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LVI – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

2 comentários

(Urbis et Orbis)

56º CAPÍTULO

De vez em quando, é saudável endoidar. Virar tudo de cabeça pra baixo e desenferrujar os neurônios. E os conceitos adquiridos, também.

Na Comunidade, vez por outra, a Assembleia aprova qualquer coisa do gênero. A gente distribui um pozinho de casca de siri, diluído num xarope de fungo de caule de mangue, e todo mundo viaja. Troca-se de clã adoidado e ninguém faz mais nada do que gozar a vida.

Contudo, para intelectuais metidos a besta, que nem esses da Universidade, basta ler “Adeus à Razão” de Paul Feyerabend. Na volta, uma ou duas semanas depois, quem sabe se eles não se tornam mais felizes e menos burocráticos? Além de ninguém lembrar-se mais de coisa alguma!

Na verdade, tanto num local como no outro, o que retorna rapidamente é o senso comum, produto da prática ou tradição histórica de qualquer cultura ou civilização e que absorvemos desde a infância.

Por isso mesmo, cada um tem seu jeito de viajar e de retornar e todos os seus hábitos são verdadeiros no seu respectivo contexto histórico. Isso não passa, aliás, de um relativismo filosófico que vem dos gregos; trata-se do reinado do senso comum definido como tradição empírica ou histórica.

E cada macaco no seu galho, bem como, em consequência, cada sacerdote em sua palafita e ninguém tem nada a ver com isso.

Pois bem! Logo depois da Missa do Galo, a que assisti na companhia da irmãzinha Filistina, dediquei-me, de corpo e alma, à procura de um quadro teórico-metodológico rigoroso para minha tese sobre os anjos. E não teria podido fugir a tal dilema desde que se tratava de uma exigência canônica, regulamentada por uma Bula Papal, especialmente dirigida à Gregoriana.

Com efeito, aquela Universidade havia sido alvo do ridículo acadêmico por aprovar teses controversas e estranhas, sem pé nem cabeça, mesmo dentro do contexto da Teologia que, como todos nós sabemos, já é uma disciplina científica pra lá de suspeita.

O padre Auschwics, por exemplo, renomado docetista bávaro, tentara provar que o Evangelho não passava de um poema grego “d’avant-garde” sobre um herói galileu, muito popular no primeiro século da E.C. (Era Comum). Com todas as suas invencionices criativas, o padre ter-se-ia inspirado na poética de Artaud e de sua exótica escola literária parisiense. Daí, apesar das críticas, sua enorme aceitação pelos intelectuais franceses de plantão.

Tal absurdo histórico, no entanto, passara pelo crivo dos velhinhos obesos e carecas da Gregoriana apenas, pelo que se dizia, porque o tal padre invocava em suas afirmações o método que ele próprio denominara de “per la grazia de Dio”.

Ora, segundo o Autor, na sua Introdução, tudo no Universo é possível “pela graça de Deus” e nada ocorre sem a intervenção dela, afirmação, aliás, teologicamente correta. Segue-se, para ele, que seria perfeitamente plausível que o Evangelho, “per la grazia de Dio”, nada mais fosse do que um poema épico, em quatro versões, sobre a salvação da alma humana.

De minha parte, não podia aceitar rematada tolice, embora concordasse que o Evangelho contem inúmeras passagens poéticas e obscuras como, por exemplo, as duas versões da Natividade, uma delas, inclusive, imitação das pastorais latinas da época.

Nem meus anjos se prestariam a tamanho ridículo!

O segundo quadro teórico que examinei, apesar de teologicamente coerente, tampouco pareceu-me satisfatório desde que excluía qualquer possibilidade da construção de uma Teologia das Palafitas que eu próprio começava a desenhar. Teologia, aliás, que já ganhara inúmeros adeptos, entre eles o clero mais esclarecido do Terceiro Mundo.

Na verdade, a tese nada mais era do que um louvor descabido à Nossa Senhora, pois seu pressuposto era o de que não poderia haver prova metafísica contra a virgindade da Mãe de Nosso Senhor, o que contrariava o princípio de Popper da “falsificação” das teorias científicas.

Contudo, mesmo completamente explícito, o método elaborado pelo padre Antonio Varizzi, um italiano da Sicília, era estranho à sua própria tese; ele tentava apenas provar que todas as santas da ICR eram virgens consumadas, seja lá o que isso queira dizer. Ora, como Nossa Senhora sempre fora tida como santa, ficava mais do que claro para Varizzi que ela era virgem. E sua Virgindade teria sido construída pouco a pouco (sic).

Do meu ponto de vista, isso nada mais tipificava do que um abuso aristotélico-tomista por parte de Varizzi.

E ponto final!

Entretanto, cansado de tanta leitura inútil, fui surpreendido pelo anúncio, afixado no quadro de avisos do Albergue, da Conferência do Honorável Monsenhor Giorgio Lippi, meu padrinho. Tratava-se, segundo o resumo, de uma inovadora metodologia teológica que combinava elementos científicos abstratos com evidências histórico-empíricas.

Fascinado por tal mistura, estava lá na primeira fila do anfiteatro para ouvir Lippi, cuja Conferência tornou-se decisiva para todo o resto da minha vida, especialmente, na qualidade de líder comunitário.

Por isso mesmo, por ser altamente relevante para minha futura caminhada pelos mangues da vida, e apesar de demasiadamente erudita, peço licença aos meus leitores para fazer um pequeno, mas necessário resumo da palavra revolucionária do meu padrinho.

Gostaria, inclusive, de receber críticas construtivas, pois ando, na minha velhice, duvidando até mesmo da existência do próprio Universo. Ideia docetista, aliás, que nos livraria de vez das babaquices de um certo bispo da Baviera.

Baseado nos pré-socráticos, Lippi afirmava que o relativismo filosófico imposto em nossas vidas pelo “senso comum” é, infelizmente, perturbado por uma frequência histórica mensurável de cortes epistemológicos reconhecíveis que aspiram a universalidades não-empíricas.

A tais cortes, que encobrem e quebram as verdades particulares da tradição, Lippi chamava de “bom senso”. Tratava-se, na verdade, de momentos de estase epistemológica que levavam as culturas a se expandirem e se modificarem, quase sempre gerando um conflito de dominação quando uma cultura, tida e havida como “superior”, se confrontava com uma mais fraca.

Esse conflito, segundo Lippi, poderia ser denominado de “tensão dialética entre o bom senso e o senso comum”, razão do desenvolvimento cultural ─ o progresso ─ e do domínio de uma cultura sobre outra, quando não do extermínio de uma delas. Ou mesmo, fusão de uma pela outra, predominando sempre os elementos mais fortes e mais tradicionais de ambas.

Lippi, com extraordinária perspicácia, dava como exemplo de sua tese justamente um célebre episódio ocorrido no Jardim do Edem.

Ora, segundo Lippi, há duas situações a considerar. Uma relaciona-se com a tradição histórico-empírica e, portanto, particular e relativista da Criação dos céus e da terra por Jeová ─ que pertence ao reino do senso comum ─ na qual estaria inserido o episódio da maçã.

A outra, de caráter mais abstrato e universal e, portanto, uma tradição teórica, representaria o “corte epistemológico do bom senso” e nada mais seria do que uma intervenção estrangeira ─ possivelmente, do pensamento de alhures ─ à procura de “universais” embutidos no Jardim do Edem, onde só havia harmonia, felicidade e bem-estar, qualidades particulares e relativísticas, construídas pelo “senso comum”.

Em suma, Adão e Eva viviam numa boa e, subitamente, foram alvos de uma força cósmica e incompreensível que os expulsou do Paraíso.

Assim, a história da serpente ou, antes, o seu significado, introduzida por um pensamento alienígena predador ─ provavelmente durante o período do exílio babilônico ─ provocou uma ruptura cultural no pensamento judaico, originando todos os mitos modernos do pecado e da salvação da alma.

Em suma, do bem e do mal!

Com efeito, para Lippi, Adão e Eva viveram felizes durante muito tempo sem necessidade de nenhuma intervenção estrangeira por parte de outra cultura.

Até que…a serpente de Cotion, num dos seus colóquios vespertinos, induziu Eva a comer a tal maçã.

Ora, para nossa primeira mãe, dentro de suas tradições histórico-empíricas habituais, não havia nenhum problema. Afinal de contas, todos comiam maçãs. Além da linda cor vermelha, o fruto era muito apreciado naquela época, inclusive por Adão, seu consorte.

No entanto, o “bom senso”, isto é, o Supremo Criador do Jardim, um ano antes do fatídico acontecimento, proibira ─ ninguém sabe por que cargas d’água ─ a ingestão de maçãs. Em consequência, Eva deveria ter ponderado mais um pouco sobre o conselho da irmã serpente, bicho carnívoro que não comia maçãs.

Como e por que tal bicho, por mais lindo e sedutor que fosse, poderia aconselhar tal dieta?

Contudo, logo nos primeiros dias da ordem do Senhor, estabeleceu-se em pleno jardim uma primitiva “tensão dialética” entre o hábito de comer frutas ─ tais como figos, tâmaras, jacas, mangas, cajus, sapotis e, claro, maçãs ─ e a proibição de se abster das últimas.

Assim, o vírus da abstração contaminou Eva que se perguntou:

─ Se como frutas, por que excluir uma delas? Afinal de contas, todas as frutas são iguais e, por assim dizer, “desfrutam” da mesma essência. Logo, não haverá problema em comer maçãs. Não é, Adão, meu querido Adãozinho?

─ Sei lá! Mulher só pensa em besteira! Bicho ruim, que nem a serpente. ─ Resmungou nosso primeiro pai com o maior bocejo.

Do abstrato ao concreto! Eva convenceu Adão e, como sabemos, ambos provaram do fruto proibido, usando o “bom senso”.

E, aí, deu-se o bode! A serpente até hoje é tema predileto dos sonhos das mulheres! Pelo menos, segundo Freud.

Quanto a Lippi, a solução dialética para o surgimento do pecado ─ isto é, comer maçãs sob o reinado do bom senso ─ em confronto com o saudável ato de viver em paz, embora comendo outras coisas sob a égide do senso comum, foi, em última instância, o surgimento do Cristianismo, necessário até hoje para a salvação da humanidade.

Passada a estase da comilança, no entanto, estabeleceu-se, provisoriamente, novo senso comum com o surgimento do monoteísmo messiânico judaico, fato historicamente necessário, sem o qual não haveria Céu, Inferno e Missa de Sétimo Dia.

Ocorre que os tempos mudaram. E de tanto se falar da fatídica ceia com maçãs, apareceu no deserto um curandeiro-milagreiro-apocalíptico, portador de um imenso carisma, que seria o personagem principal de uma nova e histórica “tensão dialética” entre os judeus e o resto do mundo.

Com efeito, o Divino Galileu nada mais foi do que a encarnação do senso comum, a que os judeus haviam se habituado desde o exílio na Babilônia, em confronto com o bom senso ─ de cunho abstrato e generalizante, então fortemente influenciado pelo helenismo ─ representado pela dominação romana com a chegada do Reino da Justiça, da Abundância e da Paz.

Com efeito, depois que o maravilhoso curandeiro foi assassinado, seus amigos começaram a espalhar muitas histórias universais a seu respeito, inclusive e principalmente o fato incontestável de sua ressurreição.

Lançadas no cadinho dialético da dominação estrangeira e, lá fora, na relação de dominação classista entre senhores e escravos, tais estórias, de tanto serem repetidas, transformaram-se em verdades absolutas, iniciando-se um novo ciclo de senso comum.

Dessa forma, para Lippi, surgiu o Cristianismo e, mais tarde, como novo surto de bom senso com a intervenção do Imperador Constantino, a Santa Madre Igreja.

Que não desgruda da gente, aliás, há séculos!

Saí da conferência do meu padrinho excitado e abismado com tanta sabedoria e inteligência. Não dormi, não comi nem bebi.

Tampouco frequentei por semanas a ponte Milvia para desagrado da irmãzinha Juliana dos Sagrados Espirros de Nosso Senhor, vizinha de cela e de pecados de minha querida Filistina.

Ora, apesar de pensada e construída pelos humanos, a Teologia é a única ciência que transita, heroica e com inegável charme, entre o universal ─ o bom senso ─ e a monótona experiência cotidiana do abominável Homo sapiens ─ o senso comum.

Como mãe sacrossanta de todas as ciências ─ para repetir o Padre La Chance, meu professor de Cosmologia ─ há muito tempo, talvez desde os deliciosos colóquios nas cavernas de Lascaux, a Teologia precisava de um quadro teórico-metodológico especial. Que não deixasse nenhuma brecha a qualquer especulação espúria nem, tampouco, a qualquer hipótese irracional e venenosa dos ímpios.

Mesmo sem consultar Lippi, meu padrinho, terminei por adotar suas ideias revolucionárias, adequando-me, com propriedade, à bula papal que exigia dos estudos teológicos o máximo de elementos científicos ─ o bom senso ─ e o mínimo de pieguismo devocional ─ o senso comum.

Os anjos e os alfinetes ficaram muito gratos à minha decisão! E Próspero Ano Novo Para Todos. Com todas as dúvidas possíveis!

Torcedor
  1. Reverendo,

    Puxa, que maravilha de marco teórico: uma junção do bom-senso e do senso-comum! Vou sugerir isso aos meus orientandos de doutorado. Mas ficou uma dúvida: apelar para o bom-senso da IC não é um contra-senso? Isso é influência da dialética? Você também teve aula com PP?

  2. Rapaz! Terei de consumir muito pó de siri para acompanhar isso tudo.

    Essa dos velhotes aprovando tudo por causa do “per la grazia de dio” foi ótima.

    Virgindade construída pouco a pouco? Nem com chá de trombeta.

    A questão levantada por Cynthia é procedente.

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