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El mundo de Milás
Um pouco de literatura é que nem vinhozinho gaulês: é bom e só faz bem. Aproveitando as homenagens ao novo campeão mundial, cito passagens do livro “El mundo”, de Juan José Millás. A infância é belamente retratada. Ainda é um mundo encantado, talvez, pré-moderno (a modernidade é excessivamente “adulta”?), cheio de claros e escuros e de verdades e enganos.
Lá vão alguns trechos:
“Meu pai se gabava de ter sido o primeiro a construir um bisturi elétrico na Espanha, embora provavelmente tivesse tirado a ideia de uma publicação estrangeira. Lembro dele inclinado sobre a mesa da oficina, fazendo cortes num pedaço de carne de boi, admirado pela precisão e limpeza do corte. Não esquecerei nunca o momento em que olhou para mim, que o observava um pouco assustado, para proferir aquela frase fundacional:
- Olha, Juanjo, cauteriza a ferida no exato momento de sua feitura.
Quando escrevo a mão, num caderno, como agora, acho que lembro um pouco meu pai no ato de experimentar o bisturi elétrico, pois a escrita abre e cauteriza ao mesmo tempo as feridas”
Era um mundo de terror. A todo momento, um susto, uma mão debaixo da mesa, um grito horrível. Uma sensação de evasão impossível. Fugir, fugir, virou seu lema. Rapidamente, descobriu que a única fuga era dormir. Passou a dormir muito e descobriu que os sonhos não lhe deixavam em paz. Davam-lhe sustos. Descobriu, enfim, que depois de dormir e sonhar a melhor fuga mesmo é morrer. E morreu.
Era um mundo pela metade: tínhamos metade do calor de que precisávamos, metade da roupa de que precisávamos, metade da comida e do afeto de que precisávamos para gozar de um desenvolvimento normal, caso se possa falar de desenvolvimentos normais. De algumas coisas, apenas tínhamos uma quarta parte, ou menos ainda.
Tudo estava certo. Cada milímetro da minha vida estava planejado. Deu tudo errado. O plano não funcionou. O destino me abandonou…
Tudo estava quebrado. Quando eu nasci, o mundo ainda não tinha quebrado, mas não demoraria a quebrar.
É verão, sábado ou domingo, e minha mãe, mamãe, está preparando a comida para irmos à praia. À noite, sonhei que fazendo um buraco na areia e encontrava uma moeda. Conto o sonho para minha mãe, que vai de ponta a ponta pela cozinha, mexendo nas coisas, nem sei se me escuta. Depois estamos na praia, embaixo de um guarda-sol. Meus irmãos correram para a água. Minha mãe pergunta por que não faço um buraco na areia e em seguida aparece, de fato, a moeda, o tesouro. Todos os dias de minha vida lembrei essa história que significava a realização de um sonho. Contava a história para mim mesmo uma e outra vez, como se não compreendesse o seu sentido. Muitos anos depois, deitado no divã de uma doce psicanalista, uma mulher chamada Marta Lázaro, contei-a de novo, contei para mim a história daquele sonho realizado e de repente, para não me engasgar de emoção, tive que sentar: acabara de descobrir que minha mãe, mamãe, escondera aquela moeda na areia, antes de sugerir que fizesse o buraco. No instante desse segundo descobrimento, minha mãe já estava morta fazia mais de um ano, e ocupava quase todas as horas da minha análise.
















