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Vassily Grossman

9 comentários

Quem me conhece sabe que sou obcecado pela segunda guerra mundial e pelo totalitarismo. Tal mania é fruto direto da mesma compulsão paterna pelo tema e, também, pela mesma ruminação eterna de Fernando em relação à discussão (inclusive, o doido de pedra já fez até um documentário sobre a segunda guerra mundial). Creio que a motivação do responsável pela metade do meu genótipo seja um tanto transcendental; talvez, tenha um tropismo repetitivo pela questão do Mal. Minha motivação, muitas vezes, além de ética, é política — como seria uma esquerda pós-totalitária? Talvez, a de Fernando passe, também, por esse problema político. De todo modo, lemos tanto sobre o assunto que, invariavelmente, temos pouco tempo para debater. Além do mais, a conversa tem ruído.

_Tenho um belo nariz – diz Fernando.

Não adianta conversar sério sobre totalitarismo, pois sempre aparece com esse papo. Isso me irrita.

_Pela envergadura, deve ser mouro.
_Melhor do que ter um nariz esparramado de um sarraceno.
_Não, na verdade, sou um italiano.
_De descendência sarracena, certamente.
_E a tataravó de tua tataravó concedia livremente para os mouros na Espanha. A vaca dos Navarro.
_Pior foi o tataravô de teu tataravô, a mocinha Perruso dos sarracenos.
_Coisete!
_Sarna!

A discussão, como vemos, foge do tema, já que temos sempre contas a ajustar.

Atualmente, leio um romance de Vassili Grossman: Vie et destin, escrito nos anos 1960, em plena URSS. É pauleira. Você lê, baixa a cabeça; lê, baixa a cabeça. O livro desmonta Stalingrado; logo, Stalingrado, rapaz. O romance seria a segunda parte de outro chamado “Pour une juste cause”, de 1952.

(Li nalgum lugar que “Vie et destin” seria traduzido para o brasileiro)

Mas quem é o cabra?

Sua família é de origem judaica. Apesar da descendência, Grossman não é crente nem fala idish. Na verdade, é um soviético, isto é, um estalinista. Produz realismo socialista e é um escritor menor.

Inicialmente, estuda em Kiev, depois, em Moscou, e se forma como engenheiro químico. Casa e pede divórcio, em 1932. Recebe o apadrinhamento de Gorki e abandona a carreira de engenheiro, assumindo a de escritor. Talvez, por causa do apadrinhamento, sobrevive aos acasos macabros da política soviética dos anos trinta, quando todos, stalinistas ou não, podiam ser acusados de complô contra o regime.

Assim que os nazistas invadem a URSS, Grossman entra como voluntário, combatendo no front, e vira jornalista do exército vermelho. Os massacres dos judeus na Ucrânia causam uma profunda nódoa na sua alma. Começa a coletar dados sobre a Shoa. Participa da batalha de Stalingrado (a maior batalha de todos os tempos). Seu testemunho, como jornalista, transformam-no em herói nacional (talvez, por isso, tenha sido poupado dos posteriores expurgos do regime soviético). Segue o exército vermelho na ofensiva contra a Alemanha. É o primeiro homem a escrever sobre os campos de extermínio, ao entrar em Treblinka em julho de 44. Seu escrito “O Inferno de Treblinka” (Треблинский ад) é um testemunho que ficará como memória da capacidade humana de resistir a tragédias. Logo após, descobre que sua mãe fora morta nas primeiras semanas da invasão nazista na Ucrânia, assassinada em Berditchev, ela e alguns milhares de judeus soviéticos.

Retornando da guerra, Grossman volta “judeu”, horrorizado com o Holocausto, mas também com o tratamento dado às minorias étnicas pelos estalinistas. Começa a escrever textos críticos ao regime soviético; por isso, passa a ser hostilizado pela impressa oficial. A face antissemita do estalinismo fica clara durante a repressão ao dito “complô das batas brancas”, no qual foram acusados vários médicos soviéticos, quase todos judeus, que teriam assassinado dirigentes da cúpula do regime.

Em 1962, Grossman envia Vie et Destin à revista Znamia. Vadim Kojevnikov, o editor, percebeu logo que estava diante de uma bomba. Num regime totalitário, diante de uma situação de tal monta, o editor só tinha uma opção: lavar as mãos, evitando qualquer contaminação contra-revolucionária. Assim, enviou a obra para o famoso bairro Loubianka, onde estava a sede da KGB. Mas não se pode lavar as mãos, numa ditadura, sem graves consequencias, pois o efeito é o mesmo da delação; logo, a delação, esse mecanismo implacável, desconstruído peça por peça pelo próprio Grossman. E foram essas mãos lavadas que produziram a cena cotidiana do totalitarismo: dois agentes do KGB apreendendo todo o material relacionado à feitura de Vie et Destin (cópias do livro e mesmo os rascunhos). Grossman não foi preso, e nem precisava, pois o golpe foi duro demais: morreria de câncer um ano depois. Era um sobrevivente, virou um espírito livre, mas não resistiu, no fundo, à apreensão da obra de sua vida. Foi degolado, como confessaria a um amigo. Há uma ironia no fim de sua resistência: sobrevive ao estalinismo, mas não ao degelo de Kruschev.

Confiscaram um romance. Medo de um romance? Há uma diferença, aqui: sua obra foi confiscada e não apenas censurada. A diferença diz muito. O confisco impede as mil formas de enganar a censura. Um Pasternak (Doutor Jivago), por exemplo, tinha sido censurado e não confiscado. A censura não impediu a publicação do livro noutros lugares. Ela não elimina a obra, apenas a cala, muitas vezes provisoriamente. O confisco pode eliminar a obra e substituí-la pelo esquecimento. É mais grave. É difícil contorná-lo. Um exemplo é outro confisco famoso: Soljenítsin (Arquipélago Goulag), em 1973. Mas entendo o medo do Estado em relação ao Arquipélago: o romance é, na verdade, uma investigação literária, apresentando personagens reais, revelando nomes de vítimas e de carrascos. O romance de Soljenítsin é uma exposição. Sua ficção subordina-se ao real.

O romance de Grossman é uma ficção, mostrando raramente personagens reais. Ficções não derrubam regimes; no máximo, incomodam certo status quo. Dante não balançou, com seus poemas, o Papa, nem os Gibelinos, nem os Guelfos. Zola desestabilizou o Estado francês com o “Eu acuso” e não com seus romances. Ao confiscá-la, o Estado soviético colocou a obra literária de Grossman no mesmo nível dos segredos de Estado (o máximo de realidade de um regime totalitário). No totalitarismo, a realidade não pode revelar a verdade, donde a necessidade de se fazer da primeira uma ficção e da segunda, uma mentira. A censura e o confisco de uma obra são a suprema “homenagem” do Estado Absoluto.

Por que o medo? Porque a mística de Stalingrado poupa o regime soviético. Naquela batalha, estava em jogo a liberdade da humanidade. E o regime estava lá numa irmandade com o povo, lutando contra um inimigo comum. Qual é o significado de Stalingrado para Grossman? Continua apoteótico, mas revela uma tragédia: significa o encontro militar de dois monstros: o nazismo e o comunismo totalitário. São siameses, embora fratricidas. Entre as duas gigantescas pinças, está o povo – lutando pela liberdade? Sim, mas também pela sua sobrevivência. A tragédia do povo é a significação de Stalingrado: luta-se pela liberdade e pela vida, espremido entre duas encarnações da escravidão e da morte. Qual liberdade, afinal de contas? Não é a do soldado, nem da pessoa comum, mas é a do humano, abstração do Outro, que está lá como fantasma nas ruas destruídas, como potência do horror e dos escombros.

Não há evasão possível em Stalingrado.

No romance, aparece a relação louca entre Estado e indivíduo. A individualidade tem a leveza e a fragilidade da pluma. O Estado é uma máquina de moer gente. Talvez, a única vantagem da pessoa, em relação ao Estado, seja sua consciência absoluta de que vai morrer. A ditadura implacável não sabe que desaparecerá num dia prosaico ou glorioso. Pensa que é eterna. Não há vida na eternidade, muito menos esperança, essa mãe do desespero de morrer. Na luta pela sobrevivência, as pessoas, mesmo sem querer, preservam alguma esperança. A vida continua, justamente, nos gestos imperceptíveis que ocorrem no cotidiano da guerra. São atitudes que sustentam as pequenas bases da moral humana – a mais simples de todas: a bondade. Em Stalingrado, a sobrevivência amalgama solidariedade e bondade. Sobre-viver, nessa condição impossível, é um ato de heroísmo. E, como tal, é fazer o básico da resistência: ajudar os outros.

Entende-se, agora, o medo do regime soviético. Grossman produziu, no romance sobre Stalingrado, uma hipótese filosófica sobre a encarnação do Mal. Até então, ninguém tinha esfregado uma metafísica do Mal na cara da Besta, e de dentro do seu próprio ventre; além do mais, utilizando a mãe de todas as batalhas.

O que é uma metafísica do Mal encarnada num romance? Uma tragédia moderna.

(…)

Ainda Grossman, até como aperitivo de “Vie et destin”, transcrevo algumas observações feitas no seu  livro “Um escritor na guerra”:

“2 de maio.O dia da capitulação de Berlim. É difícil descrevê-lo. Uma monstruosa concentração, impressões. Fogo e incêndios, fumaça, fumaça, fumaça. [….] Este dia nublado, frio e chuvoso é sem dúvida o dia da ruína da Alemanha.

[…] Corpos esmagados e amassados como tubos.

[…]O inimigo ofereceu sua rendição durante a noite, pelo rádio. O general, comandante da guarnição (Helmuth Weidling) deu a ordem.” Soldados! “Hitler, a quem vocês deram seu juramento, cometeu suicídio.”

[…] Testemunhei os últimos disparos em Berlim. Grupos da SS em um prédio às margens do Spree, não muito longe do Reichstag, recusaram-se a se render.

Reichstag. Alto, poderoso. Soldados estão fazendo fogo no salão.[…]

Pessoas dizem que ele (Goebbels) deu ordens para envenenar sua família e se matou. Ontem ele se matou com um tiro. Seu corpo pequeno, queimado, está estendido aqui também – a perna artificial, gravata branca. […]

O portão de Brandenburgo[…] No espaço( do arco), como em uma moldura, pode-se ver o impressionante panorama de Berlim em chamas. Até mesmo eu nunca vi uma imagem dessas, embora eu tenha visto milhares de incêndios. […]

Foi na Alemanha, particularmente aqui em Berlim, que nossos soldados realmente começaram a se perguntar por que os alemães nos atacaram tão repentinamente. Por que os alemães precisavam dessa guerra terrível e injusta? Milhões dos nossos homens viram agora as ricas fazendas do leste da Prússia, agricultura altamente organizada, os galpões de concreto para os animais, salas espaçosas, tapetes, armários cheios de roupa.

Milhões dos nossos soldados viram estradas bem construídas ligando uma vila a outra e as auto-estradas alemãs […] Nossos soldados viram nos subúrbios as casas de dois andares, com eletricidade, gás, banheiros e jardins belamente cultivados. Nossa gente viu os palacetes da rica burguesia de Berlim, o luxo inacreditável de castelos, propriedades e mansões. E milhares de soldados repetem essas perguntas com raiva quando olham a seu redor na Alemanha- “Mas por que vieram atrás de nós? O que eles queriam?”

Acho impressionante essa pergunta: o que eles queriam?


DimasLins
  1. “…E milhares de soldados repetem essas perguntas com raiva quando olham a seu redor na Alemanha- “Mas por que vieram atrás de nós? O que eles queriam?…”

    No final isso ficou pulando feito um disco arranhado no oco das consciências. Pra sempre. Gostei da resenha, livro perfeito pra bi-doentes doidos por 2ª Guerra.

  2. Justo, no oco das consciências. Repetindo, repetindo…

    Os soldados tinham direito à raiva; nós, à perplexidade.

    A pergunta, diante do Mal — a única possível, que não adiantará muito, mas pode ser dita com raiva ou como última ironia –, é “afinal, o que vc quer de mim?”

  3. Excelente resenha.

    Existe uma tese de que essa “conspiração das batas brancas” fora vista pelo pessoal do politburo como o prenúncio de uma nova sessão de expurgos, com suas denúncias, prisões, julgamentos sumários seguidos de execuções, etc das principais lideranças do governo. Assim, membros do politburo providenciaram que Stalin fosse vítima do derrame que o matou.

    • Li no “Stalin, a corte do czar vermelho” que o cabra ficou definhando um tampão, já com o derrame instalado, no quarto, sem ter ajuda, pois os guardas, mesmo achando estranho a demora de Stalin, estavam com medo de incomodá-lo.

      • Exato, essa é a história que rola. Os guardas viram ele estirado no chão, algumas vezes com um braço erguido, talvez pedindo ajuda, mas se borraram de medo de entrar. O que é compreensível, pois o sujeito se comportava que nem Rei mau de conto de fada, por qualquer coisa mandava cortar a cabeça. Vai que você entra ali, todo prestativo para socorrer o tirano e ele diz que você acaba e interromper sua sessão de meditação? Como é que fica?

      • Incomodar Stalin era um grave ato contra-revolucionário.

        Perrusiev foi inventar de rir diante de um peido stalinista — morreu congelado num gulag.

  4. Em Stalingrado, oficiais soviéticos graduados, por vezes até generais, se postavam em cima de tanques, de fuzil na mão e atiravam nos próprios soldados, se tentassem fugir da batalha.

  5. bela resenha!

    Deu vontade de ler tb o livro. E “bata branca”, taí uma boa tradução para l’affair des blouses blanches

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