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XLVI – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

2 comentários

(Sed sunt angelus!)

46º CAPÍTULO

Santa Teresinha de Ávila (1515-1582) afirmava ter copulado com um anjo. Ou melhor, foi copulada, que a irmãzinha Teresa não era dessas coisas. Dessa vez, pelo menos, não há registro na ICR de nenhuma gravidez virginal. A santa espanhola recebia, também, os estigmas da cruz com frequência e considerava-se uma privilegiada por isso.

Vôte!

Já Pierre Abelardo (1079-1142), grande filósofo e teólogo da ICR (o que pode representar muito ou quase nada), teria igualmente se relacionado com anjos, embora de forma diferente.

Professor da Sorbonne, apaixonou-se por Heloísa, uma de suas alunas. Quando a família da moça soube do caso, mandou castrar o pobre do Abelardo. Por isso, há toda uma polêmica sobre a relação entre castração e teologia. A metafísica necessita de alguma castração, mesmo que simbólica? De todo modo, castrado e metafísico, o filósofo foi passear, enquanto Heloísa recolheu-se a um convento. Trocaram cartas apaixonadas pelo resto da vida, e somente isso. Encantador, sem dúvida, esse romance platônico do casal francês!

Que tristeza!

Certo dia, acompanhado de um frade amigo e trejeitoso (dizem que se tratava de São Francisco, mas as datas, para o bem ou para o mal, não coincidem), Abelardo passeava pelo Mercado Público de Roma quando, estupefacto e segurando o braço do amigo, apontou para dois marinheiros e perguntou:

─ Quem são aqueles?

O frade, já acostumado com as bizarrices romanas, retrucou:

Sunt anglos!

De fato, os nórdicos, inclusive os ingleses, já visitavam os países do sul da Europa em sua missão comercial-civilizatória. Era comum, aliás, marinheiros e comerciantes ingleses frequentarem os principais pontos comerciais da Cidade Eterna. Eram admirados pelos olhos azuis e cabelos louros! Diferentes, diferentes de outros europeus conhecidos pelo ilustre filósofo.

Não sei se foi paixão à primeira vista, mas o fato é que o teólogo teria ficado extasiado com a inegável beleza dos dois marinheiros que andavam, certamente, caçando piedosas e famintas noviças.

Abelardo não se conteve:

Non sunt anglos! Sunt angelus!

Não existe nenhum registro histórico confiável sobre a sequência da história. Segundo as más línguas, inclusive dos pais de Heloísa, é provável que o religioso francês tenha convocado os dois bárbaros marinheiros ingleses para rezar um terço ou um rosário em conjunto, no albergue do Vaticano.

Mas divago… O que tem a ver essa história com… Ah, sim, lembro-me, agora. Continuemos, pois já, já encontraremos o fio da meada.

Ora, logo depois do imponente funeral do Dr. Quim, triste e cabisbaixo voltei à Comunidade onde, três dias depois, fui eleito Líder. Nomeei, de pronto, Quimzinho para médico, curandeiro e Diretor de nosso laboratório científico, bem como meu eventual substituto, enquanto estivesse cursando meu Doutorado, em Roma. O Monsenhor Braguinha, meu pai, foi designado Conselheiro Espiritual Vitalício e Secretário de Educação da Comunidade, cargos não remunerados e que ele exerceu até à sua morte, firme em sua filosofia pedagógica de não envenenar as crianças com educação religiosa.

Que decidissem quando adultos!

Carminda Bará ocupou o importante cargo de chefe da Cantina comunitária, enquanto Zé Malandro, por seus conhecimentos com o submundo, foi nosso Chefe de Segurança. Outros cargos menores foram preenchidos, escolhendo criteriosamente entre os elementos dos diversos clãs para não ser acusado de favorecimento ilícito.

Com tanta responsabilidade, a insônia me pegou nos dias seguintes, embora Socorrinho e Madá não se tivessem queixado de nada. Quanto mais tempo para elas, melhor!

Uma semana depois, quando já me preparava para o retorno à Gregoriana, o relógio bateu às quatro horas da madrugada. Insone, fui passear na beira do rio quando uma intensa luz feriu meus olhos. Planando pelas águas do Capibaribe, um anjo vestido todo de branco aterrizou ao meu lado. Se não fosse meu receio de castigar o vernáculo, diria que se tratava de uma “anja”, com um colar de pérolas no pescoço e um gostoso perfume exalando do seu corpo.

─ Oi, Tsé! Fazendo o quê? ─ Perguntou-me.

─ Nada! Ruminando essa merda de vida. ─ Respondi.

─ Pois é! Tava lendo seu dossiê e tive curiosidade de conhecê-lo pessoalmente. Sou a chefe de uma imensa Legião, encarregada de levá-lo para o Além.

─ Vai demorar, vai demorar! E por que está vestida de mulher? Por sinal, linda! Não sabia disso.

─ Ora, Tsé! No Além, não há coisas de gênero. Mas, como sei de sua fama de galinha inveterado, resolvi assumir a aparência feminina. Docetismo lá de cima, nada mais.

─ E como vai Nosso Senhor?

─ Vai bem! Já recuperado da crucificação! Atualmente, está ocupado em desviar a galáxia de Andrômeda que teima em querer colidir com a de vocês. Mas, que horror, Tsé, o que estão fazendo com as nossas doutrinas lá em Roma!

─ É verdade! Por mais que eu avise, parece que não tem jeito mesmo. E por que veio me procurar? Quero que eles se fodam, nada mais!

─ Bobagem, Tsé! Estava estressada e solitária. Esse negócio de eternidade é um saco de monotonia. Mas você é lindo Tsé!

─ Dizem, mas não acredito. ─ Respondi com uma modéstia interessada.

Agarrei a “anja” pela cintura e taquei-lhe um beijo na boca. Pensei que seria arremessado no rio pela minha ousadia. Que nada! A “anja” Brxzrtp correspondeu e me disse que não era nada demais. Havia precedentes entre os cristãos, citando Santa Teresa de Ávila e Abelardo.

─ Se eles podem por que eu não posso? ─ Acrescentou.

O sol já vinha raiando quando terminamos o serviço. Encostei-me na sombra de um pé de mangue e adormeci. Morto de fome, entrei na minha palafita. O café da manhã estava posto e Socorrinho e Madá conversavam com uma mocinha extremamente graciosa. Quando vi seu rosto, quase desmaiava. Era o anjo, ou a “anja”, da madrugada. Aderira ao nosso clã e recebia as instruções preliminares de minhas duas esposas.

Foi minha perdição! Tratava-se de Marocas que acabara de fugir do circo mambembe, armado na frente do portão da Comunidade. Casada com o trapezista, fora apanhada aos beijos e abraços com o palhaço e dono do circo, justamente o Pastor da Assembleia que fora expulso pelo Dr. Quim, anos atrás.

Foi, seguramente, uma paixão ruidosa e fervente que durou longos anos, com diversos rebentos. Até que deu pra trás quando o padeiro da esquina achou de se meter em nosso romance.

Quem manda acreditar em anjos?

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX
Capítulo XL
Capítulo XLI
Capítulo XLII
Capítulo XLIII
Capítulo XLIV
Capítulo XLV

DimasLins
  1. Eita! Mais um capítulo das memórias. E do jeito que SS Bento odeia.

    Lembro de ter lido algo a respeito de Santa Teresinha, mas acho que não foi em nenhum livro sobre religião. Deixa pra lá…

    Foi consequência da castração ou Abelardo já costurava pra fora?

  2. Foi a castração. Abelardo era um materialista, até vulgar. Dizia que não existiam anjos. Falava tb, num jeito que anunciava o materialismo histórico de Marx, que o mundo só tem saída, entrada neca, never.

    Já castrado, proferiu o famoso ditado: Angelus hominis lupus

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