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O tacape e a hipocrisia

1 comentário

Descobri, agora, que Christopher Hitchens vai morrer, pois está com um câncer avançado de esófago. Seu pai morreu do mesmo mal, com 79 anos. Hitchens tem 61 e não se cuidou. Não estava nem aí. Preferiu encher a cara e fumar o tempo todo. Mas não se faz de vítima. Não fará o último gesto cristão diante da morte, isto é, não se arrependerá. Virará pó, e  pronto. Sempre foi um ateu rodeado de crentes por todos os lados — tem minha simpatia.

Viveu e arriscou. Provavelmente, detestava o tédio, essa mania de ser capturado por uma série interminável de insignificâncias. Preferia viver um breve período no mais alto gozo do que passar uma longa existência impregnada de indolência — mais vale uma última cachaça do que uma vida por nada.

Gosto muito de sua prosa corrosiva e ferina. Ele sabe que as palavras podem causar tempestades. Usa-as como um martelo.

Como lembrança, publico abaixo um post que fiz sobre o dito-cujo. Faz tempo.

27/08/2007

Atualmente, meu livro de cabeceira (leitura breve, pois durmo, rapidamente, assim que me deito na cama) é “Amor, Pobreza e Guerra” do jornalista americano Christopher Hitchens. Ah, se tivéssemos um jornalismo desse naipe entre os jornalistas tupiniquins! Além de escrever muito bem e de mostrar uma verdadeira erudição, é uma martelada constante contra a hipocrisia. Sim, acho que é isso: seu alvo é a hipocrisia, tanto à esquerda, quanto à direita. Nesse sentido, guardando as proporções, lembra um George Orwell. Um exemplo dessa identidade é sua posição sobre o papel do jornalista crítico:

uma disposição à resistência, por menor que seja, contra a autoridade arbitrária ou a opinião da massa inconsciente, ou ainda uma emoção de reconhecimento ao deparar com alguma frase bem construída de um livre pensador.

A luta contra a hipocrisia, atualmente, é estratégica. Faz parte do desmonte dos discursos autoritários e totalitários. É fundamental para desmascarar microfascismos que ameaçam a democracia. Não é um combate propriamente ético, mas fundamentalmente político. Por isso, combater as imposturas, talvez, ajude a esclarecer a aparente contradição entre ética e política. Inclusive, no plano da ética política, desmascarar a hipocrisia diminuiria o abismo entre a responsabilidade e as convicções — abismo tão bem defendido por FHC, utilizando de forma hipócrita algumas análises de Weber.

Além do mais, o desmonte da hipocrisia acarreta alguns efeitos cognitivos: muitas vezes, é fundamental mostrar que o simples é o produto do complexo; outras vezes, o contrário é que é interessante: o fenômeno aparentemente complexo, na verdade, era pura complicação, isto é, as coisas são, vezes sem conta, simples e até banais. Por exemplo: Fidel é um ditador — uma frase tão simples, mas que só pode ser proferida após o desmonte da hipocrisia que a ignora solenemente.

Embora sua origem seja canhota, é difícil enquadrar Hitchens politicamente, pelo menos, nos esquemas toscos atuais que tentam delimitar o que seja, afinal de contas, esquerda e direita. Mas, depois do 11 de setembro, tornou-se um trânsfuga? Do tipo que, de Saulo a Paulo, trilhou o caminho do ópio até Damasco, feito Tio Rei (trotskista), Olavo de Carvalho (pecebão) e o paradigma de todos, Paulo Francis (trotskista — pelo menos, não se converteu à rezadeira geral)?! Stalin tinha razão, convenhamos, em desconfiar dos trotskistas. Como insistem em fazer omeletes sem quebrar os ovos, mudam constantemente de lado (hehe…).

(a direita brasileira é tão hipócrita, atualmente, que vive por meio de trânsfugas)

Enfim, Hitchens trânsfuga? Bem, creio que não, pelo menos quanto ao seu sectarismo religioso. Como o mesmo já afirmou, recentemente: “mesmo se eu acreditasse num redentor, não seria católico. Acho obsceno”.

Já sua fúria contra a esquerda americana, do tipo Chomsky, teve um fundamento simples, convenhamos: as posições hipócritas e doidivanas sobre o 11 de setembro. Chomsky quase diz: o imperialismo americano mereceu! A culpa, no fundo, é dos americanos e não dos terroristas. Ofereço, inclusive, um exemplo da terrinha para ilustrar a desmoralização da esquerda americana: um professor de esquerda, notório imbecil, saiu fantasiado de árabe no dia posterior à queda das Torres Gêmeas de Nova Yorque. Claro, a esquerda americana, que eu saiba, não fez a obscenidade de apoiar Bin Laden, como no exemplo tupiniquim citado, mas produziu uma série de tergiversações que, praticamente, desculpavam os terroristas.

Hitchens  não abandonou a esquerda; na verdade, apenas combateu mais uma hipocrisia. Seguindo nessa pegada, Hitchens desce, num dos artigos, o tacape na canhota estadunidense:

Um dos grandes problemas com a esquerda norte-americana, de fato da esquerda norte-americana, tem sido sua imagem e auto-imagem como alguma coisa demasiadamente solene, sisuda, herbívora, enfadonha, monocromática, honrada e chata.

Tirando o “herbívora” e o “honrada”, é a cara da esquerda brasileira. Na verdade, somos autofágicos e carnívoros — um esquerdista é 90% de água e o resto é de… carne — e tem o mensalão, né…

(o mensalão foi uma tática revolucionária de tomada do poder. Ao invés de assaltos a palácios ou de golpes políticos contra a burguesia, utilizou-se o que os conservadores mais gostam: dinheiro. Pena que se subestimou a voracidade de nossos representantes burgueses. O dinheiro, infelizmente, foi pouco. Petistas castristas não sabem mensurar o valor de um rebotalho do capital. Na próxima vez, proponho bilhões.)

Voltando ao livro, num outro artigo, “o diabo e madre Teresa”, Hitchens desce a tangapema em madre Teresa de Calcutá, afirmando que a beata gostava mais da pobreza do que dos pobres. Tal afirmação não me causou surpresa. Acrescentaria até que foi mania de vários santos esse esquecimento das pessoas “reais e vivas”, como dizia o marido de Jenny Von Westphalen. Muitos revolucionários, assim como os santos, são também desse jeito: adoram essa extravagância de personificar e adorar categorias sociais. Eu mesmo adorava a classe operária, sua missão histórica e sua objetividade revolucionária — a classe para si. Tinha uma dificuldade extrema em compreender os operários vivos e concretos, principalmente seus líderes, a classe em si. Por isso, passei a entender melhor a frase magistral de Proudhon, hoje um belo brasão anarquista: “depois dos opressores, o que mais odeio são os oprimidos”.

Mas, o mais acachapante foi sua crítica a Michael Moore e a seu filme “Fahrenheit 9/11 “: “Unfairenheit 9/11: as mentiras de Michael Moore”. Não sobra pedra sobre pedra, nem mesmo pequenos escombros:

Descrever esse filme como desonesto e demagógico seria quase elevar esses termos a um patamar de respeitabilidade. Descrever esse filme como lixo seria correr o risco de um discurso que nunca mais sairia do escatológico. Descrevê-lo como um exercício de fácil satisfação das massas seria óbvio demais. Fahrenheit 9/11 é um exercício sinistro de frivolidade moral cruelmente disfarçado de exercício de seriedade. É também um espetáculo de abjeta covardia política que se disfarça de demonstração de bravura ‘discordantes.

Mesmo que Hitchens esteja redondamente enganado, faz tempo que não leio uma análise tão corrosiva e implacável.

Pois é… a crítica é o tempo da razão ardente, parodiando Apolinaire.

DimasLins
  1. Lamentável.

    Conheço a reputação de Hitchens e li uns poucos e pequenos trechos de sua obra.

    Vou tratar de preencher essa lacuna.

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