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Deus, Sam Harris, Freud e Orravan

17 comentários

Não posso ser considerado ateu pelo simples motivo de acreditar, piamente, no Santinha, o Santa Cruz, o Clube do Santo Nome. Afinal, tecnicamente falando, acredito em algo absolutamente sobrenatural, irracional e transcendental. Acho até estranho as pessoas me considerarem um ímpio, mas elas, as pessoas, são sectárias, convenhamos. Não sou, por outro lado, um agnóstico, pois detesto tucanices, inclusive no campo espiritual. Geralmente, o agnóstico refugia-se na impossibilidade empírica de a ciência conseguir provar a existência de Deus. É um refúgio agradável, tendo até um fast-food argumentativo e, por isso,  alimentando bem a dúvida agnóstica.

Porém, provar a existência ou a inexistência de Deus não é um problema científico. Nunca foi. A ciência partilha com o ateísmo uma indiferença absoluta em relação a essa questão. Simplesmente, não é um problema. É nada. Ao contrário do agnóstico, este obsedado pela existência ou inexistência do Dito-Cujo, o ateu está fora dessa discussão, pois ela não existe como tal, apenas como chateação de crentes e agnósticos. Não é um problema de prova, já que, nesse caso, as provas cansam a verdade, seria unicamente uma questão de postura, anterior mesmo à discussão.

Um ateu militante, como Dawkins, tem uma posição vulnerável, pois tenta abordar o problema teológico a partir de uma discussão científica. Mas, por outro lado, o cabra escapa, em parte, dessa aporia quando diz, claramente, que não quer provar a existência ou a inexistência de Deus, e sim sua improbabilidade. Aqui, estamos diante de uma abordagem um pouco diferente. Acho-a habilidosa. E, do meu ponto de vista, Dawkins utiliza argumentos bem interessantes para explicar essa improbabilidade. Alguém pode defender, como um economista, por exemplo, que é preciso medir a probabilidade para provar a improbabilidade. Acho que não precisamos ir tão longe. Além do mais, a mensuropatia guarda, muitas vezes, uma relação mais próxima com a magia do que sonha nosso vão positivismo.

Mesmo achando interessante, acho ainda muito vulnerável a posição de Dawkins ao discutir Deus do ponto de vista da sua maior ou menor probabilidade. Além do mais, aqui não se nega Deus, pois Ele ainda existiria como improbabilidade. Defendo que o verdadeiro terreno de discussão não seja a ciência e sim a filosofia. Claro, argumentos filosóficos podem se nutrir de evidências científicas, mas o contexto discursivo é outro. Inclusive, aqui, os materialismos e algumas formas de realismo têm uma vantagem em relação à teologia: esta possui uma dificuldade em utilizar dados científicos para balizar seus argumentos filosóficos. Afinal, como utilizar argumentos imanentes para uma argumentação transcendental? Sinceramente, não dá.

Outra crítica a Dawkins é a seguinte e bem pessoal: ele respeita demasiadamente o nome de Deus, talvez por causa do contexto político da discussão nos EUA. Deus é o nome de uma entidade transcendental ou sobrenatural (prefiro essa última designação). Nesse sentido, não se distingue de outras entidades, como deuses, demônios, duendes e fadas. É um preconceito etnocêntrico colocar a discussão sobre o Deus cristão como superior filosoficamente ao debate, por exemplo, sobre a maior ou menor probabilidade da existência de Yemanjá. Se Deus existe, tudo é possível, inclusive Papai Noel. Acho que o problema é outro: qual é a pertinência filosófica de uma esfera transcendental ou sobrenatural? Digo logo e, pela pressa, assumo meu sectarismo: nenhuma. Só concebo transcendência na imanência (o que torna a transcendência humana, relativa, parcial e histórica). Vivemos filosoficamente num imanentismo absoluto. Como já disse um filósofo cheio de furúnculos: tudo é história.

Enfim, gosto de ateus militantes como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris. Ainda acho todos eles inferiores a um Bertrand Russel, um filósofo de mão cheia, por exemplo, mas não nego minha simpatia. Algumas vezes, contudo, o ateu tem uma propensão, quando desiste do ateísmo, ao deísmo. Vira um trânsfuga e passa a acreditar na identidade entre Razão e Deus.  O deísta acredita num Deus inteiramente derivado da Razão (o que, filosoficamente, pode ser interessante), mas que se ausentou do Universo após a Criação (o que, humanamente, é um tanto patético).

Abaixo, um vídeo interessante de Sam Harris (vejam seus livros aqui). Depois, volto com uma estorinha.

Lembrei-me de uma estorinha de farra entre Freud e Orravan (personagens antigos desse blog). Pra quem não sabe, os dois foram grandes amigos e alguns biógrafos acham que foi Orravan quem descobriu a noção de inconsciente. Tudo porque Freud inventou a psicanálise quando estava escondido de Orravan (um cara que não suportava discutir durante muito tempo, resolvendo as polêmicas na porrada) justamente atrás da cristaleira tcheca de sua mãe. Há provas de que foi atrás da cristaleira que Sigmund descobriu o Complexo de Édipo — ali, embriagado de recalques, desejou a mãe e quis matar o pai, Leidag.

Pois bem, um dia, na juventude, os dois entraram num bar belga para tomar leite de gironda, uma bebida estranha que causava uma aguda vasodilatação cerebral. Entraram no bar, mas onde estava o garçom?

_Não tem garçom nesse bar — disse com convicção empírica, Freud.
_Não há bar sem garçom — falou, ainda mais convicto, Orravan.
_Talvez, mas nesse bar, em especial, não há garçom.
_Não é possível um bar belga sem garçom. Vamos esperar um pouco.

Esperaram meia-hora. Freud estava feliz. Adorava contrariar Orravan. Adorava estar certo: aquele bar não tinha garçom. Mas essa atitude era temerária, pois Orravan detestava quando Freud acertava uma. E dava nos nervos aquele risinho de sarcasmo de Sigmund.

_O garçom é invisível — disse Orravan, olhando de forma desafiadora.
_Invisível?! Como invisível?! Um garçom belga invisível? Isso é muito improvável.
_O improvável não é o impossível.
_Certo, mas…
_Proponho uma experiência.

Freud caíra na armadilha. Orravan sabia que ele amava fazer experiências. O cara virava um abelha diante de um tonel de mel. Se fossem experiências com hamsters, aí então Sigmund pirava de vez.

(pra quem não sabe, as primeiras sessões psicanalíticas foram com roedores. O homem dos ratos, por exemplo, foi um eufemismo para um hamster muito querido, e muito neurótico, de Freud).

Cercaram o interior do bar com sensores elétricos e magnéticos. Se tivesse um garçom qualquer, mesmo um belga, seria detectado. Os sensores, inclusive, davam choques elétricos. Esperaram um tempão, mas nada aconteceu, porém.

_Viu?! Não tem garçom.
_Pode ser que estejamos diante de um garçom invisível, intangível e tolerante a choques elétricos. Ah, sim, provavelmente, não fede nem cheira, já que não tem odor algum nesse bar.
_Não tem como verificar empiricamente a existência de um garçom invisível, intangível e tolerante a choques elétricos, logo, imperceptível.
_Problema teu. Você não conseguiu provar que não tem garçom nesse bar.

Ah, como irritava Freud esse sofismo de Orravan.

_Mas me diga uma coisa, meu chapa: qual a diferença entre um garçom que não existe e um invisível, intangível e tolerante a choques elétricos, logo, imperceptível?
_Ora, a sua existência!
_Oxe, rapaz, afirmar algo implica negar a negação de algo. Toda afirmação implica a negação de tudo o que nega a sua verdade.
_É papo retórico de tua parte. Você não consegue provar que o garçom não existe e vem com esse papo!
_Entre um garçom que não existe e um invisível e imperceptível, não há negação alguma. Diante dessa situação, finda a proposição “o garçom existe” não passando de uma pseudoproposição. Ela, no fundo, não nega nada, logo, não significa nada e nada afirma.
_Pois acho que os desígnios desse bar são inescrutáveis.
_Pois tua afirmação é um enunciado que nada significa ou afirma.

Freud meneou a cabeça. Sabia que Orravan só queria uma provocação para lhe dar uma surra. E, naquele bar, não existia uma cristaleira tcheca para se esconder. Preferiu, assim, recuar. Olhou uma garrafa de leite de gironda no balcão e apontou.

_E aquela garrafa ali existe?
_Claro, é óbvio que existe. E não é invisível como o garçom desse bar.
_Bem, enquanto esperamos o garçom aparecer, podemos bebê-la.
_Bora lá. De todo modo, deixarei a gorjeta do garçom aqui no balcão. Mesmo invisivel, todo garçom aparece para buscar sua gorjeta.
_Duvido muito. Saúde!
_Ah, não seja pessimista. Saúde!

DimasLins
  1. Esse Orravan está parecendo o peru indutivista de Bertrand Russell. Sou mais Freud, que conseguiu demonstrar a existência do inconsciente sem precisar recorrer à observação direta.

    Quanto aos seus queridinhos, tem uma conferência fantástica (“materialismo e teologia”) de Zizek, o filósofo pop, sobre o estranho fenômeno que acompanha o aumento do fundamentalismo religioso: a popularidade do quarteto Dawkins, Dennett, Harris e Hitchens. O cara dá um banho, especialmente quando discute as ideias de Ratzinger. A propósito, Habermas também tem uma discussão muito legal com Bento XVI sobre educação e religião. É outro nível de discussão. Faz a gente sentir vergonha alheia de Dawkins et al.

    Vê aí: http://www.youtube.com/watch?v=G9S3vvPe9IM&feature=PlayList&p=8517CE01C1CAA834&playnext_from=PL&index=0&playnext=1

  2. acreditar no santa cruz não faz com que a gente necessariamente acredite em deus. mas faz com que a gente acredite em macumba, cabeça de burro, encosto e o diabo a quatro.

  3. André Tricolor Virtual

    Poxa, existe igrejas para Ateus Praticantes, e as orações são para quem?

  4. Freud estava escondido atrás da cristaleira tcheca quando descobriu o inconsciente. Há claros indícios de que a descoberta foi empírica. Tinha uma barata gigantesca e voadora na hora…

  5. E voou direto no pescoço de Freud, que deu gritinhos e agitou os braços. Depois, abalado com o próprio comportamento, começou a elaborar a idéia de um inconsciente comandando parte das nossas ações. Até porque ele precisava de uma boa explicação para aquele espetáculo todo que ele deu por conta de uma mísera barata.

  6. Era um baratossauro, com asas de pterodáctilo. Ao berros, Freud gritava: _é o ID! É o ID! Ninguém entendeu, mas foi justamente aí que Sigmund construiu a segunda tópica do psiquismo. Foi outra descoberta sem observação direta, já que Freud não conseguia nem olhar direito o ID. Fechava os olhos, toda vez que via o baratossauro.

  7. O recalque, a opressão simbolizada pela vulva materna, o complexo de édipo, tudo veio do baratão.

    • Pronto, chegamos enfim à famosa tese de Orravan: a barata, na escatologia freudiana, seria a vulva primeva. Orravan sabia que as vulv… as baratas voadoras deixavam Freud completamente histérico.

      É por isso que Freud sempre se recusava a fazer o teste de Rorschach. Só fez uma vez e foi um desastre. Orravan mostrou a primeira prancha, e Freud ficou mudo; seus olhos esbugalharam; choramingou; tremeu até. Quando seu fraterno amigo mostrou a segunda prancha, Freud deu gritinhos e agitou os braços. Seu rosto exalava terror. Depois, teve um colapso nervoso e não falou mais do assunto.

      Numa entrevista, já velho, afirmou que o teste Rorschach era uma “pseudociência”.

  8. Como o Teste Rorschach foi utilizado por alguns oficiais da SS para verificar se alguns cidadãos eram judeus, o método acabou condenado e sucumbiu sob o manto escuro do esquecimento.

  9. Os judeus viam baratas?

  10. Não, Artur, os judeus, na verdade, viravam baratões gigantes e suas mães jogavam maçãs podres em suas carapaças. Isso os fazia perseguí-las dia e noite, em busca de reconhecimento e de amor. Foi assim que Freud descobriu o complexo de Édipo. Era por causa dele (do complexo), que Freud gritava toda vez que via uma barata: a visão lhe gerava uma sensação horrível de estranhamento do familiar (que ele mais tarde identificou com o conceito de Unheimlich), trazendo o retorno do recalcado.

    Agora, me admira que você queira comparar uma teoria tão engenhosa como essa com as barbaridades de Dawkins.

  11. Cynthia tem razão.

    Baixando o nível…

    http://www.youtube.com/watch?v=HIL8Kdkyhkc

  12. Haha! Ai, que nojo…!

  13. Artur continua com chiliques diante de animais minúsculos e inofensivos?

  14. Como animais minúsculos e inofensivos?! Os baratossauros têm garras!

  15. Imaginem o encontro de Artur com uma dessas (comparem com a formiga que está na parte superior da foto).

    http://i.olhares.com/data/big/134/1346044.jpg

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