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Antropologia x Veja: a guerra continua
Pesquei mais um capítulo da guerra entre a antropologia e a Veja, aqui. Bem, a Veja é contra demarcação de terras, contra direitos indígenas, entendidos como a “farra da antropologia oportunista”. A Veja quer mostrar que não existem… índios (ou, pelo menos, índios dos tempos da Descoberta — esse é o índio do senso comum de seus jornalistas). Mas, o que, para a revista, revela “ser índio”? Ora, um esquema bem paranóico, entre ONGs internacionais, antropólogos e o Governo Federal, que pretende extinguir a grande propriedade privada no meio rural brasileiro. Em suma, acabar com Kátia Abreu. Como? Por meio da demarcação de terras indígenas e de terras de quilombo, além da criação de unidades de conservação.
A Veja pretende, de forma nada sutil, reduzir a discussão indígena a uma invenção de um movimento social. Sendo invenção, não existe, e como a revista faz a criminalização dos movimentos sociais, temos assim, diante de nós, uma típica postura ultra-reacionária: negacionismo e exclusão de segmentos sociais brasileiros.
Lembro, agora, de outro absurdo da Veja, de outro ataque às ciências sociais e humanas. A Veja é contra, radicalmente, o ensino de sociologia e filosofia no segundo grau. Numa reportagem e, várias vezes, num blog de esgoto, reduziu a sociologia a uma vulgata do marxismo. Ensinar sociologia equivaleria a ensinar os alunos a fazer revoluções. Com o ensino sociológico, haveria uma sublevação do segundo grau contra o status quo. Teríamos adolescentes derrubando bastilhas, atacando palácios de inverno e, quem sabe, destruindo redações de jornalismo da Abril.
O que incomoda tanto a Veja em relação às ciências humanas? A crítica. Como tal, é um valor moral para as ciências humanas; mas, para a revista, a crítica é um perigo à ordem social. Identifica crítica à revolução, ao niilismo, à subversão, e por aí vai. A vulgarização da sociologia esconde, na verdade, uma ojeriza a toda e qualquer proposta de reforma política e social. Inclusive, na crítica, a Veja já encontra pronto e acabado o programa de reforma política e social da sociologia: o comunismo.
É um discurso de guerra fria, mas que recorre a uma retórica reacionária bem antiga:
- tese do efeito perverso: toda reforma política e social da ordem existente produz efeitos estritamente inversos ao planejado;
- tese do fracasso inevitável: toda reforma política e social do status quo está fadada ao fracasso;
- tese da anomia societária: toda reforma política e social coloca em perigo ou, simplesmente, destrói aquisições da civilização e da tradição. (Resumi de forma rápida e blogueira as teses de Hirschman: “a retórica da intransigência”)
A retórica reacionária da Veja faz parte de uma linhagem antiga, ainda que nas condições atuais e vulgares da extrema-direita brasileira, tendo suas raízes nos discursos do Ancien Régime contra o Iluminismo.
Lá vai:
Carta original do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro à revista Veja:
Ao Editores da revista Veja:
Na matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” . Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de “montado” ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante. Grato pela atenção,
Eduardo Viveiros de Castro
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Resposta da revista Veja
“No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”
3 de maio de 2010
O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro enviou a VEJA uma carta – divulgada amplamente na internet – sobre a reportagem “A farra antropológica oportunista”, publicada nesta edição da revista. Na carta, Viveiros de Castro diz: “(1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.
Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.
Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto (“Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante” e “pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante”).
O antropólogo Viveiros de Castro pode não corroborar integralmente o conteúdo da reportagem, mas concorda, sim, como está demonstrada em sua produção intelectual, que a autodeclaração não é critério suficiente para que uma pessoa seja considerada indígena. Abaixo, a íntegra do texto que ele autorizou que VEJA usasse da forma que bem entendesse.
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Tréplica do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro
Aos Editores da revista Veja:
Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria “A farra da antropologia oportunista”, o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.
Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: “(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.
Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:
(1) “Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.”
Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem.
Não “recomendei a leitura” de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter “autorizado Veja” a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a “usar de maneira sintética” esse texto, observo que, além de isso “não condizer com a verdade”, certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só não se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.
Veja contesta o segundo ponto com o argumento:
(2) “Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto (“Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante” e “pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante”).” Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto “da forma que bem entendesse”.
Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a “usar” o texto da forma que ela “bem entendesse” parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que “sintetizavam” o texto. Esse arrogante “da forma que bem entendesse” não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.
Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração “Só é indio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”. Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletividade) “ser índio”. A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.
A afirmação “só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original” é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem “ambientes culturais originais”; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser “original”, nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o “ambiente cultural original” dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruido meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental.
A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que “ser índio” é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV — só que isso se chamou “Renascimento” e não “farra de antropólogos oportunistas”. Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.
E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?
Grato mais uma vez pela atenção
Eduardo Viveiros de Castro
antropólogo – UFRJ

















Fiz uma leitura “dinâmica” do texto de Viveiros de Castro, e não fiquei nada supreso ao descobrir que ele tem toda razão.
A veja montou uma matéria com frases deslocadas do contexto original para dar a entender que o antropólogo escreveu…. exatamente o que ele não escreveu.
Típico.
Ainda bem que existe internet para divulgar as maluquices da mídia…
Veja já não me impressiona há tempos. Se tiver de lê-la será pela ótica da comédia, ainda que ela seja uma piada de mau gosto.
O antropólogo é feliz quando fala da arrogância da frase “(usar o texto) da forma que ela bem entendesse”. Ela é, antes de tudo, hilária. Mas, no geral, sugere atribuir á revista um poder que ela não tem: o de modificar o sentido de uma frase em nome da síntese do pensamento.
Dimas LIns
Qualquer pessoa que leu uma folha e EVC saberia que essa frase atribuida a ele é absurda. O problema é que todo mundo leu essa materia da veja, onde ele não mente só na declaraçao do Eduardo, mas também nos dados sobre a proporçao de terras indigenas no Brasil, mas será que a resposta do antropologo vai ser lida por todos? Acho que esse antropologo tá sem oportunidade de se defender. Isso deveria gerar um processo.
concordo c/ Viveiros de Castro. Quando afirma “Que voltem aos bancos da escola”.
É verdade. As respostas nunca são lidas por todos, e pior, costumam ser “editadas” por problemas de espaço.
É bem capaz darem um jeito para a resposta dele ser um de acordo com a matéria da Veja.
Processo nela.
Concordo com os comentários acima. Isso não é jornalismo, é crime e infelizmente essa “revista” tem feito o que quer com as informações que utiliza e com os fatos que publica, aplicando distorções inacreditáveis! Inacreditáveis para aqueles que possuem aquela imagem de que a mídia é a defensora da verdade e da ética, de tudo que é bom pro ser-humano e bla´, blá, blá… que é a visão que, na minha opinião, é partilhada pela maioria das pessoas nesse pais, inclusive por mim, até um tempo atrás. É triste a imagem que essa revista possui de portadora da verdade, investigadora bem sucedida!!! Muita gente confere credibilidade indispensável à Veja e à mídia, como se sua atuação e seus princípios éticos fossem inquestionáveis.
Pelo menos o acesso à internet, como comentado acima, tem sido ampliado, e as pessoas têm tido contato com informações e opiniões alternativas; apresentadas ao debate e à crítica, manifestações que antes não tinham tanto espaço.
Bom, eu não leio a Veja por mera questão higiene.
Mas parece óbvio que, como é do hábito dessa mídia, a materia foi produzida por encomenda.
Com as decisões mais recentes do STF sobre Raposa-Serra do Sol e sobre o arquivamento da súmula vinculante que pretendia impedir a demarcação de terras indígenas ( http://www.coad.com.br/index.php?class=interface_frontend&method=frontend_noticia_detalhe&id_setor=19&id_noticia=25366 ), não é difícil suspeitar quem está desesperadamente tentando conduzir uma orquestração midiática e encomendou a matéria: a Confederação Nacional da Agricultura (da senadora demista Katia Abreu), obviamente.
Concordo totalmente.