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XLII – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé

2 comentários

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.


(Sic et non…)

42º CAPÍTULO

─ Tsé-Tsé! Tsé! Tsézinho! Meus Deus! Minha Nossa Senhora de Bari! Sangue, sangue! Giuseppe, Giuseppe!

Deitado no chão da varanda, quase inconsciente, ouvia os berros do Cardeal Ferrughi. O forte jardineiro Giuseppe carregou-me até o quarto, no primeiro andar da mansão.

─ Genoveva, Genoveva! Rápido! Traga a bolsa de primeiros socorros e uma bolsa de gelo. ─ Urrava Ferrughi nos meus ouvidos com sua voz de barítono.

A irmã Genoveva, uma freira de uns sessenta anos e devota do Cardeal, limpou o filete de sangue de minha boca e assentou uma bolsa de gelo na minha testa para aliviar o gigantesco calombo que ali se formara. Minhas pernas doíam, e eu limitava-me a gemer.

─ Hummm! Ai, ai! Minha Nossa Senhora do Siri Mole! Não! Basta! ─ Gritava sem cessar.

─ Ainda está pesadelando! ─ Exclamou o Cardeal. ─ Genoveva! Traga dois comprimidos americanos daquela caixinha. É pra dormir.

─ Dois? É muito, Eminência. ─ Respondeu a freira.

─ Então, traga uns quatro. Não vê que o padre Tsé está agitado e angustiado? Depois, ele me conta o que ocorreu. Pelo menos doze horas de sono. Vai acordar sem dor e com uma fome desgraçada. Ah, esses brasileiros! E não arrede o pé do quarto até ele acordar. ─ Terminou o Cardeal.

─ Estava muito agitado na rede e terminou por levar uma queda. Parecia tomado pelo demônio. Gritava nomes feios, especialmente o de um padre alemão. ─ Disse Giuseppe ao Cardeal.

─ Um pesadelo, na certa! Dormir de barriga pra cima, depois de se empanturrar, dá nisso aí. ─ Exclamou Ferrughi.

Dez a doze horas depois, acordei. A dor de cabeça havia passado, o galo na cabeça tinha diminuído, mas sentia as pernas doloridas. Sentada numa cadeira, estava a irmã Genoveva.

─ Enfim, acordou, Padre Tsé. Um sono muito agitado, mas espero que tenha descansado. ─ Disse-me ela.

─ É! Mas, estou morrendo de fome. Que horas são, irmã? Tô doido pra tomar um banho e me livrar de toda essa sujeira da ICR. ─ Respondi.

─ Pra que banho, padre? Já basta o trabalho de ficar aqui o tempo todo velando o seu sono. Além disso, na Itália, ninguém toma banho. Vamos descer que o jantar deve estar pronto. E tem visita lhe esperando.

─ Mas, eu tomo! Três a quatro vezes ao dia no Capibaribe. ─ Disse a Genoveva para acentuar meus ritos higiênicos.

A irmã finalmente concordou, encheu a banheira e mandou ferver um balde de água.

─ Padre Tsé! O banho está pronto.

─ Por favor, Irmã! Queira sair do quarto que eu costumo tomar banho sem roupa. ─ Disse para a freira sessentona.

─ Não posso! Ordem de Sua Eminência. Além disso, sou enfermeira diplomada e o que vi mais durante a guerra foi soldado nu.

─ Mas, mas…!

─ Nem mais nem menos. Tire essa roupa e já para a banheira.

Despi-me desconfiado. Genoveva me olhava com interesse e eu fiquei sem saber se tratava-se de um caso de pedofilia da freira ou de sênior filia de minha parte.

Desci a escadaria apoiado numa bengala de um lado e na freira do outro, este, certamente, mais agradável.

Na sala de jantar, deparei-me com Ferrughi e com o Monsenhor Lippi que estava de visita.

─ Salve, salve, Tsé! Enfim, parece recuperado do susto. Encontraram Javier e o processo foi arquivado. Você já pode voltar para Roma. ─ Disse Lippi.

Deram-me para comer um prato de canja de galinha, enquanto os outros dois se empanturravam com um belo churrasco de carneiro. Contei-lhes o pesadelo na rede, ainda vivinho na memória. Eles riram e quase se engasgaram. Ferrughi explicou-me que os dois entraram no pesadelo por causa da brincadeira do pseudo interrogatório na Biblioteca.

─ E trate de não nos colocar novamente nos seus pesadelos. ─ Acrescentou o Monsenhor para me confortar, embora morrendo de rir.

Passamos a noite discutindo as disciplinas do meu primeiro ano de Doutorado, duas obrigatórias e duas eletivas. A primeira das obrigatórias era Teologia Geral, chamada na Cartilha da Gregoriana de “Mãe de todas as Ciências”. A segunda era Cosmologia que, estranhamente, era chamada de “A Ciência do Tudo”. Já esperava pelas eletivas; Teoria Arquivística, ministrada pelo Monsenhor Lippi, e “Os Anjos na Antiguidade”, a cargo do Cardeal Ferrughi.

No segundo ano, cursaria Teologia Especial (dividida em Cristologia e Mariologia), Teodiceia (isto é, a Justiça Divina!) e, novamente com Lippi, Prática de Arquivos, e, com Ferrughi, Os Anjos na Idade Média.

Brincadeira de menino bobo, pensei. O pior seria o tédio e a saudade que sentia do meu clã.

Ferrughi já havia escolhido o objeto de minha tese e nada pude argumentar. Escreveria cerca de mil páginas sobre um assunto palpitante ─ e não resolvido ─ da Idade Média. Tratava-se de uma célebre questão teológica da ICR: “quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete?”.

Aceitei tudo o que meus orientadores acadêmicos me impunham. Lá por dentro, fazia mil planos para fugir de Roma e voltar para minha Comunidade.

E que se danasse o tal Doutorado Canônico!

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX
Capítulo XL
Capítulo XLI

Torcedor
  1. Eheheheh! Eu não conhecia Nossa Senhora do Siri Mole.
    Onde se deu a aparição?

    A grade curricular desse doutorado me deixou com urticária.

  2. André Tricolor Virtual

    Eita … E não tem cadeira sobre “Pentateuco e os Profetas” ? Nossa Senhora do Siri Mole deve ter se criado lá nas Palafitas de Jerusalém, mais tarde presidiu o bloco ‘Siri na Lata com Fé’ …

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