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A oposição não acabou, nem acabará e… nem deve acabar
É curioso ver a mídia e a oposição adotarem o discurso catastrófico de que o PT dominará o Brasil. O pior dessa visão desastrosa são seus heróis sinceros — são os mesmos que adorariam o fim da “raça” petista. Porém, pensar que a esquerda domina esse país é uma quimera. Ora, o PT deu uma guinada e se alojou no centro. Tudo bem, é de centro-esquerda, mas deixou de ser esquerda-esquerda faz tempo, a tal ponto que causou um curto-circuito geral na ideologia política brasileira: afinal, o que é e o que faz a esquerda brasileira? Inclusive, a diferença programática entre PSDB e PT tem apenas como base uma diferença de posicionamento em relação ao centro – um mais à direita; outro, mais à esquerda, respectivamente — no fundo, no que toca os papéis do Estado e do Mercado. De todo modo, em relação aos imensos problemas do país, principalmente o da desigualdade, a diferença torna-se fundamental — na atual conjuntura, o milímetro que separa os dois partidos é um abismo.
Questões factuais:
- A mídia não é de esquerda, muito pelo contrário – falar em hegemonia, atualmente, sem poder de mídia, é escolasticismo. Na verdade, a mídia “endireitou” nesses últimos tempos. Vide a Folha e, principalmente, a Veja.
- O Congresso não é de esquerda. E uma maioria de esquerda no Parlamento está longe, muito longe de acontecer;
- A maioria das pesquisas mostra que a população brasileira, politicamente, é de centro e, culturalmente, conservadora. Uma hegemonia não é baseada apenas na adesão a um programa político, e sim, fundamentalmente, a um conjunto de valores;
- Na década de 90, houve uma “vitória simbólica” da direita brasileira, no embate político-cultural, que ainda terá consequências político-organizativas; na verdade, já teve, pois é só perceber a agressividade udenista de Serra, que fala até em república sindicalista, vejam só. Mas o que quero dizer com “vitória simbólica”? Temos, atualmente, uma base social conservadora muito mais articulada do que aquela que existia nas primeiras décadas depois do fim da ditadura militar – o conservadorismo saiu calado e de fininho, mas não derrotado do final da ditadura. É um conservadorismo que não tem mais vergonha de se autoproclamar de direita, que defende, publicamente, o golpe de 64, fala de “ditabranda e trocou a temática do comunismo pela do terrorismo – é absolutamente antiesquerda. É um velho conservadorismo que se reciclou sob a batuta de sua referência eterna: a direita americana. E já tem um modelo de democracia: o golpe “legal” de Honduras – uma direita que tem uma visão bem instrumental do Estado de Direito. Querem um exemplo de instrumentalização do Estado de Direito? Lembrem-se de Gilmar Mendes, cuja voz não é nem um pouco solitária – a propósito, a maioria do Supremo é conservador, embora alguns defendam o STF, como uma fortaleza em defesa das liberdades de expressão e de imprensa. É uma direita que pede por um partido político ou por uma reconfiguração partidária.
- Se a oposição ganha São Paulo, Paraná e Minas, o que é bastante possível, terá todas as condições de se reconstruir, inclusive, imediatamente, depois da derrota na eleição presidencial;
- Justamente por causa do ponto 4, não quero a extinção dos ranfastídeos, pois sua existência dilui, em tese, a constituição de um partido de direita, que não seja essa coisa ridícula chamada DEM. Só desejo sua vulnerabilidade política e, claro, um pouco de humilhação — um tiquinho de prazer é feito vinhozinho gaulês, é bom e só faz bem.
- Ah, sim, quase ia me esquecendo de algumas lições republicanas. Confesso que tenho uma desconfiança do petismo, essa esquerda que ainda tem um modelo restrito de república — convenhamos, uma esquerda que não conseguiu sequer fazer, em oito anos e com uma abordável correlação de forças, uma reforma política, ou acredita no conto da dita “governabilidade” ou, pior, instrumentalizou o conto para defender melhor seus intere$$es. Não sei se desejo um PT extremamente poderoso, cooptando tudo que é movimento social e sufocando qualquer alternativa de esquerda mais democrática e republicana.
Em suma, a esquerda festeja, com razão, a possível vitória de seu centro nessas eleições, mas subestimar a correlação de forças é um erro antigo, que já gerou alguns desastres políticos no século vinte (o Golpe de 64 foi, também, produto de uma completa subestimação da correlação de forças da época). Se a leitura doidivana de que “varremos do mapa a direita e a oposição”, muito parecida com a do dono do Ibope, em relação ao PT, vingar e transformar o realismo político em voluntarismo, estamos é ferrados.

















Análise perfeita.
De qual república sindicalista eles estão falando? Os sindicatos perderam, e muito, a força que tinham em outra época.
Até mesmo os sindicatos ligados ao setor público não são mais os mesmos, apesar do funcionalismo ter a proteção da estabilidade.
Sim, bem lembrado, os sindicatos viraram aparelhos e “esqueceram” completamente da Reforma Sindical. Pra quê, se mexe com muitos intere$$es?
Os sindicatos perderam todo o capital político acumulado durante a luta contra a ditadura. São corporações do resultado.
Mas há um fato que explica essa “medo” repentino de o PT “dominar tudo”. Um surpreendente crescimento do Mercadante nas pesquisas. De repente, o bicho chegou a 23% de intenção de voto e acenou com a possibilidade de um segundo turno. Lula se assanhou (não esperava por isso) e já montou uma agenda forte em São Paulo. E aí entra o cerne da questão: do ponto de vista da Veja, Folha e Estadão, perder o Estado de São Paulo é mais ou menos o mesmo que o fim dos tempos, o apocalipse, anjos voadores com espadas de fogo tangendo os ímpios, etc. De um ponto de vista paulista classe média-conservador, o PT ganhar em São Paulo (com a Dilma Presidente) é a queda do Império Romano. Nessas cabeças não existem PSDB de Minas, do Rio Grande do Sul, nem mesmo oposição em outros estados.
Vejam bem, essa hipótese de vitória do Mercadante ainda é muito remota, muito mesmo. Mas considerando que até duas semanas atrás não havia nenhuma, a mudança é considerável. Daí o pânico.
Fim dos tempos + queda do império romano. É isso. Seria engraçado de ver.