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Aborto é cadeia

5 comentários

A vida não pertence ao filósofo

Comento abaixo um artigo de Luiz Felipe Pondé, da Folha, sobre o aborto. Pondé é um dos novos articulistas contratados pela Folha. Filósofo conservador, acha Ratzinger um baita intelectual. Discute sobre o assunto com a inquisição embaixo do braço.

Meus comentários estão em verde. Lá vai:

Vai encarar?

SOU CONTRA o aborto. Não preciso de religião para viver, não acredito em Papai Noel, sou da elite intelectual, sou PhD, pós-doc., falo línguas estrangeiras, escrevo livros “cabeça” e não tenho medo de cara feia.

Não sei como é o ambiente intelectual em São Paulo. Pelo visto, deve ser sufocante. O filósofo já começa botando pra quebrar. Vai encarar? E tome amostração. Já começa o artigo bebendo do cálice da luxúria intelectual: a vaidade. Parece dizer: “olhem o mensageiro, para mim, porra, só para mim, e não para a mensagem — vão encarar?”

É interessante o pano de fundo e a mensagem para o leitor: “sou um intelectual, e tampa de Crush, ainda por cima, mas sou contra o aborto; sim, isso é possível! Um intelectual pode ser contra o aborto, inclusive um da minha envergadura”. Há uma informação subreptícia, aqui: os intelectuais defendem o aborto e os ignorantes são contra. Não sabia disso — interessante, né?! Lanço a hipótese de que, em Sampa, os intelectuais são abortistas. Pelo raciocínio, a intelligentsia paulistana é assassina de blástulas e mórulas.

Fiquei na dúvida quanto a falar “línguas estrangeiras”. Significa que o filósofo, além da titulação, é possuído por demônios?

Prefiro pensar que a vida pertence a Deus. Já vejo a baba escorrer pelo canto da boca do “habitué” de jantares inteligentes, mas detenha seu “apetite” porque não sou uma presa fácil.

O filósofo não precisa de religião para viver, mas afirma que a vida pertence a um deus. Afirmação forte para quem deus não paga salário. E qual deus, afinal de contas? Deduzo que seja o deus cristãoExiste algum deus que à vida não pertence?

Sua crítica aos jantares inteligentes é correta. Não existe nada mais insuportável do que um jantar inteligente, principalmente com pessoas burras. Não é a primeira vez que o filósofo, nos seus artigos, fala desse ambiente inteligente. Ambiente de esquerda, certamente. Deve frequentá-lo e conhecê-lo. Não deve ser fácil. É de perder o apetite; afinal, toda esquerda é totalitária.

Lembre-se: não sou um beato bobo e o niilismo é meu irmão gêmeo. Temo que você seja mais beato do que eu. Mas não se deve discutir teologia em jantares inteligentes, seria como jogar pérolas aos porcos.

Descobrimos que o filósofo é um beato, embora não seja bobo. É um beato que não precisa da religião para viver; afinal, é filósofo. Diz que a vida pertence a um deus, mas que o niilismo é seu irmão gêmeo. Provavelmente, acha que jogar a vida nas mãos divinas é o cúmulo do niilismo. Há boatos de que deixar a vida na mão de um deus é uma temeridade, pior do que defender o aborto. Nunca se sabe o que o deus fará com nossas vidas, pois seus desígnios são inescrutáveis. O filósofo é, realmente, o espelho de seu irmão.

Mas acertou, novamente. Não se deve discutir teologia em jantares inteligentes. Convenhamos, deve ser um saco. Talvez, como pilhéria, sei lá, afinal, a teologia é muito engraçada. Imaginem uma filosofia toda montada na existência de um único deus — não é engraçado?

Esse mesmo “habitué” que grita a favor do aborto chora por foquinhas fofinhas, estranha inversão…

Defender foquinhas fofinhas é de lascar. O que acontece nos jantares inteligentes em Sampa? Defendem foquinhas fofinhas?!

O filósofo faz a frase, mas não discute sua premissa: como o aborto é um assassinato, defender foquinhas fofinhas é um absurdo. É preferir a foquinha fofinha a uma pessoa. Talvez, entre os inteligentes do jantar, há quem não considere uma mórula ou uma blástula uma pessoa. São inteligentes, mas amantes da crueldade.

Não preciso de argumentos teológicos para ser contra o aborto. Sou contra o aborto porque acho que o feto é uma criança. A prova de que meu argumento é sólido é que os que são a favor do aborto trabalham duro para desumanizar o feto humano e fazer com que não o vejamos como bebês. E não quero uma definição “científica” do início da vida porque, assim que a tivermos, compraremos cremes antirrugas “babyskin” com cartão Visa.

Fiquei na dúvida. O filósofo fala de feto e não de embrião. Chama-se feto o desenvolvimento intra-uterino que tem início após oito semanas de vida embrionária, quando já se podem ser observados braços, pernas, olhos, nariz e boca. O feto é uma criança, segundo o filósofo — um bebê. E o embrião? O filósofo é a favor de aborto nesse estágio?

Tendo como premissa, colocada como indiscutível, que o feto é um bebê, todo indivíduo que defende o aborto trabalha duro para desumanizá-lo. A desumanização é uma crueldade, sem dúvida. É interessante ver um filósofo, que tem como irmão gêmeo o niilismo, defender a humanização do feto.

Ao mesmo tempo, o filósofo descarta uma definição científica sobre o início da vida. O filósofo é, provavelmente, contra a captura da vida pela ciência; afinal a vida é um valor transcendental que pertence a deus. E, sem deus, apenas com a ciência, podemos tudo, inclusive transformar carne de feto em creme. Pensei que defender a ciência acima de qualquer coisa fosse niilismo; mas, ele não faz essa defesa. Talvez, o filósofo diga-se irmão gêmeo do niilismo para se amostrar nos jantares inteligentes. É “in” ser reflexo do niilismo nos jantares inteligentes.

Contudo, ele está certo num ponto: não existe uma definição científica sobre o início da vida. Discutir o início da vida é discutir seu sentido. A ciência não oferece sentido à vida; longe disso, não é sua pretensão, nem está em seu poder. Discutir o início da vida ou seu sentido é uma discussão baseada em valores. E vivemos num “politeísmo de valores” e não na Idade Média, tão valorizada, em outros textos, por Pondé. E, numa sociedade onde reina o pluralismo de valores, existem várias concepções sobre o… sentido da vida. Onde está a verdade nessa situação? Ela não está, pois não é o valor mais indicado nesse contexto. Talvez, a tolerância e sua consequência ética, a laicidade, sejam os valores mais interessantes para enfrentar o grande dilema do aborto.

Agora o tema é o “retorno” do aborto. O aborto entrou na moda neste segundo turno. É claro que esse retorno é retórico. Desde Platão, sabe-se que a democracia é um regime para sofistas e retóricos.

Um tema recorrente de Pondé: a desqualificação da democracia. Faz parte de uma longa linhagem de pensamento reacionário — outro representante no Brasil é Olavo de Carvalho. Nesse momento, Pondé é, enfim, o irmão gêmeo do niilismo. Não faz uma crítica democrática à democracia contemporânea, e sim uma de negação e de aniquilamento. Depois de tudo, cita Churchill, para disfarçar.

Pondé desconfia da democracia. Por isso, talvez, em relação ao aborto, sempre toma como ponto de partida o valor da vida e não o da liberdade. Mas o problema é que o aborto põe em conflito irremediável justamente esses dois valores: vida e liberdade.

A relação entre democracia e marketing já era sabida como essencial desde a Grécia Antiga. Por que o espanto quando os candidatos, sabendo que grande parte da população brasileira é contra o aborto (talvez por razões religiosas vagas, talvez por “afeto moral” vago), se lançam numa batalha pelo espólio do “direito à vida”?

Concordo. Serra e Dilma estão sendo hipócritas. Mas a hipocrisia não é intrínseca à democracia; ao contrário, a hipocrisia a rói por dentro. A denúncia da hipocrisia estimula a democratização. Pondé, na verdade, insinua uma identificação entre democracia, hipocrisia e marketing.

O marketing é uma invenção contemporânea, mas a necessidade dele é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria, desde a mais tenra assembleia de neandertais.

Será sempre curioso dizer a Fernando que o marketing é uma invenção neandertal. De todo modo, é bem vago dizer que a necessidade do marketing “é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria”. Gera um conceito bem largo de marketing.

A democracia é, na sua face sombria, um regime da mentira de massa. Quando essa mentira de massa é contra nós, reclamamos.

Quando a democracia torna-se um “regime da mentira de massa”, continua democracia? Não seria justamente o totalitarismo, na sua face transparente, um “regime da mentira de massa”? Se a hipocrisia é intrínseca à democracia, totalitarismo também não o seria?  O medo de que a democracia seja o embrião do totalitarismo é um medo das extremas, estando presente tanto na extrema-direita, como na extrema-esquerda. Nos extremos, é muito sedutora  a crítica catastrofista que procura demonstrar que, aquilo que parecia ser uma emancipação (a democracia, por exemplo), escondia no fundo uma nova forma de tirania, um totalitarismo. Aliás, para muitos neocons, qualquer  processo de democratização, tipo democracia participativa, desembocaria necessariamente numa sociedade totalitária.

Não há nada de evidentemente justo em termos morais ou de moralmente “avançado” na legalização do aborto. O que há de evidente em termos morais é a desumanização do feto como processo retórico (exemplo: “Feto não é gente”) e a defesa de uma forma avançada de “safe sex”: “Quero transar com a “reserva de comportamento legal” a meu favor. Se algo der errado, lavo”.

O filósofo não fala da descriminalização do aborto e sim da sua legalização. Da sua perspectiva, seriam a mesma coisa. Seu argumento moral não permite discussão, pois inquestionável e evidente por si mesmo. O feto é uma pessoa, o feto é humano, o feto é gente — e o embrião, a mórula e a blástula? São afirmações baseadas em valores — nem toda religião pensa assim, nem todo mundo entende dessa forma.

E, claro, “safe sex” é papo de mulher cabeça em jantar com pessoas inteligentes. No fundo, engravidar é um destino, afinal, a vida a deus pertence. A vida não pode ser uma escolha.

Pondé quis, incialmente, desvencilhar-se da religião. Os argumentos teológicos, como sabemos, não vogam nos jantares inteligentes. Mas por que diabos tenho a nítida impressão de que seus argumentos têm um fundo religioso? “Feto não é gente?” não parece com “feto tem uma alma”?

E não me venham com “questão de saúde pública”. Esgoto é questão de saúde pública. A defesa do aborto nessas bases é apenas porque o aborto legal é mais barato. Resumindo: “Safe sex, cheap babies”. E não me digam que o feto “é da mulher”. O feto “é dele mesmo”. E não me digam que “todo o mundo avançado já legalizou o aborto”, porque esse argumento só serve para quem “ama a moda” e teme a solidão.

Aqui, o cabra arretou-se e se tornou vulgar. Um milhão e tanto de abortos anuais tornaram-se… esgoto. Um filósofo, que não precisa de religião para viver, precisa responder, infelizmente, à singela questão: o que fazer com esse número astronômico de abortos? Jogar no esgoto? Nenhuma novidade, pois é o que fazem nos abortos clandestinos. A visão de Pondé sobre saúde pública restringe-se ao lixo de sua casa!

(curioso, nos jantares inteligentes do filósofo, tem gente que defende o aborto por meio de argumentos econômicos. Serão tucanos? Gente inteligente da PUC?)

O feto não é da mulher. É dele mesmo. Como o feto se dispõe a si mesmo? Ah, claro, feto é pessoa (por que não admite logo que feto tem uma alma, já que a vida pertence a deus?). Vai, rapaz, diz logo o cerne de seu argumento.

Pondé confunde de propósito três realidades bem diferentes: embrião, feto e pessoa. Não existe pessoa embrionária, nem pessoa fetal. O que temos, na verdade, é embrião de pessoa e feto de pessoa. Há dignidade moral tanto no embrião, como no feto, mas não teriam um direito moral e legal do mesmo naipe que a dignidade de uma pessoa já nascida — porque a pessoa é uma pessoa e não um embrião ou um feto. Foi a percepção de que o feto não é uma pessoa, inclusive, que balizou a decisão Roe vs. Wade, da Suprema Corte dos EUA, declarando inconstitucionais, em 1973, muitas leis que proibiam o aborto.

A moda seria a laicidade? Por que as sociedades laicas descriminalizaram e legalizaram o aborto? Certamente, porque temem a solidão.

Depois de jantares inteligentes, o que mais detesto é mistura de judaísmo e cristianismo travestido de irmão gêmeo do niilismo.

Não pretendo desqualificar a angústia de quem vive esse drama. Longe de mim! Mas em vez de gastarmos tanta “energia social” na defesa do aborto, por que não usarmos essa energia para recebermos essas crianças indesejadas? Vem-me à mente dois exemplos, aparentemente de campos “opostos”. Deveríamos aprender com a Igreja Católica e seu esforço de criar redes de recepção dessas crianças, aparando as mães em agonia e seus futuros filhos à beira da morte. Por outro lado, são tantos os casais gays masculinos (os femininos sofrem menos porque dispõem de “útero próprio”) que querem adotar crianças e continuamos a julgá-los, equivocadamente, penso eu, incapazes do exercício do amor familiar.

Claro, o filósofo não pretende desqualificar a mulher que aborta. Logo abaixo, diz que aborto é homicídio, logo, qualificou a mulher que aborta como criminosa. A mulher que aborta… Por que tantas mulheres, independentemente de suas crenças religiosas, abortam? Por que Pondé não fica perplexo com essa pergunta? Ora, porque não está nem aí com as abortistas criminosas. Uma questão desse tipo seria desqualificada como uma pergunta de “saúde pública”, logo, de esgoto.

Mas Pondé avança, é inegável. Defende o casamento gay e a adoção de crianças por parte de casais homossexuais masculinos e femininos. O que salva o neocon é a incoerência — ufa!

Sou contra a legalização do aborto porque o considero um homicídio. Muita gente não entende essa implicação lógica quando supõe que seriam razoáveis argumentos como: “A legalização do aborto permite a escolha livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz”.

Agora, substitua a palavra “aborto” pela palavra “homicídio”, como fica o argumento? Fica assim: “A legalização do homicídio permite a escolha livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz”.

Pronto, enfim, Pondé disse a que veio. Aborto é crime. Sendo assim, gostaria de escutar as consequências do argumento: a prisão de um milhão e tanto de mulheres que abortam todo ano. E de seus cúmplices criminosos: médicos, enfermeiras, padres, freiras, namorados, maridos, amantes, pais, irmãos e irmãs, amigas e amigos, e o papagaio de casa, o pior de todos — todos deverão ser presos. Cadê a ICR defendendo um PAC para a construção de milhares de presídios no Brasil? Pois aborto não é uma questão de esgoto e sim de cadeia.

Quem é a favor do aborto não o é por razões “técnicas”, mas por “gosto” ideológico.

Sim, por gosto ideológico. Mas qual é a ideologia do filósofo? Existem várias ideologias numa sociedade aberta, pluralista e democrática. Existem várias posições sobre o sentido da vida nessa sociedade. Qual é a posição verdadeira? Aliás, quem decide sobre a verdade dos valores? A Igreja? Já foi o tempo, felizmente. Numa sociedade laica, ninguém decide sobre a verdade dos valores. O Estado laico não decide sobre o sentido da vida, e sim garante a tolerância e a convivência entre as pessoas e suas visões de mundo. O sentido da vida é uma questão privada, quanto à sua verdade. Por isso, a descriminalização do aborto é uma óbvia questão laica (não significa que não existam regras e limites, claro). Criminalizar o aborto é uma interferência do Estado numa questão de valor: o sentido da vida. É criminalizar pessoas e suas visões de mundo.

Sim, posso afirmar, agora, diante de convivas inteligentes, o óbvio: o aborto, numa sociedade laica, é uma escolha. Uma moda, segundo o filósofo.

Sementeiras
  1. Artur,

    Senti-me um pouco por baixo. Nunca, em toda a minha vida, fui convidado para um jantar inteligente. Nem sabia que lá se discutiam essas coisas.

    No mais, o nome do seu artigo deveria ser “Descontruindo Pondé”. Lembrou o texto do NPTO sobre um dos artigos de Óia (não é assim que lugar chamou a Veja?).

    Dimas Lins

  2. Gosto de cafés inteligentes. Almoço é muito burro, cá entre nós. Eu não janto 🙂

  3. Já decconfiava do jornaleco. Não serve nem pra limpar bunda de palafiteiro. Idem pros colaboradores. Nem todos, é verdade! Pondé, na verdade, surtou. Diagnóstico certeiro do Dr. Quim Júnior.
    Com minha bênção a todos os fetos que falam línguas estrangeiras e que estão na paz do Senhor!

    a) Rev. Tsé-Tsé.

  4. O cara tem a profundidade de um prato raso. Filósofo é o carai.

    Curso de filosofia forma professor de filosofia, assim como o de letras forma professor de literatura e similares,e não, escritor.

    A palavra filosófo é pessimamente empregada hoje em dia.

  5. Já que o debate aqui também trata de filósofos, intelectuais e paulistas, vai uma verídica do nosso Filósofo mor.

    Um reporter de SP perguntou: “Tiririca, por que você não foi candidato pelo Ceará?”
    “Porque lá não tem abestado”, respondeu na lata.

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