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É bom mudar
Lúcio Medras é um financista. Ganha muita grana especulando no mercado de galináceos. Odeia quem faz críticas econômicas ao mercado financeiro.
_Trabalho demais. Mereço o que ganho. Preguiçoso é servidor público.
_Eles ganharam 30% de aumento durante a gestão Lula — disse um espirito porco.
_Isso é absurdo! Quebra o país! Por isso, não se faz poupança nesse país.
_E o crescimento?
_Crescer 5%?! Estamos lascados. O país não aguenta crescer desse jeito. O consumo vai devorar tudo. Vai quebrar. É irresponsabilidade do governo Lula.
_Qual é o ideal?
_O ideal é não crescer. Ficar no ponto zero do mercado financeiro. A estagnação positiva. Poupança por todo lado e crescimento zero.
_?…
_Estou brincando, viu?! Não sei o ideal, só sei que não podemos crescer desse jeito, senão quebramos. O governo Lula gasta demais. Repito: 30% de aumento para os servidores públicos é um absurdo.
_E a crise?
_Que crise? Lula teve muita sorte. A crise chegou tarde demais para abalar qualquer coisa. O governo não reconhece que tivemos um tempo sensacional de bonança financeira. Foi isso que sustentou o país. E veja o detalhe: não crescíamos a 5%!
_E a Grécia?
Medras ficou aturdido com a singela pergunta. O espírito de porco notou uma pequena e vagarosa lágrima caindo de seu olho direito e deslizando pela sua face gorda. Achava-a, além de gorda, meio gordurosa.
_O único papel ético do Estado é evitar a insolvência dos mercados financeiros. É um dever cívico, pois evita o desastre. Ninguém entende isso. Sem o Estado ajudando, como garantir o crédito fácil a quem não tem condições de pagar? Veja, você pensa que sou egoísta, mas falo dos trabalhadores que têm acesso fácil ao crédito. Isso é bom, mas precisa ter a garantia do Estado.
_E isso é ético?
_Justamente, pois ajuda a quem não pode se ajudar. Os safados, provavelmente servidores públicos, chamam isso de “farra bancária”. Mas nós merecemos um bônus como compensação pelo trabalho de reajustar o mercado. Serei duro, mas é a pura verdade: a culpa da crise, no fundo, é das pessoas comuns que não sabem como funciona o mercado. Se soubessem, não fariam as loucuras que fizeram. Defendo até que, ao invés de filosofia e sociologia no segundo grau, deveriam ensinar educação financeira.
_Seríamos todos financistas. É uma bela utopia.
_Teríamos mais segurança, fique sabendo. Segurança é fundamental. Defendo a liberdade total para as finanças, mas sem segurança, não dá, né?!
_As pessoas comuns jamais entenderiam essa proposta. Elas pensam que segurança é uma questão de polícia e não de mercado.
_Elas precisam, isto sim, é pagar seus impostos e, inclusive, saber que é necessário baixar seus salários…
_E aumentar o salário do funcionalismo público…
_… é um absurdo!
Seus olhos estavam rútilos de raiva.
_Mas o governo Lula não foi bom?!
_Foi, sim. Ele nos ajudou bastante, é fato. Mas é nitidamente insuficiente. Gasta demais e dá aumento absurdo para servidor público. Assim não dá. Ele foi bom, mas tem que mudar. É bom mudar. E Mercosul não dá, né?! — E deu uma piscadela.
O espírito de porco despediu-se de Lúcio Medras. Adorava conversas desse tipo. Não negava a imbecilidade do raciocínio. O que lhe importava era a profunda realidade da situação. Medras acredita profundamente no que faz. Sua vontade é o real. E o real é poder. E o Poder é o Mercado. Era a personificação do famoso Teorema de Thomas: “se os homens definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências”.
E, sim, sempre é bom mudar.

















Esse sobrenome é de propósito? Basta inverter as letras.
Quem seria Sardem? De todo modo, lembro que meu inconsciente gosta de me pregar peças. É a escrita boia…
Não, Artur.
Não expliquei direito. Medras; troca a posição do “r” com o “d”
Aaah…
Como te disse, minha consciência é uma ilha esquecida no oceano do meu inconsciente. Segundo um certo freudismo, dinheiro é merda. Pois é…