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XLIV – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

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Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.


(sic transit…)

44º CAPÍTULO

O Constellation da Panair levou quarenta e oito horas para chegar ao Encanta Moça, uma cidade vizinha a Bel-O-Kan. Encanta Moça, porque era ali que as moças da alta sociedade deixavam de ser, encantadas por seus namorados. Uma semana no noticiário de tiragem jornalística de dois a três mil exemplares — e era só! Todo mundo esquecia depois.

O Monsenhor Braguinha, meu pai, e Quimzinho me esperavam, tristes e cabisbaixos. Pegamos o bonde e chegamos na Comunidade à tardinha. Madá e Socorro, com o casal de filhos nos braços, estavam no grande portão de madeira. Abraçamo-nos carinhosamente, beijei meus filhos e fomos diretos ver o Dr. Quim, deitado num jirau forrado de couro de bode.

Profeta de Ébano! Guerreiro gigante que atingia as nuvens do céu!

O rosto emaciado, os olhos fechados em descanso, as mãos cruzadas sobre o peito.

Ajoelhei-me e tomei suas mãos:

─ Dr. Quim, meu pai! ─ Murmurei para não acordá-lo.

─ Tsézinho, meu filho!

─ Não se canse nem fale, Dr. Quim.

─ Não, não me canso! Chamei você porque preciso lhe dizer algumas coisas na presença do Monsenhor e de Quimzinho, meu outro amado filho. Antes de partir!

Bem baixinho, quase inaudível, o Venerável médico, curandeiro e líder comunitário, começou a falar:

─ Eu, Vó Dé e o Monsenhor criamos você para ser nosso futuro líder. Quimzinho é cientista e não se interessa por política. Faz muito bem! Quando for embora passear de nuvem em nuvem, como você gostava de dizer, haverá uma Assembleia da Comunidade. Candidate-se! O povo o apoiará. Não deixe que algum aventureiro tome o poder. Jamais deu certo! Prometa-me, neste derradeiro momento.

Prometi tudo o que ele me pedia, sem pensar nem medir as consequências do meu juramento. Apenas, acrescentei:

─ Meu pai! Descanse um pouco!

─ Deixe de ser besta, Tsé! Preciso falar enquanto é tempo.

Ouvimos meia hora de conselhos políticos e organizativos. No fim, Dr. Quim pediu-me uma coisa estranha para um moribundo ateu, à beira da morte:

─ Tsé! Quero que você recite para mim aquele salmo do Rei Davi de que gosto tanto.

Com os olhos marejados de tantas lágrimas, quase de sangue e de dor, pedi a Quimzinho que fosse buscar o seu berimbau para me acompanhar.

Comovido, recitei o salmo milenar de Davi:

“Dudulaidadá é o meu Senhor e minha eterna salvação. Nada me faltará!
Deitar-me faz na verdejante planície, guiando-me mansamente pelas águas tranquilas do grande rio.

Refrigera a minha alma! Guia-me pelas veredas da justiça, por amor de minhas queridas palafitas.
Deixa que os pingos da chuva se entrelacem no meu áspero cabelo e não deixes de fazer o bem ao nosso povo.

Ainda que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum.
A jangada, as redes e os siris sempre estarão comigo.

A tua sombra, na planície ensolarada da Grande Mãe Africa, e as lagoas do Capibaribe, povoadas de lindas mulheres nuas, me consolam.
Preparas uma mesa perante mim na presença de todo o povo.

Unges a minha cabeça com óleo de caule do mangue e faz meu cálice transbordar do melhor vinho da terra.
Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida.

E habitarei na casa de Laidadá por longos dias!”

Dr. Quim sorriu discretamente, como sempre fez. Fechou os olhos, como se recusasse a luz que entrava pela porta. Voltou a cruzar os braços sobre o peito. Senti suas mãos esfriando. Não mais se moviam. O coração, cansado de guerra, repousava dentro do peito.

Quimzinho aproximou-se e tocou, levemente com os dedos, a testa do seu pai.

─ Ele dorme! ─ Sussurrou.

Cobrimos o rosto do nosso amado Líder com um lenço vermelho. Quimzinho chamou as mulheres para encomendar o corpo do Dr. Quim. O Conselho Diretor da Comunidade marcou o funeral para o dia seguinte. Logo em seguida, depois de três dias de luto, a Assembleia se reuniria para novas eleições.

─ Nada mais a fazer! Que Dudulaidadá o tenha! ─ Disse para mim mesmo.

“Que dor se sabe dor e não se extingue?

Não cantarei o morto: é o próprio canto. Oh, encontro de mim, no meu silêncio, configurado, repleto, numa casta expressão de temor que se despede. E já não brinco a luz! A morte sem os mortos, a perfeita anulação do tempo em tempos vários, essa nudez, enfim, além dos corpos, a modelar apenas o vazio da alma, que é apenas alma, e se dissolve”.

Não me lembro mais quem escreveu isso.

Mas, era como me sentia quando sai do quarto do Dr. Quim, meu pai.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX
Capítulo XL
Capítulo XLI
Capítulo XLII
Capítulo XLIII

Sementeiras
  1. Drummond? “Nudez”? De todo modo, é belo, mui belo.

  2. Belíssimo.

    Depois de muita sátira, o Reverendo me deixou emocionado com este capítulo.
    Uma inesperada mudança de rumo. Gostei muito.

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