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XLIX – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

1 comentário

Sine diem tesis maculata (a Teologia das Palafitas surgiu aqui)

49º CAPÍTULO

Passei uma semana chateado com o Cardeal Ferrughi por causa da guerra idiota dos anjos.

Improvável! Mas, nunca se sabe.

Além disso, sentia-me solitário com a fuga da irmãzinha do Santo Sepulcro com o sem vergonha do bispo de Óstia. Afinal de contas, não é brincadeira suportar um frio desgraçado sem o maravilhoso calor feminino.

Contudo, tinha porque tinha de terminar meu projeto de tese e apressar o mais rápido possível meus estudos na Gregoriana. Sem os títulos de Doutor e de Reverendo não poderia voltar para minha terra, decepcionando o Monsenhor Braguinha, meu pai, e meus liderados.

Trabalhei duro por mais de um mês e elaborei um trabalho com cerca de cinquenta páginas que, segundo pensava, revolucionaria a Teologia Ocidental e botaria pra trás, de uma vez por todas, a falsa hegemonia da ICR, totalmente baseada em premissas falsas para não dizer, como o pastor da Assembleia, em fraudes sobre fraudes teológicas e históricas.

Superstições. Nada mais!

Depois de muito suor e sangue, bem como de mil aporrinhações, entreguei o calhamaço ao Cardeal e pude, enfim, dormir em paz.

Não de todo sozinho, é verdade. Para consolo de minha solidão, Lippi havia me indicado como confessor do Convento do Sagrado Dedo de São Tomé, bem perto do Forum Romano, para o qual trabalhava três dias por semana.

Não que eu quisesse! Mas o olhar foi tão doce e profundo que não resisti. Convidei a irmãzinha Filipina das Sete Chagas da Cruz para me ajudar nas pesquisas na Biblioteca Vaticana, dirigida pelo Monsenhor Lippi.

E bote chagas nisso tudo! Lindíssimas! Suaves curvas ladeando duas pequenas e charmosas colinas. Maçãs repartidas ao meio, talvez lembrança de um paraíso perdido. Exuberante bosque onde a felicidade se escondia à espera do salvador das palafitas.

Tudo aconteceu num dia de frio ensolarado. Breve caminhada, aproveitando a beleza da própria alma italiana. Subimos ao apartamento do meu padrinho Lippi para tirar uma siesta, em homenagem ao final de meu trabalho. Contritamente, rezamos juntos um terço de suspiros cujos detalhes não posso revelar.

Finalmente, o Cardeal me chamou ao seu gabinete e fui vê-lo munido dos manuais teológicos de praxe e de uma boa documentação adicional.

Ave Cardinale! Morituri te salutent! ─ Fui logo dizendo, sabendo muito bem do esporro que levaria. Na verdade, escrevi o projeto de tese apenas para encher o saco do meu Orientador. Em represália a tal batalha dos anjos que tanto me atormentara.

─ Que tristeza, Tsé! Tanta esperança num jovem padre inteligente e erudito! E tão debochado! Nossa Senhora dos Partiggiani! Que desperdício!

─ Não sei do que o senhor está falando, irmão Cardeal. ─ Respondi na maior ingenuidade do mundo.

─ Não, não sabe! Por mera curiosidade, pedi ao Santo Padre, meu amigo e colega de seminário, para dar uma lidinha. Erudito de primeira! Por isso, demorei em lhe chamar, Tsé.

─ Quanta honra, Cardeal! ─ Respondi apreensivo.

─ É! Ele gostou muito. Com tantas heresias, já queria botar o Santo Ofício em cima de você.

─ Vige, Nossa Senhora do Manguezal! ─ Exclamei apavorado. Afinal de contas, as fogueiras não existiam mais publicamente. Mas diziam que havia ainda muita lenha nos subterrâneos do Vaticano à espera dos infiéis. Mantive a calma, porém.

─ Precipitação do Santo Padre. Não escrevi nada demais.

─ Claro que não, Tsé! Escreveu sobre verdades absolutas e confiáveis, embora inexistentes e blasfemas. O Universo foi criado pelos anjos. Quisera eu! Substituiu a Santíssima Trindade pelo que você chama de “Plêiade Sagrada” com sete arcanjos, ajudados por todos os santos históricos da ICR. Chamou a Virgem Maria de “Mãe de Santo” e protetora dos preguiçosos. Nosso Senhor virou “Genésio dos Últimos Dias”. Os santos apóstolos tornaram-se coroinhas da Nova Jerusalém. São José, pai de Jesus, transformou-se no porteiro e servente do condomínio das “moradas celestes”, uma espécie de inspetor de quarteirão. A Bíblia e o Catecismo não passariam de simples “Livro de Ocorrências” de um cortiço. Em suma, e para completar o desastre, você inventou uma tal de “Teologia das Palafitas”. Inexistente, também!

─ Como inexistente, irmão Cardeal? Sou líder democraticamente eleito das Palafitas de Bel-O-Kan. ─ Exclamei, tentando driblar as acusações do meu Orientador.

─ Não duvido! Visitei-as quando fui lá por sua terra desmascarar a fraude do célebre “Milagre do Padre Cícero”. Conheci, então, o Monsenhor Braguinha, seu pai, homem justo, sério, erudito e representante de nossa Sociedade Secreta dos Sacerdotes Ateus (a SBV). Já com o filho, não posso dizer a mesma coisa. Que vergonha, Padre Tsé! Que “Teologia das Palafitas” é essa? Coisa de comunista, segundo a CIA! ─ Disse Ferrughi, chamando-me de irresponsável.

─ Não sei por que tanto espanto, irmão Cardeal. Afinal de contas, qualquer teologia vale a pena, isto é, não vale absolutamente nada. Salvo engano, zero mais zero é igual a zero. ─ Respondi, ironicamente.

─ Mais respeito, Tsé! Quem poderia imaginar que a humanidade teria surgido de dentro de uma unha de velho lá do seu mangue? E que teólogo é esse tal de Chico Preá que, segundo você, seria o autor de tanta sandice junta? Teologia é lógica, Tsé! Nada mais do que Lógica! E, por favor, comporte-se, senão chamo o bispo da Baviera e mando prendê-lo.

─ Irmão Cardeal! Acredito na democracia e no direito de livre expressão. Desculpe, mas Teologia não tem nada a ver com Lógica. Trata-se de mero palpite, no mais das vezes, pantanoso, enfadonho e produto de “estados alterados de consciência”. Puro surto psicótico, na verdade. ─ Ainda tentei argumentar, apelando para o senso de humor do Cardeal de Bari.

─ Pois é, meu caro líder comunitário. Sua Teologia parece com a Teologia Verde dos membros da Assembleia lá do seu país. Acho que você só tem duas alternativas, Padre Tsé. Ou joga essa porcaria de projeto no lixo ou vai diretamente para o Santo Ofício. Aliás, o Monsenhor Lippi, seu padrinho, quer demiti-lo do cargo de Confessor de um desses conventos da vida. De pronto, não vai mais lhe emprestar o apartamento para nenhuma siesta sagrada.

─ Por amor dos santos pregos da Cruz! Desisto! Voltarei aos anjos e ao mistério medieval que os cerca. ─ Resolvi encerrar a entrevista. Não aguentaria a vida em Roma sem os carinhosos assovios da irmãzinha Filipina das sete Chagas da Cruz.

Com toda a Lógica possível. Se necessário!

Sementeiras
  1. Reverendo, impossível não ficar de bom humor depois da leitura de mais um capítulo de suas memórias.

    Bem que Marina podia dar uma lida pra destravar e apoiar Dilma.

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