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XLIII – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

5 comentários

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(lana caprina)

43º CAPÍTULO

Os judeus, sobreviventes do Holocausto, ainda perambulavam pelas ruas da Europa. Os alemães civis de Dresden, arrasada pelos bombardeios ingleses, ainda não se davam conta de que teriam de reconstruir a cidade sob o comando da antiga União Soviética.

Os átomos ainda gorjeavam nos escombros de Hiroshima e Nagazaqui.

Roma, cidade aberta, mantinha-se de pé, embora sua população vivesse na maior miséria causada pelo fascismo e pela Guerra Mundial. Bandidagem solta na noite romana, acompanhada por formidável exército de prostitutos e prostitutas.

Durante o dia, as batinas dos padres e os hábitos das freiras eram quase unanimidade nas ruas.

Aparentemente, somente o Vaticano havia lucrado com a Guerra. Enriquecido, acobertando e dando fuga a criminosos nazistas, como Mengele (Brasil), Barbie (Bolívia) e Eichman (Argentina), para citar os três mais famosos, o santíssimo Estado – Nação criara a corruta Democracia Cristã, mancomunara-se com a Máfia Siciliana e ainda recebia subsídios da CIA.

Os Estado Unidos tornaram-se, então, a maior potência mundial.

Enquanto isso, este modesto sacerdote assistia às aulas sobre Teodicéia na Gregoriana em busca de um Doutorado sem objeto. Certamente, a Justiça Divina governava os acontecimentos.

Logo nos primeiros meses, minha inquietação se manifestou contra os absurdos que ouvia nas aulas, ministradas por caquéticos sacerdotes, com a exceção óbvia do Cardeal Ferrughi e do Monsenhor Lippi que se esforçavam em trazer um pouco de razão às tresloucadas doutrinas da ICR.

Não sei de qual ascendência, mas herdei o gene responsável por falar mal da vida alheia. Não me continha e, pouco a pouco, tornava-me a maior “língua de trapo” da Universidade.

Diversas vezes advertido contra tal hábito, fui chamado pelos meus dois mentores que me repreenderam severamente. Minha atitude ranzinza não contribuía em nada para a causa dos sacerdotes ateus, reunidos na Sociedade da Boa Verdade (SBV).

Ao contrário, quanto mais sectarismo de minha parte, mais visível e vulnerável se tornaria nossa causa. A SBV precisava de um grande número de Doutores e, do jeito que as coisas caminhavam, eu terminaria por ser excomungado e inútil para nossa comunidade.

Justifiquei minha postura universitária, nem tanto pelas baboseiras ouvidas, mas pela saudade do meu clã, em especial de minhas duas esposas, Madalena e Socorrinho, bem como do meu casal de filhos.

Ferrughi, então, generosamente, deu-me sua senha de entrada no Motel da Vila Borghesi, mantido pela ICR para deleite do alto clero romano. E, com tantas freiras zanzando em Roma, que eu conquistasse uma delas.

─ Diversão garantida! ─ Exclamou o Cardeal, sob o olhar preocupado e reticente do Monsenhor Lippi.

Com tal apoio explícito e solidário, abrandei minha conduta e, pelo menos, num único mês, usei umas sete vezes a senha do irmão Cardeal. Em nenhuma das sete, é verdade, convenci ninguém a fugir para minha Comunidade Palafítica.

Foi, decerto, os tempos mais difíceis que atravessei em toda a minha vida, com exceção das sete vezes. Afinal de contas, ninguém é de ferro!

Na primeira aula de Teologia Geral, choquei-me de saída com o professor, um velho dominicano belga. Segundo ele, a Teologia era a mãe de todas as ciências porque estudava a eternidade. E a eternidade era Jeová, o antigo Deus judaico da Montanha do Sinai.

Que seja! Mas a eternidade jamais foi objeto de qualquer ciência, exceto, talvez, da Psicologia Individual. O eterno simplesmente não existe, dizia em plena aula. Pura especulação do cérebro do Homo Sapiens.

Quanto à Teodicéia, isto é, à Justiça Divina, apontei ingenuamente para a leva de desabrigados nas ruas de Roma. E me calei!

O último entrevero, com os professores, resumiu-se à minha resposta ao professor de Cosmologia que disputava, aliás, a primazia das ciências com o dominicano belga.

Um Monsenhor fedorento, jesuíta canadense, com uma corcunda bem pronunciada, afirmava com a maior cara de pau que “a existência dos anjos não repugnava a razão”. Quem sabe, no Canadá, de onde vinha o padre La Chance?

Alguns colegas me incitavam a levantar questões nas aulas e comecei a suspeitar que estava sendo objeto de chacota. Lembrei-me da advertência de Ferrughi e de Lippi e tornei-me mais cuidadoso.

Com a senha do Motel Borghesi, pareceu-me mais divertido ir à luta junto com as irmãzinhas, residentes nos inúmeros conventos romanos, especialmente o de Santa Maria Maggiore, o meu território de caça predileto.

A vida na Gregoriana ficou mais leve e me acostumei a vedar os ouvidos com um chumaço de algodão. Foi, então, que o Monsenhor Lippi me chamou à Biblioteca e mostrou um telegrama da parte do Monsenhor Braguinha, meu pai:

“Consiga urgente licença para Tsé-Tsé. Dr. Quim está nas últimas e não quer morrer sem falar com nosso amado filho”.

Notícia arrasadora! Faltei ao encontro com uma freira do Convento de Santa Maria Maggiore e passei o dia arrumando minhas coisas. O avião sairia em dois dias e, novamente, estaria na Comunidade, agora, carregado de tristeza.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX
Capítulo XL
Capítulo XLI
Capítulo XLII

Torcedor
  1. Reverendo, falar mal da vida alheia está no sangue de todo brasileiro. Basta ver a quantidade de publicações dedicadas a esse assunto.

    Em suas andanças pelo Vila Borghesi seguiu a liturgia tradicional ou foi de terço bizantino?

  2. Irmão Ducaldo: Como sacerdote ateu e herege, fui de “muçu torcido e envenenado”, daqueles somente encontrados no Capibaribe. Mais importante, no entanto, seria saber a opinião da irmã Francesca do Martírio de Cristo, do Convento de Santa Maria Minore. Infelizmente, tive que voltar às pressas para minha Comunidade para atender ao chamado do Dr. Quim. Por isso, perdi de vista todas as minhas irmãzinhas das “sete visitas”. Hehehehe…

  3. Tem certeza que foram só “sete” visitas reverendo? Pela empolgação ao falar delas me parece que foram muito mais de sete… rs

  4. Irmãzinha Ana Paula: Claro! Sete é a conta do mentiroso. E eu, além de verdadeiro, sou modesto. Que tal setenta e sete? Minha bênção.

  5. Setenta e sete? Está mais condizente com a reputação do Reverendo.

    Achei o número sete meio preocupante.

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