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O que você fez dos seus sonhos?

12 comentários

Ducaldo se entregou. Não queria, dava desculpa, fugia do assunto, mas capitulou, enfim. É estranho quando isso acontece com alguém. Geralmente, não se sabe bem qual foi o motivo do comportamento. Tudo indica que foi um gesto pensado e refletido. Se foi uma atitude espontânea, meio sem querer, uma bobeira, logo, um futuro arrependimento, problema de Ducaldo. A autoria pede seu preço e pode causar tempestades. Ao colocar um texto no espaço público, a palavra larga o autor e cai no mundo. Pode gerar uma sensação de abandono; algumas vezes, uma vergonha terrível. Muitos escritores sentem-se como um boneco de vudu quando sua obra é lida e interpretada pelos leitores. Cada leitura é uma agulha enfiada com força na alma do escriba.

Mas o negócio é que Ducaldo enviou um texto a Dimas para publicá-lo no famoso blog Estradar. Mas olha, eu pensei. Ducaldo, hein?!

Espero que Ducaldo não sinta a síndrome do boneco de vudu. Sinta outra sensação. A surpresa que aparece quando a obra retorna ao autor já lida e rica de múltiplas interpretações. Sinta entusiasmo.

Espero que Ducaldo escreva mais. A vida é dura, mas o entusiasmo, algumas vezes, aparece sem bater na porta. Parece um raio em plena luz do dia. Para quem tem uma autocrítica feroz, é um momento fugaz, mas que pode ser esculpido e, principalmente, voltar com frequência. É justamente aquele instante no qual a realidade penetra tudo, embora não se deixe captar; quando o entusiasmo faz-nos pensar que a esperança e o sonho estão próximos o suficiente para serem tocados… em vão, pois nos escapa depois e sempre. Mas a necessidade de escrever continua…

O Blog dos Perrusi não poderia deixar passar em branco esse momento ducaldiano.

Lá vai a crônica:

Por Ducaldo

Acordar, forrar a cama, tomar banho, um comprimidozinho de Nexium, café da manhã, despedidas e taxi para o trabalho. Desenhava-se mais um dia branco, burocrático e igual a tantos outros.

Mas a pergunta grafitada no muro meio sujo e cheio de garatujas, pareceu saltar à minha frente ou soar como se pronunciada pela voz de Deus nos épicos cafonas de Cecil B. De Mille.

Perturbou-me o dia todo, como um grilo noturno daqueles que se esconde no quarto, na fresta mais improvável e impossível de localizar, para irradiar sonoras ondas de aporrinhação e insônia.

Processo número tal, partes, órgão julgador, acórdão, vistos e… O que você fez dos seus sonhos? Intrometia-se de novo a pergunta.  Fingi que não era comigo. Conectei o fone de ouvido, digitei o mais rápido que pude, tentei inutilmente me desvencilhar, mas não consegui. Estava na minha cabeça, na tela do monitor, em todos os lugares, me deixando meio aparvalhado.

Capitulei e me engalfinhei com a interrogação impertinente. Revirei a caixa de papelão das memórias – que baú é coisa para memorialista de estirpe – e não me veio nem um mísero sonho, daqueles “quando crescer quero…”, “um dia serei…”. Nada. Pelo menos na infância, onde as brincadeiras na rua e em casa, a escola e as brigas homéricas com os irmãos mais novos não deixaram espaço para sonhar futuros improváveis.  A não ser que se leve em consideração Zorro, National Kid, Fantasma, Tarzan, Ramon e Pelé.

Revirando a caixa mais um pouco, dei de cara com as espinhas e os óculos fundo de garrafa de adolescente tímido que, finalmente, viajava como se sob o efeito de um galão de chá de trombeta. Solos de guitarra e sexo, violão e sexo, livros e sexo, filmes e sexo, política e… sexo. Claro, pombas! Em que mais pode pensar um adolescente espinhudo?

E o espinhudo quatro-olhos entrou no labirinto da fantasia – sonho, projeto, é outra história – e se perdeu entre guitarras flamejantes, vocais esganiçados, melodiosos violões, belos filmes, romances e política revolucionária. Tudo muito bem fantasiado e nada feito.

Soterrado embaixo de milhares de folhas digitadas e mal redigidas, no vetusto e nada bonito linguajar forense, abri mão de mergulhar, arriscar e buscar meus, digamos, sonhos.

Ainda bem. Com minha inacreditável falta de talento teria me esborrachado no chão, feito trapezista sem rede segurança. Admito a minha mediocridade sem o menor pudor, especialmente quando, por baixo das tais folhas digitadas, me passam um bom contracheque, que me permite apreciar tudo que nunca tive dom para fazer, em boa companhia e atracado com uma garrafa de vinho – vodca e cachaça também servem.

O meu caro leitor – supondo que tenha alguém aí – esperava o quê? Choro sobre os sonhos derramados? Uma diatribe sobre a massacrada vida do homem comum? Facas que procuram pulsos ou cordas enroladas em pescoços na calada da noite? Lamento. Procure literatura russa, Machado, Proust e quetais, pois estas mal tecladas quase não dão nem para uma carta, quanto mais para as profundidades filosóficas que exigem tais assuntos.

Ganhei um box de Coltrane, comprei Hendrix remasterizado e duas garrafas de Cousiño Macul- Antiquas Reserva. A companhia? Prometi não revelar.

Saúde!

DimasLins
  1. Ducaldo: Agora, duas vezes irmãos! Gostei muito do seu texto. De certa maneira, comungo de sua estranheza de aodolescente espinhudo. Não tinha espinhas no rosto, mas a timidez excesiva sempre foi minha marca de adolescente. Lembro-me quando vi meu primeiro texto publicado, malgré moi. Foi um deslumbramento ver-me em letra de forma. Espero que ocorra o mesmo com você. E espero mais ainda que volte a escrever para nosso Blog. Ler, escrever, ouvir música são atividades que não só afugentam o “alemão”, mas nos tornam mais humanos. Exatamente porque a gente se mostra muito mais ao outro. Deixe as profundidades filosóficas para os profissionais do ramo. Tome a Filosofia como um consolo para a aridez desta vida, como fazia Spinosa. Mas, nunca se esqueça de que os outros sempe desejam nos ver como a eles próprios, até o dia em que eles próprios começam a escrever, para nosso próprio deleite. Bravo!

  2. Rapaz!
    Publicado no Estradar, no blog dos Perrusi e ver sua, mmm…, obra comentada por Perrusi pai. É muito para quem não é nem ao menos “um pobre amador”.

    Obrigado por se dar ao trabalho e pelos conselhos – que serão levados em alta conta.

  3. Olha! Também gostei muito. Texto digno do BDP. Mas fala a verdade, Ducaldo, só aqui entre nós: a companhia não foi aquela figura kafkiana que você chamou pra ficar com você lá no outro post, foi?

  4. O seu nome completo? Ducaldo Gregor Samsa.

  5. Eheheheh!

    Não,Cynthia. Não cheguei a esse ponto, ainda.

    Mas nunca se sabe. O Barão de Itararé (Aparício Torelli) convivia muito bem com baratas nada kafkianas e não admitia que ninguém as matasse. Herança dos tempos passados na prisão, quando o isolamento da solitária era quebrado por bilhetes amarrados nas dita cujas, que os arrastavam entre uma cela e outra.

  6. Ducaldo, também gostei e confesso que me identifiquei com boa parte. Não sabia que eras também um bacharel (ou causídico).

    Abs.

  7. Pois é, Edmar. Tenho um certificado garantindo que me graduei em Direito; o diploma eu nunca fui buscar.

    Apesar de gostar de muita coisa em Direito, fiz o curso por conveniência – era o que o tribunal me exigia para ganhar uma FCezinha. Depois que sai da faculdade, quando, segundo a anedota, rasga-se o código de ética, preferi doar os livros jurídicos. Nunca mais, salvo por extrema necessidade, pus os olhos em algum.

    Obrigado.
    Abs.

    PS: Não foi você que recomendou “Em Alto Volume”, com Page, The Edge e Jack White? Valeu. É sensacional.

  8. Fui eu mesmo… muito bom o DVD.

    Eu também não advogo, mas como trabalho na área tributária o curso foi muito útilno meu caso.

    Abs.

  9. Ducaldo: Também gostei muito do seu texto, principalmente o que se pode ler nas entrelinhas. E que venham outros.
    O curso de direito não é tão ruim assim. Pelo menos no meu tempo (e já não estou na flor da idade), as faculdades de direito pontificavam como Casas do Saber. Era lá que se aprendia de tudo um pouco, incluindo direito, é claro. Pelo que sei, Perrusi pai fez direito e foi lá que ele desenvolveu seus pendores filosóficos. É bem verdade que Perrusi pai, como advogado, foi um fracasso. Imagine você que, seguindo conselhos de outros advogados, tentou (na sua breve temporada como advogado) dar uma gorgeta a um empregado do foro, cujo apelido era “Bolinha” porque agia para agilizar um processo, impulsionado por “bolas” (gorgetas). Perrusi pai fez a coisa de maneira tão desajeitada, que recebeu do Bolinha, um redondo “não”, com justificativas edificantes. Foi um papelão. Todo o foro comentou. Não sei se Perrusi pai se lembra disso.
    Um abraço, Erínia.

  10. Querida Erínia:
    Claro que me lembro de Bolinha. Ficou rico de tanta propina que recebeu na vida. Quase fui preso! Mas, o melhor caso na minha curta carreira de advogado foi quando, ganhando uma causa, fui cobrar a devolução de uma máquina de costura da devedora. Era uma velhinha que vivia de costurar. Sustentava uma família de dez pessoas. Fiquei com tanta pena dela que rasguei na sua frente o mandato de apreensão e busca. O oficial de justiça ficou indignado mas, depois, concordou comigo. Na volta, disse ao dono da loja, que a velhinha tinha se mudado e que ninguém sabia do seu endereço. Nem me pagou os honorários de tão brabo que ficou comigo. Azar! Era um chato mesmo! E capitalista ganancioso também. Imagine tirar da velhinha seu instrumento de trabalho, mesmo sob o pretexto, juridicamente correto, de que ela havia comprado e se esquecra de pagar. Não pudera, na verdade!
    Um cheiro.

  11. Obrigado, Erínia.
    O curso de Direito lida com muita matéria interessante, mas, igual a tantos outros ficou meramente profissionalizante e busca atender as exigências do mercado de trabalho.

    Normal, em se tratando de ensino no Brasil. E eu não deveria esperar algo diferente, pois já havia passado por uma escola de engenharia antes.

  12. Seria o Desembargador Bolinha? Não sei se ainda está em ação, mas, por volta de 1990, um amigo meu sofreu o diabo para conseguir – pasmem – que fosse despachado um habeas corpus liberando o seu sobrinho, preso injustamente por um crime que não cometeu.

    O habeas corpus só foi encaminhado para despacho após o pagamento da propina. O rapaz foi liberado, teve sua inocência comprovada, mas penou quase um ano na prisão até que saísse o tal despacho.

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