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Plínio, pois é…
Gostei da defesa de Plínio de Arruda Sampaio feita por André Raboni no Acertos de Contas. Discordo muito dela, mas sai, pelo menos, da mesmice do atual debate eleitoral. E, convenhamos, essa mesmice não é nem debate, porque simplesmente não existe discusão de coisa alguma.
Minha razão dá gritos de cachorro atropelado, mandando-me votar contra a direita no segundo turno. Até aí tudo bem. Já no primeiro turno… Confesso minha dificuldade em votar em Dilma — não sou antigovernista, inclusive reconhecendo o valor do governo Lula, mas queria uma opção mais à esquerda — bem… er… também não sei lá o que seria uma “opção mais à esquerda”. Seviciar os banqueiros, por exemplo? Pode ser, afinal, ser de esquerda não é, justamente, não “saber qual é o crime maior, se é fundar um banco ou assaltá-lo”?
Claro, já disse aqui: voto útil na hora, caso surja a possibilidade de Serra ir ao segundo turno, mas com o crescimento de Dilma…
Marina ainda não me convenceu. Além do mais, sua frase a respeito do escândalo do sigilo fiscal, logo, seu apoio velado à tentativa de impugnação da candidatura de Dilma, revela que não compreende bem o que está em jogo : “se a Dilma faz isso agora, vai saber o que faria no governo”. Essa ilação é serrismo…
Não simpatizo com o PSOL, e as propostas da candidatura de Plínio ferem minha sensibilidade de ex-bolchevique. Não nego que minha autocomiseração tornou-me um bombeiro da revolução e um coveiro do socialismo. Sendo assim, suas propostas, do meu ponto de vista, parecem mais declarações de princípios, logo, sem tática, somente estratégia — “fins sem meios” foi e sempre será a doença infantil do esquerdismo. Cadê a adaptação dos princípios à análise concreta da situação concreta?
Ah, sim, os banqueiros — morte aos banqueiros! Pronto, o mantra compensa meu reformismo.
Mesmo assim, as declarações de Plínio são interessantes para marcar uma posição radical. A democracia brasileira não parece correr perigo, apesar do neoudenismo de Serra. Por que não um voto de princípio? Caso tenha um segundo turno, tudo se resolve com um voto útil. Além do mais, não nego minha imensa simpatia por esse senhor de tantas lutas e de tantos combates.
Assim, continuo pensando…
Lá vai, o artigo:
Plínio, uma candidatura propositiva
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Na última quinta-feira, Pierre Lucena publicou o post “Alguém conhece uma proposta de campanha? Umazinha só, please?“. Pois eu conheço não apenas uma, mas várias, e formam o corpo da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, que é, essencialmente, uma candidatura propositiva.
Muitas pessoas podem não levá-lo a sério, e achincalhar suas ideias socialistas. Mas além de ser um homem íntegro e coerente, sua campanha à presidência traz ao eleitorado brasileiro uma série de propostas, em diversas áreas, e traz um ganho incalculável à democracia brasileira, o que torna sua postulação muito interessante – ainda que não se concorde com suas ideias.
Infelizmente, o que tenho sentido nestas eleições é que uma parte significativa do próprio eleitorado não parece muito interessada em discutir propostas. Na internet, espaço onde tenho dedicado muitas horas de trabalho dos meus dias, o que tenho visto é uma verdadeira rinha de torcidas organizadas e pouquíssimo interesse em debater, com honestidade a profundidade, ideias.
O clima de polarização da campanha tem criado, mais ou menos, o seguinte ambiente: ou se é governista, e se vota em Dilma, ou se é opositor, e vota em Serra; ou, ainda, é-se insatisfeito com as práticas petistas e, numa espécie de estilo Pôncio Pilatos, vota-se em Marina com quem “lava as mãos” (sem galhofar, por evidente, com aqueles que votam na candidata por honesto apoio programático).
Mas, e onde se encaixa Plínio nessa coisa? …
Plínio é um candidato que me agrada bastante, e terá o meu voto – muito embora eu não nutra a maior das paixões pelo seu partido, o PSol. Sua plataforma foge de todo este joguete polarizado que está posto à sociedade. Neste sentido, a candidatura de Plínio cumpre um papel simbólico importante para a sociedade brasileira.
Partindo de uma proposta socialista, republicana e democrática, a candidatura combate a ignorância política em que chafurdou a eleição deste ano. Além disso, afasta a sombra lúgubre da americanização do nosso sistema político, onde dois partidos se alternam no poder, conservando uma estrutura binária cuja função é criar uma aparência de mudanças políticas no país.
Sua campanha tem apresentado propostas muito interessantes, e, mesmo com pouquíssimo espaço na mídia, tem conseguido fazer uma campanha de parcos recursos, mas utilizando de forma muito inteligente as ferramentas disponíveis na internet (sobretudo o Twitter, onde Plínio concede sistemáticas entrevistas, conversa quase que diariamente com as pessoas, de forma franca e objetiva, além de fazer transmissões ao vivo pelo twitcam, apresentando, desta forma, suas propostas, otimizando um instrumento de baixo custo e de razoável alcance).
Dá gosto de ver a campanha de Plínio. E dá vergonha observar a pobreza que se tornou o processo eleitoral brasileiro. Praticamente todas as questões têm sido tratadas de forma superficial, ou com tergiversações, pelas candidaturas mais bem colocadas nas pesquisas – até mesmo as questões mais urgentes, com a reforma política.
Com isso, quem perde é o país. Perde uma boa oportunidade de debater as grandes questões nacionais, deixando de lado o momento eleitoral do primeiro turno que deveria ser, basicamente, um período de amadurecimento das ideias. Mas não quero isentar o próprio eleitorado de culpa nesse cartório da polarização, que é acentuada pelos grandes veículos de comunicação.
Se candidatos como Plínio não ocupam grandes espaços na mídia – às vezes, nem os poucos espaços que lhe deveriam ser garantidos pela representação congressual de seu partido -, o eleitor poderia dedicar-se um pouquinho e ir atrás de informações (a internet ajuda muito para isso). Mas… Boa parte das pessoas está mesmo é se lixando pra tudo isso.
É bastante provável que muitas pessoas tenham medo da candidatura de Plínio (medo de uma “revolução socialista”, ou coisa que o valha). No entanto (e Plínio já deixou isso muito claro), a sua pretensão não é fazer uma revolução no Brasil, mas reajustar paulatinamente a estrutura econômica, política e social do país.
As propostas de Plínio buscam se realizar a partir de alguns marcos da sociedade atual, e não visa rompimentos revolucionistas com a ordem constitucional brasileira. Seguir as leis e respeitar a constituição é um dos pressupostos da candidatura de Plínio.
Muitos podem não concordar com as propostas de Plínio, e isso faz parte do processo democrático. Alguns por motivos racionais e respeitáveis, outros por simples “medo”. Acontece que medo não é argumento, é sentimento.
Se o eleitor tem esse sentimento dentro da alma, deve saber que isso é psicológico, e só se resolve de duas formas: ou num divã (com terapia psicanalítica e/ou esquizoanalítica) ou no esquecimento (tapando o sol com a peneira e fingindo pra si mesmo – têm-se a opção de repetir hipnopédicamente que o “medo” não existe).
Politicamente falando, o “medo” também é um dispositivo ideológico (alguém lembra de Regina Duarte, a “medrosa”?) cuja função psicológica cumpre a agenda do afastamento a priori de uma ideia, de uma proposta, sem que o indivíduo amiúde faça uma reflexão sobre as profundas causas desse sentimento.
Quando o sentimento do medo for sanado, ou, ao menos, equilibrado, nesse momento pode-se parar e observar com maior objetividade as propostas colocadas pela candidatura de Plínio. Nesse instante, sem medos e preconceitos, o eleitor pode concordar ou discordar racionalmente das propostas.
É uma opção pessoal, o que difere demasiadamente da alegação de que não há proposta alguma colocada no prato eleitoral.
Falarei rapidamente sobre algumas propostas (sim, existem propostas!).
1 – Auditoria da dívida pública federal (DPF):
Atualmente, o estoque do endividamento público federal (incluindo a dívida externa e a interna) é de mais de 1 trilhão e meio de reais. Apesar da hipótese de que a dívida pública federal é estacionária, e, por isso, não apresenta um comportamento “explosivo” (essa ideia pode ser vista aqui), essa bomba trilionária não é auditada de forma profunda (ainda que seja um dispositivo previsto na Constituição Federal de 88), com a participação de organismos internacionais, desde os tempos de Getúlio Vargas.
Alguns especialistas da economia preferem dizer que isso é bobagem, ou que o mais coerente e acertado seria sentar com os credores para renegociar os termos da dívida, e que o próprio Banco Central poderia operacionalizar uma mudança na rostidade da dívida.
Isso é uma questão de viés através do qual se observa o problema.
A candidatura de Plínio coloca esse ponto em discussão (concorde-se ou não com seu ponto de vista de promover uma auditoria profunda da DPF, coloocar a ideia em debate é importante), o que se traduz numa proposta de campanha que, para o bem ou para o mal, está sendo silenciada pelos veículos de comunicação, que fecharam suas portas para o debate mais profundo.
Para Plínio, boa parte do gasto com a DPF (segundo o candidato, uma “dívida extremamente questionável”) deveria ser equacionado, e seus dividendos repassados para a garantia de educação e saúde públicas de qualidade.
De acordo com o candidato “Nós estamos pagando de dívida pública 36% do orçamento e repassamos para a educação apenas 11%”.
Sobre a necessidade de se realizar uma auditoria da DPF, o deputado Ivan Valente escreveu um texto, publicado no site do PSol. Leia aqui.
2 – Revogação da MP 458:
A Medida Provisória 458 foi publicada pelo governo federal em 10 de fevereiro deste ano, e trata da regularização das terras ocupadas em área da União, na esfera da Amazônia Legal. É conhecida como a MP que regularizou a grilagem de terras na Amazônia.
A MP 458 foi, inclusive, aprovada no Senado sob protestos de Marina Silva (a quem Plínio se refere através do conceito de “ecocapitalista”, pois a candidata não defende mudanças do sistema econômico nacional – consideradas essenciais por Plínio – para que se possa fazer uma efetiva defesa do Meio Ambiente). A revogação dessa MP faz parte de um projeto de sociedade baseada na defesa da soberania nacional e justiça social.
Neste contexto, entra também a proposta da realização de uma auditoria da dívida ecológica, em função dos passivos ambientais provocados pelo agronegócio.
3 – Reforma Agrária:
A proposta que Plíno coloca sobre essa questão é muito interessante – e (compartilho dessa visão) vital para as famílias de trabalhadores rurais e também para a economia nacional, com desdobramentos em outras áreas, como a redução da violência urbana e rural. O candidato propõe a expropriação de todas as terras que se utilizem de trabalho escravo e infantil.
Recentemente, Plínio assinou a carta do Fórum Nacional pela Reforma Agrária, onde está proposta a realização de um plebiscito para estabelecer limites ao tamanho das propriedades. Plínio sinaliza para o limite máximo de mil hectares. Segundo o candidato, “existem 5,5 milhões de fazendas no Brasil, das quais 1% delas, ou seja, 55 mil, tem 44% da terra“.
No Brasil existem enormes porções de terras cuja produtividade é estritamente voltada para a exportação, sobretudo soja e carne bovina. Não é por acaso que, quando vamos ao supermercado, o preço da carne e dos laticínios em geral é tão alto.
Talvez não seja alto para o nobre leitor que, por ventura, disponha de boas condições financeiras; para mim, e para muitas famílias brasileiras assalariadas, o custo é bastante alto – de uns tempos pra cá, praticamente me vi obrigado a me tornar vegetariano, contra o meu desejo alimentar, bastante carnívoro.
A distribuição das terras com suporte de políticas públicas de apoio à agricultura familiar diversificaria as plantações brasileiras. Com isso, a produção passaria a ser voltada para uma grande variedade de alimentos (baseados nos princípios da segurança alimentar, ou seja, sem transgênicos) a ser oferecida no mercado interno e externo.
O Brasil deve ser o único país das Américas que ainda não deu resolução às questões relativas à terra. Está mais do que em tempo.
4 – Saúde pública universal:
Plínio propõe a estatização de todo sistema de saúde do Brasil. A ideia que está por trás dessa proposta é baseada no princípio da igualdade. Para Plínio, no momento em que os mais ricos tiverem que dividir as enfermarias com as classes mais pobres, neste momento a cobrança por melhores condições de saúde se tornará mais efetiva dentro da sociedade.
Além disso, paga-se muito aos planos de saúde, e quando a coisa é mais complicada, o cidadão recorre ao SUS. Na sua entrevista ao Jornal da Globo, esta semana, o candidato narrou uma história interessante. Disse o seguinte:
“ Agora meu neto estava em Londres, sentiu uma dor, foi para o hospital. Chegou no hospital e disse: ‘esqueci a minha carteira de identidade’. O médico fez: ‘Que é isso, meu filho, a sua carteira de identidade é o seu corpo. Está se sentindo mal? Deita aí.’ Isso que é Saúde Pública “.
Assista a entrevista na íntegra, aqui.
5 – Educação pública:
A proposta de Plínio é não permitir que escolas sejam formatadas como empresas, como negócio onde se fatura muito dinheiro. Sua candidatura defende a valorização das escolas públicas, através do Plano Nacional de Educação da Sociedade Brasileira, prevendo a destinação de 10% de todo o Produto Interno Bruto para garantir Educação Pública de qualidade em todos os níveis.
A proposta de repasse dos 10% também foi levantada na Conferência Nacional de Educação (Conae), entre março e abril deste ano. No final do mês passado, Plínio voltou a falar sobre a necessidade de o MEC incluir essa proposta no Plano Nacional, que está sendo elaborado.
A efetivação desse percentual do PIB para educação viria como um desdobramento do corte de gastos da dívida pública (ver proposta 1).
Plínio também é favorável à revisão do modelo do ProUni e do ReUni, e disse que “O Brasil não pode aceitar um projeto para expandir o número de profissionais com formação limitada, de modo a pressionar os salários para baixo”.
Sobre a questão da educação, sugiro a leitura de uma entrevista que o candidato concedeu ao Portal Aprendiz, aqui.
6 – Reestatização da Vale do Rio Doce:
A idéia por trás das privatizações empreendidas pelo governo FHC baseou-se nos pressupostos estabelecidos no “Consenso de Washington”, cujas medidas foram estabelecidas pelo Banco Mundial, o FMI e o Departamento do Tesouro dos EUA, e veio a se tornar uma espécie de receita global para acelerar o desenvolvimento econômico. Uma dessas “receitas” era a privatização de todas as empresas estatais do mundo.
Ideologicamente, o Consenso de Washington justificou certo esvaziamento político das privatizações, colocando-as como meras questões econômicas. Entretanto, essa visão despolitizada do ideário privatista do Consenso de Washington passa longe de ser um consenso, e muitos encaram as privatizações como um processo sumariamente político.
Plínio contesta a forma como foi privatizada a Vale, e propõe sua reestatização. Contesta-se a forma como foi privatizada, os valores e a questão da soberania nacional.
No leilão, a Vale foi vendida por R$ 3,338 bilhões, entregue com um caixa de R$ 700 milhões e um patrimônio de R$ 92,64 bilhões. Levando em consideração o valor de seu patrimônio, a Vale teria sido privatizada sem uma avaliação correta de seu valor.
A riqueza mineral do subsolo brasileiro é enorme, e impulsiona o valor estimado da empresa à casa do trilhão de Reais, e tais riquezas compõem o corpo da soberania nacional, entregue de forma contestável à iniciativa privada.
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Existem outras propostas no programa de governo de Plínio, e não concordo, necessariamente, com todas. Mas entendo a importância de colocá-las em debate. Outras propostas podem ser vistas no site do candidato, clicando aqui.
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Com este post, minha intenção é fazer um convite ao leitor do blog (concorde ou não com as propostas acima descritas): que tal a gente debater ideias e projetos de sociedade?


















Artur, meu caro (e desconhecido…rsrsrs),
Enquanto postavas teu comentário lá no acerto de contas – na noite do dia em que postei o texto acima -, em minha casa eu tomava uma com seu ex-orientando Chico, o chicão da museologia. Falou-me muito bem de ti.
Um grande abraço!
André
Grande André,
Como ex-orientando? O cabra me deserdou?!
Só espero que vc não comungue das mesmas crenças futebolísticas do venerável Chico.
Valeu pela visita!
abração.
HAHAHAHAHAH
Eu, fui eu quem deserdou-o de vc! Não sei pq disse “ex-orientando”… Acho que já tinha tomado muitas cervejas na hora em que conversávamos, e entendi assim.
Não, não comungo das crenças futebolísticas dele. Assim como vc, sou tb um torcedor fora de série! (embora um tanto indeferente na contemporaneidade…) – e não jogo no time dos chatos de galocha!
Um grande abraço!
PS: gostei do seu blog. Vou colocá-lo no blogroll do acerto de contas.
nao gosteiiiiiiii