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três estorinhas
Julio Cortázar: Histórias de Cronópios e de Famas
O cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa de cabeceira, a mesa de cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.
Um cronópio vai abrir a porta da rua e ao enfiar a mão no bolso para pegar a chave, o que tira é uma caixa de fósforos; então este cronópio fica muito aflito e começa a pensar que se em vez da chave ele encontra os fósforos, seria terrível que o mundo se houvesse deslocado de repente, e então se os fósforos estão no lugar da chave, pode acontecer que ele ache a carteira de dinheiro cheia de fósforos, e o açucareiro cheio de dinheiro, e o piano cheio de açúcar, e o catálogo do telefone cheio de música, e o armário cheio de assinantes, e a cama cheia de roupas, e as jarras cheias de lençóis, e os bondes cheios de rosas, e os campos cheios de bondes
(…)
Mário Quintana: O Velho.
O que eu mais temo – escrevi eu em um dos meus agás – não é o Sono Eterno, mas a possibilidade de uma insônia eterna – o que seria uma verdadeira estopada, um suplício sem fim. Porém, em uma das minhas costumeiras noites de sonho acordado, o meu amigo morto me pediu um cigarro, e disse-me:
– Não é como tu pensas, todos nós trabalhamos numa série infinita de escritórios (cada geração de mortos num deles) onde a gente se entrega a um sério trabalho de estatística: tem-se de anotar a chegada de cada um e comunicar-lhe o respectivo número, pois isso de nomes é mera convenção terrena. O pior são os que atrapalham a escrita, morrendo antes do tempo – ou porque se mataram ou por culpa dos médicos, e estes ainda são culpados quando fazem os doentes morrer depois da hora, numa espécie de sobrevida artificial, já que os médicos (diga-se em sua honra) julgam criminosa a prática da eutanásia… Uma pena!
- E fora do expediente, o que fazem vocês?
– Bem, a hora do almoço não deixa de ser divertida por causa dos Santos: põem-se a discutir acaloradamente qual deles fez na Terra o maior número de milagres e outras futilidades.
– E nos serões, eles jogam prenda?
– Mais respeito, seu vivo!… Bem! Nos serões eles fazem concursos para ver quem é que diz de cor mais versículos da Bíblia. Uma bobagem! Todo mundo sabe que o único que sabe a Bíblia de cor, tintim por tintim, é o Diabo.
- E Deus? Me conta como é Ele…
- Ah, o Velho? Desconfio que certa vez O vi…
- Só certa vez? Ele não está sempre no céu?
– Bem, tu deves compreender que Ele se preocupa principalmente com os vivos. O Velho está quase sempre é na Terra, lidando com os assuntos humanos. Ele e o Diabo, Sim, os dois vivem a maior parte do tempo na Terra.
– Ora, eu pensava que vocês soubessem mais do que nós… Mas conta-me lá como foi que desconfiaste de ter visto o Velho?
– Foi há tempos, eu era recém-chegado, quando uma tarde apareceu de surpresa no escritório um velhinho muito simpático. Com as mãos às costas, curvava-se sobre cada mesa, inspecionando o nosso trabalho, por sinal que me atrapalhei, errei uma palavra. Ele bateu-me confortadoramente no ombro, como quem diz: “Não foi nada… não foi nada…” Ao retirar-se, já com a mão no trinco da porta, virou-se para nós e abanou: “Até outra vez se Eu quiser!”
A Hortaliça
Vanessa Barbara Pois é, agora temos 100 assinantes. Ninguém se mova!! Um suspiro, e a ordem natural das coisas estará ameaçada. A existência de 100 leitores desta… ahm, digamos, publicação, me leva a crer que a humanidade vai ser sugada a qualquer momento por um grande buraco de tédio e ociosidade, e se tornará uma colossal massa disforme de Falta de Coerência. A qualquer momento. É a velha história: garota está entediada e cheia de aftas, vai à feira comprar pepinos, conhece um Zine precisando existir, eles se olham, trocam telefones, combinam uma pescaria e zás!: logo estão morando na Louisiana, criando moluscos raros e acabam por devastar 30 acres de um campo repleto de batatas, tudo por causa das malditas aftas. É sempre assim. Mas não vai se repetir, não dessa vez. Bom, eu teria que dizer o que há de bom e ruim nesta edição, mas deixa pra lá. Se você encontrar algum sentido na disposição das letras, na colocação das frases, no mérito comunicativo de algum desses artigos aí embaixo, já é um avanço considerável. Como disse a saudosa Stephanie (diga alô para os seus amiguinhos da Casa de Saúde): “droga, novamente a coerência se afasta deste local! A congruência de assuntos não existe!”. Fazemos nossas as palavras dela, ou dela as palavras nossas, ou nossa! cadê as palavras dela?, e terminamos por aqui este emaranhado de bobagens. Vida longa e próspera a nossa centena de comparsas, e que vocês procriem logo (entre si) e alfabetizem seus filhos, pra que possamos crescer ainda mais, sem qualquer esforço. Saudações.
O cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa de cabeceira, a mesa de cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta. |


















O título desse post deveria ser “três estorinhas que são duas”.