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O Homo sapiens entre a felicidade e o sofrimento

7 comentários


HARRIS, Sam – A Morte da Fé – São Paulo, Companhia das Letras, 2009

Por Perrusi Pai

Uma resenha crítica

O combate à direita fundamentalista continua. Em todos os fronts, na verdade. A Morte da Fé, de autoria de Sam Harris, é mais uma estilingada contra o monstro intelectual do dogma, que impede as pessoas de pensar e de refletir criticamente sobre a realidade.

Segundo um certo apóstolo, que gostava de caminhar pela Europa Antiga, a Fé é acreditar, sem nenhuma evidência possível, nas coisas invisíveis. Sam Harris vai de encontro a tal definição através de uma radical dissecação da Fé, anotando de passagem os fatos terríveis da história do Judaísmo, do Cristianismo ─ tanto o católico romano como o protestante ─ e do Islamismo.

Felizmente, o Autor não se preocupa em provar a inexistência de Deus. Ele assume, desde o início, que Deus não existe. Seu objeto de pesquisa é outro: justamente os mecanismos evolucionários, psicológicos e sociais e, portanto, históricos, que criam e mantém a Fé. E suas amedrontadoras consequências! Sobretudo, na visão do Autor, o desastre a que a Fé estaria conduzindo a civilização moderna.

Longe do estilo de um Dawkins, academicamente pesado, ou de um Hitchens, jornalístico e panfletário, Harris parece mais próximo de um Bertrand Russell, cujos ensaios lia, com prazer e deleite intelectual, durante minha formação acadêmica.

Irônico, mordaz, o Autor não perdoa ninguém que tenha dogmas como fundamento de suas crenças ou de sua prática.

“Uma lufada de ar puro”, segundo as palavras de Roger Penrose, grande físico teórico da Universidade de Oxford, referindo-se ao resumo de A Morte da Fé, que Harris publicou com o título de “Carta a uma nação cristã” (os Estados Unidos, é claro), obra traduzida e publicada pela Companhia das Letras, São Paulo, 2009.

O estilo é coloquial mas poderoso em dizer as coisas que devem ser ditas, utilizando a razão e o método científico. Harris não deixa ninguém em paz. Como Russell, ele vai caminhando até as últimas consequências lógicas dos seus argumentos, citando os fatos históricos com propriedade e, deles, tirando as conclusões necessárias.

Além disso, erudito de mão cheia, sempre apoiando-se numa preciosa bibliografia em diversos ramos do saber científico, Harris demonstra que se pode ser incisivo sem ser agressivo. É claro que, às vezes, ele perde as estribeiras e classifica, sem nenhum pudor, como idiota uma pessoa que acredita na virgindade de Maria.

De minha parte, sempre prefiro uma expressão mais branda: são pessoas portadoras de um alto nível de “preguiça mental”.

Contudo, os últimos capítulos talvez sejam os mais polêmicos; contra o Islã atual e a favor de um certo tipo de “espiritualidade”, esta última já preconizada no livro do francês André Comte-Sponville, O Espírito do Ateísmo (São Paulo, Livraria Martins Editora, 2007).

De fato, eles servem ao Autor para encaminhar o problema da construção de uma “nova ética” para a Modernidade.

Uma Ética baseada na dualidade entre a Felicidade e o Sofrimento. Conceitos ambíguos, decerto! Além de carregados de uma inegável subjetividade.

Contra o Islã, o Autor pode parecer até um pouco paranoico, ainda sob o impacto do ataque suicida às Torres Gêmeas de Nova Iorque, se o leitor não seguir a lógica histórica implacável dos fatos que apresenta. Nem se chocar com os duros adjetivos com que o Autor rotula os piedosos crentes religiosos.

Tal “rota de colisão”, aliás, já fora descrita, com uma certa elegância britânica, por Arnold Toynbee no seu valioso ensaio “O Mundo contra o Ocidente”, nos anos de 1940-50.

A favor da “espiritualidade” do ser humano, Harris se estende, num longo ensaio, sobre a “autoconsciência”, que ele aceita chamar, provisoriamente, de “espírito”; daí a “espiritualidade”, aproveitando-se dos seus conhecimentos de neurocientista.

Mas, ninguém se engane. Harris não é um dualista! Considera, apenas, que alguns métodos de “meditação” (como os budistas, por exemplo) “podem ser úteis” para um autoconhecimento, quando guiados pela razão e, não, pelo dogma; noutros termos, “o conhecimento científico da autoconsciência”. Tudo isso, na verdade, à espera de que a ciência desvende, se algum dia for possível, o misterioso problema da “autoconsciência”.

De fato, trata-se da velha e pantanosa questão aristotélico – tomista do “ser enquanto ser”. Nos meus tempos de estudante, contentava-me com o efeito literário da formulação hegeliano – marxista em torno da “tensão dialética” entre a essência e a existência.

Harris, contudo, pretende ir além, com a esperança “realista” do conhecimento científico, depositada quase que por inteiro na Neurociência. Mas, qual o quê? Os próprios neurocientistas afirmam que conhecemos apenas cerca de 30 % das funções neuro – cerebrais. Afinal de contas, 30% de quê, se não conhecemos a totalidade considerada? Parece mais com a mania americana de tudo medir!

Sei lá, não sei! A Filosofia serve também para isso!

Como diria o Reverendo Tsé-Tsé, meu amigo de longa data:

─ Meu Deus! Meu Deus! Por que fizeste uma espécie tão complicada como o homo sapiens? Uma moqueca de siri mole seria o bastante!

É isso aí! Um livro que se deve ler desarmado de preconceitos. E, diria, sem nenhuma inocência crítica!

DimasLins
  1. Não li e não gostei!!!!

    Gadielito, eu acho que a gente devia era comer uma moqueca de siri mole.

  2. Bela resenha (nada contra a moqueca).

  3. O problema é que há certezas demais, pro meu gosto, tanto de um lado quanto do outro.

    O dogmatismo científico é tão pernicioso quanto o religioso, e em nome deles já se fez muita M à humanidade.

    Na dúvida, fico com a moqueca de siri mole, acompanhada de uma cachacinha. O Reverendo sabe das coisas.

  4. Artur, olha isto:

    http://copadomundo.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/06/22/eua-jogam-para-classificacao-e-para-irritar-mais-sua-direita-conservadora.jhtm

    Acho que vou torcer, pela primeira vez, para os rapazes amaricanos avançarem mais um pouco.

  5. Da moqueca saiu o siri mole,
    do siri mole saiu a moqueca,
    eis o círculo: siri — moqueca
    moqueca — siri: bargaço
    célula-tronco
    eutanásia
    clonagem
    fiat lux!

  6. A esquadra americana conseguiu.

    Gostaria muito de ver a reação do pessoal citado na matéria do uol.

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