntas rápidas para saber se já cruzamos a linha a partir da qual emergirá um regime fascista:

1. Estão os neo ou protofascistas se tornando enraizados em partidos que representam interesses e sentimentos majoritários e exercem influência importante na cena política?

2. Está o sistema econômico e constitucional do estado em paralisia aparentemente insolúvel pelas autoridades existentes?

3. Está a rápida mobilização política fora do controle das elites tradicionais, ao ponto de que essas elites poderiam ficar tentadas a usar ajuda violenta para manter o controle?

Se todas as respostas forem “sim”, você provavelmente deve se preparar para a viagem [fascista], que pode durar pelo menos uma década ou duas antes que acabe o combustível.

Um ano atrás, notei que já estávamos respondendo “sim” a estas questões. Agora, o “sim” é ainda mais acachapante. Com mais de 70 candidatos do Tea Party disputando postos estaduais e federais em novembro, é justo dizer que a eleição de 2010 está se tornando uma espécie de referendo na futura viabilidade política do Tea Party. E se eles forem bem sucedidos em vencer alguns destes postos, pode ser muito bem a última vez que a gente vota a respeito disso.

A alternativa

Existem algumas. Cenários:

1. O Tea Party é completamente rejeitado pelos eleitores em 2 de novembro. Um punhado de seus candidatos vence; e, pelos próximos anos, os democratas encontram um alvo para demonstrar as loucuras dele, reforçando os argumentos contra a eleição de candidatos do Tea Party no futuro. O partido começa a perder força e em alguns anos será extinto.

2. O Tea Party elege um bom número de seus 70 candidatos — o suficiente para se mostrar sólido e estabelecer suas credenciais políticas, mas não o suficiente para fazer qualquer coisa no governo. Se isso acontecer, os progressistas devem fazer algo rápida e duramente. Se esta onda direitista continuar a crescer a caminho das eleições de 2012, estamos diante de um possível futuro fascista. Haverá tempo para evitá-lo, mas o embalo não estará de nosso lado — e freá-lo vai se tornar mais difícil a cada semana.

3. Uma maioria sólida dos candidatos do Tea Party vence, cimentando o controle do movimento sobre o Partido Republicano e o transformando em um genuíno poder político no país. Eles já prometeram que se controlarem uma das casas do Congresso os próximos dois anos serão de audiências, CPIs, impeachments e assassinatos de caráter de progressistas. (O que, no final, poderia se voltar contra os republicanos, assim como a tentativa de impeachment de [presidente Bill] Clinton se voltou. Esse tipo de assédio da terra-arrasada também assolará autoridades do governo. E violência casual contra imigrantes, gays e progressistas pode escalar quando os militantes do Tea Party se sentirem à vontade, confiantes de que pelo menos parte das autoridades vai apoiá-los.

Neste cenário, o ponto de segurança — a partir do qual nenhum país conseguiu evitar um pesadelo fascista completo — pode ter passado quando acordarmos no dia 3 de novembro. A partir disso, o  resto vai acontecer em agonizante câmera lenta; e o caráter do resto desta década vai depender inteiramente de se os corporatistas, militaristas ou teocratas conseguirão ou não o controle do regime emergente.

Realmente? Você fala sério?

É justo avaliar se o Tea Party merece ser levado a sério. Afinal, sempre houve esta facção na política dos Estados Unidos — os 10 a 12% de direitistas autoritários que deram combustível ao macartismo, ao movimento Bircher e à Maioria Moral; que votaram em Goldwater e depois em George Wallace e que até deram poder ao líder da KKK, David Duke. A extrema-direita sempre esteve conosco. É um dos aspectos constantes de nosso cenário político.

Mas eles sempre foram um movimento extremo, que se mantinha isolado. O que é diferente agora é que as ideias doidas da direita radical — negações sobre a evolução e os danos ao meio ambiente, banimento da contracepção, cidadania soberana, teologia do Fim dos Tempos, nacionalismo branco, tudo isso — foram catalizados pela mágica da internet e pelo desastre econômico amplo numa massa coerente de subcultura que, de acordo com uma pesquisa do Wall Street Journal divulgada ontem, atraiu cerca de 35% de possíveis eleitores. De acordo com a Chip Berlet of Political Research Associates, os Tea Parties são um movimento amplo que reúne várias formações pre-existentes da direita política:

– Libertários econômicos que se preocupam com a tirania coletivista de um governo grande;

– Conservadores da direita cristã que se opõem às políticas sociais liberais do governo;

– Cristãos apocalípticos da direita que temem uma Nova Ordem Satânica Mundial;

– Nebulosos teóricos da conspiração que temem uma Nova Ordem Mundial secular;

– Ultra-patriotas nacionalistas preocupados com a erosão da soberania dos Estados Unidos;

– Xenófobos nacionalistas brancos anti-imigração que se preocupam em preservar os Estados Unidos “reais”.

Essa unificação das forças da direita em torno de ideias radicais nunca aconteceu antes na escala atual na História moderna dos Estados Unidos. E por isso é preciso reconhecer o Tea Party como algo único sob o sol político — e seriamente avaliar o futuro que nos espera se ele se tornar mais poderoso.

Este futuro é doloroso de contemplar. Já fui chamada de alarmista por usar a palavra que começa com F para descrever a situação que enfrentamos. Mas esta é uma das marcas universais do fascismo: quando todas as pessoas finalmente se derem conta do que está acontecendo, geralmente é muito tarde para fazer alguma coisa a respeito. Aqui está como Milton Mayer descreveu a experiência da chegada do nazismo à Alemanha:

“Na comunidade universitária, em nossa própria comunidade, falavamos privadamente com nossos colegas, alguns dos quais concordavam conosco; mas o que diziam? Diziam, ‘não é tão ruim assim’ ou ‘você está vendo coisas’ ou ‘você é um alarmista’. E você é um alarmista. Você está dizendo que isso vai levar àquilo, mas não pode provar. Este é o início, sim; mas como você tem certeza quando não se sabe o fim, como você pode saber qual será e como será o fim? De um lado, seus inimigos, a lei, o regime, o Partido te intimidam. De outros, seus colegas te definem como pessimista ou mesmo neurótico”.

E aí chega o dia em que tudo se torna claro, escreve Mayer — e naquele dia é muito tarde para fazer alguma coisa:

“De repente tudo acontece, tudo de uma vez. Você descobre quem é o que fez ou, mais claramente, o que você não fez (porque é isso o que se espera de nós, que não façamos nada). Você se lembra daquelas primeiras reuniões na universidade quando, se alguém tivesse se levantado, outros teriam se levantado, talvez, mas ninguém se levantou. Pequenas coisas, como contratar este homem em vez daquele, mas você contratou aquele em vez deste. Agora você se lembra de tudo e fica com o coração partido. É tarde. Você está comprometido e sem saída”.

Faltam apenas alguns dias para as eleições. O que quer que você faça entre hoje e elas será pouco — algumas ligações telefônicas, bater em algumas portas, conversar com amigos. E ainda assim qualquer compromisso agora poderá ser lembrado em cinco anos como algo que fez a diferença, quando soubermos que o país já era e nosso futuro tiver sido tomado por pessoas que representam o pior de tudo o que somos.

Seja a pessoa que enxerga para onde estamos indo. Seja a pessoa que se levanta enquanto pode. O futuro que estas pessoas querem para nós é algo que dezenas de países já tiveram; e todos eles carregam as cicatrizes por séculos. Ainda não estamos no fascismo; mas se o Tea Party um dia conseguir colocar as mãos nos comandos do poder, estaremos.

PS do Viomundo1: Nas eleições supra-citadas, o Tea Party teve um desempenho apenas razoável, mas se credenciou para ser uma força política importante em 2012.

PS do Viomundo2: Aqui no Brasil, você se levantou (você aí, que está lendo isso agora!) e disse não às forças proto-fascistas que se reuniam em torno de um homem “de esquerda”.

PS do Viomundo3: A articulista esqueceu-se de mencionar que, além da internet, o fascismo nos Estados Unidos dispõe de uma rede nacional de TV que serve não apenas como aglutinadora da extrema-direita, mas como promotora das ideias malucas da extrema-direita (a Fox News).

Torcedor
  1. Existem algumas possibilidades antes do desastre completo na próxima eleição.

    A primeira delas é os EUA se recuperarem da crise. Isso aumentaria muito as chances do Obama se reeleger.

    A outra é o presidente manter uma tradição norteamericana de invadir um país estrangeiro próximo à eleição presidencial. Nos EUA, quem fez isso se reelegeu. No momento o Irã seria um grande candidato. Mas não antes dos serviços de inteligência divulgarem na midia internacional dossiês escabrosos sobre as inenarráveis barbaridades cometidas pelo regime dos aitaolás e dos seus planos de monstruosas armas de destruição planetária. Comovida, parte da opinião pública internacional (brasileira inclusive) apoiaria sensibilizada uma ação americana em defesa da liberdade, da democracia e dos valores cristãos. O pessoal do Tea Party pode até ficar chateado de esperar mais um pouco, mas irão considerar que foi uma opção justa.

    • O pessoal do Tea Party embarcaria nessa, na certa. Obama poderia aproveitar o ensejo e fazer um Batalhão Tea Party. Mandava-os como bucha de canhão e estava resolvido o problema.

      • Perfeito. Todo mundo na infantaria.
        Go Tea Party!

      • Exato, e o avião de transporte de tropas os despejaria todos, de pára-quedas (sou antiquado, uso trema e acento) do lado de lá do front. Só gente muito dedicada tem direito a participar desse tipo e missão.

      • Pára-quedas e coletes verde-limão.

        Também sou antiquado e não sou signatário do acordo ortográfico.
        Como não vou fazer mais nenhum concurso, vestibular ou pós-qualquer-coisa, continuarei escrevendo da mesma maneira.

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