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Fellini e o fascismo
Leio, nesse momento, um livro espetacular sobre o nazismo, recomendado por Perrusi Pai: LTI– a linguagem do Terceiro Reich. Comentarei o livro, depois. Ao lê-lo, fiz algumas associações e parei em Fellini, vejam vocês. Deparei-me com uma entrevista do cineasta, feita na Itália em 1973, e republicada no livro “Fellini Visionário”, da editora Companhia das Letras.
Cito dois extratos. Lá vai:
Não que eu queira minimizar as causas sociais e econômicas do fascismo, mas quero apenas dizer que ainda hoje o que mais interessa é o traço emocional e psicológico da adesão ao sistema. Em que consiste esse traço? Em um certo bloqueio, uma paralisação no início da adolescência e, na minha opinião, um congelamento e uma interrupção do desenvolvimento do indivíduo levam necessariamente a alterações que procurem compensá-los. Talvez, dessa maneira, o fascismo se torne para alguns uma alternativa diante da perda das ilusões, algo como uma tentadora reação da ruptura de todos os obstáculos no instante em que o crescimento se orienta numa direção que leva a um sentimento de decepção e desorientação.
Não quero acreditar que nós, italianos, ainda não tenhamos superado a nossa adolescência e o fascismo… Mas tenho a impressão de que fascismo e adolescência ainda são, de uma certa maneira, estágios de nossa existência –a adolescência, da vida pessoal, e o fascismo, da vida nacional. Refiro-me com isso à forma de se permanecer sempre como uma criança, de se livrar da responsabilidade, de viver com o consolo de sempre ter alguém a quem cabe pensar, uma vez é a mãe, outra o pai, mais tarde o Duce, Nossa Senhora ou o bispo… Temos nesse meio a liberdade –limitada, porém aberta aos pensamentos mais absurdos— graças à qual podemos nos apoiar nos sonhos mais ridículos: no sonho dos filmes americanos ou no sonho oriental repleto de cores, no caso mulheres…
Mutatis mutandis, o Brasil não superou ainda a ditadura militar (vide as discussões sobre a impunidade dos torturadores), empacando sua democratização. Alguns dirão que exagero — pode ser. Mas acho nossa sociedade muito autoritária; aliás, muitas vezes, fico impressionado como é despótica e violenta, e a violência é a base de qualquer regime ditatorial. E vou mais longe: nosso país não superou as mazelas de seu período escravagista — a nossa desigualdade é tão abjeta que a tornamos banal para não adoecer nossas almas. Não digo que, atualmente, o Brasil seja prenhe de fascismo; na verdade, digo apenas que o autoritarismo é uma possiblidade que oprime como um pesadelo a vida dos brasileiros (para parodiar um velho revolucionário). Entendo por que nós olhamos tanto o futuro — pra frente Brasil, país do futuro –, já que, talvez, tenhamos medo do passado. Olhá-lo não é fácil — sempre foi difícil ser historiador, por aqui. Diante de nossa tragédia, os olhos ficam escancarados, a boca dilatada, preste a soltar um grito. Tenho a impressão de que nosso passado é uma catástrofe única, acumulando ruínas sobre ruínas, dispersadas pelo vento forte que bate no nosso presente. Talvez, esse vento todo, quase uma tempestade, empurre-nos pra frente. À ventania, essa tempestade, Benjamim chamava de progresso, nosso sonho de Sísifo.
















