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Primeiro de maio: o dia em que o rio transbordou
Brecht: “Do rio que transborda, arrastando e destruindo tudo à sua volta, diz-se violento. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem”
Hoje, é o dia do trabalho. Como estou num processo acelerado de esquerdização, sentindo saudade de meus tempos de bolchevique, sonhando com fogueiras de banqueiros e burgueses, ardendo durante um luar na Praia de Intermares, resolvi homenagear os mártires de Chicago.
A luta era pela redução da jornada de trabalho. Era o ano da Graça de Nosso Senhor de 1886; o mês, maio. Na época, a jornada média nos EUA era de 15 horas diárias. Maio era o mês no qual acontecia a maioria das renovações dos contratos coletivos de trabalho nos EUA. Foi marcada uma greve geral. Contra as expectativas, foi um sucesso: mais de 5 mil fábricas paralisadas, cerca de 340 mil operários protestando nas ruas, uma confusão dos diabos.
A solidariedade de classe atuou na hora: a burguesia formou milícias armadas, o governo federal acionou o exército e a Globo, ops!, desculpem o erro, a mídia da época perdeu a cabeça — o Chicago Tribune esbravejava:
O chumbo é a melhor alimentação para os grevistas. A prisão e o trabalho forçado são a única solução possível para a questão social. É de se esperar que o seu uso se estenda
E tome chumbo. E tome resistência. Em quatro de maio, na Praça Haymarket, uma bomba explodiu e matou um policial e feriu sete (todos morreram, posteriormente). Quem explodiu a bomba? Até hoje, não se sabe. Provocação? A greve virou uma batalha campal e uma carnificina: no total, 38 operários mortos e 115 feridos. Se não havia pretexto para um intervenção ainda mais dura do governo, a explosão da bomba foi o álibi: toque de recolher, estado de sítio, sindicatos proscritos, prisão de 300 lideranças da greve e ocupação militar dos bairros operários. Uma vez liberada, a sanha da repressão tomou conta: interrogatórios ilegais, tortura, terror. No final, acharam oito bodes expiatórios: Auguste Spies, Adolf Fisher, George Engel, Albert Parsons, Louis Lingg, Samuel Fielden, Michael Schwab e Oscar Neebe. Foram levados a julgamento. Eram perfeitos. Eram anarquistas. Eram os “oito mártires de Chicago”.
Como previsto e planejado, o julgamento foi uma farsa. Foi formado um Tribunal Especial, e o juiz Joseph Gary acusou o Foro de São Paulo, ops!, desculpem outra vez, os oito anarquistas de fazerem parte de um complô mundial contra os EUA. O objetivo era claro: incriminar os acusados. Após uma série de manipulações, Spies, Fisher, Engel, Parsons, Lingg, Fielden e Schwab foram condenados à morte e Neebe pegou 15 anos de prisão. Houve protestos e mobilizações contra o arbítrio, e comutaram as penas de Lingg, Fielden e Schwab para prisão perpétua.
Spies, Fisher, Engel e Parsons foram enforcados. Lingg, um dia antes, morrera na cela, misteriosamente. A polícia alegou suicídio. É o discurso secular da repressão. Os brasileiros conhecemos bem esse tipo de procedimento. Lingg matou-se, assim como se matou Herzog. Repressão é repressão em qualquer lugar e época do mundo, mártires é que são diferentes. Os cinco enforcados foram enterrados num cortejo que reuniu 25 mil operários.
Seis anos depois, revisaram o processo. Não havia crime: “tinham sido vitimas inocentes de um erro judicial”. Os erros judiciais sempre acontecem de forma interessada. E são revistos quando o sangue já está seco. Mas, se de tudo fica um pouco, sobra a memória e a homenagem póstuma. Não é o ideal, nem o mais justo, é o que resta.
Os sobreviventes foram soltos. Em 1890, o governo americano regulamentou a jornada de oito horas. Um ano depois, a Segunda Internacional instituiu o Primeiro de Maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores:
“no dia 1º de Maio haverá demonstração única para os trabalhadores de todos os países, com caráter de afirmação de luta de classes e de reivindicação das oito horas de trabalho”
Toda essa história é bem conhecida. Sabia de cor. Sempre rodopiaram na minha cabeça, os discursos dos quatro condenados, proferidos antes do veredicto fatal. Eles têm uma função profilática. No fundo, avisam-me: _nunca se esqueça, nunca se esqueça… O esquecimento é o maior perigo. É o que limpa o sangue. Deixa tudo aparente. A realidade fica tão branca que ofusca. Sem seus mortos, os vivos fenecem. E esquecemos “les splendeurs situées derrière le tombeau”. Lembro-me de seus discursos quando me acho letárgico demais, contemporizando em demasia, reconciliado com a realidade, indiferente diante da miséria e da injustiça do mundo.
August Spies, 31 anos, diretor do jornal Diário dos Trabalhadores.
Se acreditais que enforcando-nos podeis conter o movimento operário, esse movimento constante em que se agitam milhões de homens que vivem na miséria, os escravos do salário; se esperais salvar-vos e acreditais que o conseguireis, enforcai-nos! Então vos encontrarei sobre um vulcão, e daqui e de lá, e de baixo e ao lado, de todas as partes surgirá a revolução. É um fogo subterrâneo que mina tudo.
Adolph Fischer, 30 anos, jornalista.
Se tenho que ser enforcado por professar minhas idéias, por meu amor à liberdade, à igualdade e à fraternidade, então nada tenho a objetar. Se a morte é a pena correspondente à nossa ardente paixão pela redenção da espécie humana, então digo bem alto: minha vida está à disposição. Se acreditais que com esse bárbaro veredicto aniquilais nossas idéias, estais muito enganados, pois elas são imortais.
George Engel, 50 anos, tipógrafo.
Em que consiste meu crime? Em ter trabalhado para a implantação de um sistema social no qual seja impossível o fato de que enquanto uns, os donos das máquinas, amontoam milhões, outros caem na degradação e na miséria. Assim como a água e o ar são para todos, também a terra e as invenções dos homens de ciência devem ser utilizadas em benefício de todos. Vossas leis se opõem às leis da natureza e utilizando-as roubais às massas o direito à vida, à liberdade e ao bem-estar.
Albert Parsons, 39 anos, sindicalista e anarquista (talvez, a figura mais fascinante: lutou contra a escravidão, lutou na Guerra Civil Americana, lutou até o fim):
Acreditais que quando nossos cadáveres tenham sido jogados na fossa tudo terá se acabado? Acreditais que a guerra social se acabará estrangulando-nos barbaramente. Pois estais muito enganados. Sobre o vosso veredicto cairá o do povo americano e do povo de todo o mundo, para demonstrar vossa injustiça e as injustiças sociais que nos levam ao cadafalso.




















