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Onde está a dor?
Tive uma inenarrável dor de dente. E digo que sofrimento leva-nos à redenção, mas também à filosofia. Com dor, pensei e refleti muito — sobre o quê?! E eu sei lá! Aí já é pedir detalhes demais. Mas ofereço um exemplo: minha dor era “interior”, logo, passível de ser examinada pela introspecção? Ela era “mental”? Alguns neurocientistas e filósofos pareciam afirmar que sim — minha dor é interior e mental. Achei que, colocando a dor de dente como algo introspectivo e mental, diminuiria um pouco a aflição.
Na minha frente, estava uma velhinha, aparentemente sem dentes.
_A senhora não tem dentes? Perguntei. Só depois me toquei que tal pergunta, convenhamos, era um tanto impertinente. Joguei a culpa, pela gafe, na minha dor de dente.
Ela me mostrou uma dentadura toda lascada. Ela tem sorte, pensei. Não tendo essas peças duras, semelhantes a osso, que guarnecem os maxilares e mandíbula, não tem dor de dente. Como estava com dor e sem interlocução, queria conversar e passar o tempo. Perguntei:
_Onde está, afinal, minha dor de dente? Na minha mente? Dentro de onde?
A velhinha sorriu, mas não abriu a boca. Foi um sorriso discreto, até elegante, dadas as circunstâncias.
_A dor de um dente está no dente, e não na mente – disse a velhinha.
_Como é que ela, a dor, está no dente? Uma cavidade ou uma infecção não está no dente – reclamei e disse um ai como forma de pressão filosófica.
_Por que dizemos, afinal de contas, que a dor está “no” dente? Por que você não se faz essa singela pergunta? Porque, meu jovem, é o dente que dói e não a mente. Onde é sua dor de dente?
Abri a boca e apontei o culpado da dor.
_Está vendo? Você apontou para o dente doente. Não existe “dor de dente mental”. Essa expressão, inclusive, está longe de ser um recurso de linguagem, uma redundância de termos, por exemplo, que em certos casos têm emprego legítimo, para conferir à expressão mais vigor ou clareza; a expressão, na verdade, não tem nada a ver.
_Não sei… Como sentiria dor no dente, se os terminais nervosos não reagissem ao estímulo, logo, se os nervos não estivessem excitados com a inflamação, e o impulso não fosse transmitido pelo nervo trigêmeo à ponte e, depois, ao cérebro? Tire isso, e cadê a dor?
_Não acho que isso implique que você tenha dores de dente no cérebro. O cérebro não sente dores de dentes, cá entre nós – e deu uma piscadela. Aliás, o cérebro não sente, não sofre, não age, não pensa. Quem faz tudo isso é a pessoa.
_Tudo bem, mas como negar meu “interior”? Se não estivesse, aqui, no dentista, se não falasse nada, se não manifestasse, no meu comportamento, o que sinto, como você saberia que estou com dor?
_Sim, você pode esconder sua dor, mas isso significa que ela, a dor, está no seu “interior”? Você, como pessoa, está apenas ocultando a sua dor. Quando você a manifesta, não significa que sua revelação demonstre uma realidade, o seu “interior”. “Interior” e “exterior”, aqui, são metáforas. O dentista não vai lhe dizer, assim que gritar de dor: _ah, agora doeu, botou a dor pra fora, hein?! Ela foi manifestada, está no “exterior”, mas a sua dor ainda está oculta, lá no “interior”.
_Certo, provavelmente, o dentista não me dirá isso. Mas, se não tenho “interior”, sou vazio?
_Você não tem acesso a nada.
_Sou oco?
_De jeito nenhum! É só abrir você, e descobriremos belas vísceras. É só abrir seu crânio, e estarão lá os seus miolos.
Tive um calafrio, imaginando-me todo aberto e exposto. Pelo menos, não era oco. Tenho um medo patológico do vazio.
_Mas, e a introspecção. Ela não existe?
_Uma pessoa introspectiva é uma pessoa que tem uma boa capacidade de reflexão sobre si mesma. Nada além disso. Introspecção não é uma percepção, entendeu?! Não é um sentido como a visão. Não existe um olho da mente, tá ligado?!
_”Tá ligado”?!
_Aprendi essa expressão com meu bisneto. A introspecção não dá acesso a nada. Você não tem acesso a sua dor. Um bebê chora de dor; não tem acesso à dor. Ele não tem ainda a linguagem para dizer: “estou com dor”. Você, no fundo, é um cartesiano.
_Eu?! Qu’é isso! Não tenho uma concepção mentalista, nem advogo um dualismo entre mente e corpo. Acredito no cérebro.
_Pois o seu cérebro apenas substituiu a sua mente. Aposto que você faz atribuições psicológicas ao seu cérebro. Seu cérebro pensa?
_Claro que pensa. Não sou burro!
_Cérebro não pensa, não sente, não age. Quem faz isso é a pessoa. No fundo, a alma deslocou-se da mente para o cérebro.
_Não sou cartesiano, nem cristão.
_Mas tem um cérebro que pensa, que sofre e que sente.
A velhinha queria dizer que meu cérebro era um homúnculo. Era uma ofensa sutil. Ela construiu uma armadilha retórica, e caí feito um patinho. Reconhecia o fato, mas a dor não melhorava de forma alguma. Era absolutamente objetiva. Se alguém negasse isso diante de mim, matava na hora. A conversa era boa, mas não anestesiava nada. Filosofia não é anestesia, analisei. Mas gostara da velhinha — sem dentes e muito da sabida. Agora, por causa da discussão, não sabia mais onde estava a minha dor. Sabia só que estava lá, já que sentia a maldita.
A velhinha lia, nesse instante, a revista Caras. E disse:
_Leia a Caras, deixará você anestesiado, sem dor.
_Dizem que a Veja é melhor ainda.
_Mas é perigosa. A anestesia pode ser violenta. Já vi gente em coma por causa de uma overdose de Veja.
_Poxa!
_Pois sim…
A secretária chamou a velhinha. Ela deu um sorriso, sem abrir a boca, é claro. Pensei como seria com dentes, isto é, com sua dentadura nova em folha.
Peguei uma Caras e tentei me anestesiar. Era o próximo cliente.


















Artur, Scarlett está vingada. Olha que legal:
http://www.freakingnews.com/Georga-Clooney-Pictures-62565.asp
Nossa, é vingança mesmo!
E tem mais:
http://www.freakingnews.com/George-Clooney-Pictures-62607.asp
Esse site tem algumas montagens bem legais, mas há umas bem mal feitas.
Você abriu a sua caixa de ferramentas metafísicas? ou é “boismo” mesmo?
O boismo é metafísica vulgar. Pensei: como seria uma dor de dente cartesiana? A velhinha me empulhou — acho que ela é wittgensteiniana (não tem como combatê-la).
Conclusão: dor de dente transforma o mais empedernido materialista marxista em materialista davidsoniano (estados mentais são estados cerebrais).
Depois dessas fotos nunca mais enviarei Scarlett para vocês.