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Os coroinhas de Deus
O padroeiro dos coroinhas… bem… er… não se sabe o que aconteceu.
Dizem que saiu assim depois de uma visita do Papa Dâmaso I
Por Tsé-Tsé,
Desculpem minha ausência prolongada. Não perdi a memória, mas tive que ajudar a Comunidade a cercar de arame farpado nossas palafitas, a colocar cruzes invertidas em lugares estratégicos, a pendurar cascas de ovos na ponta das estacas ─ ovos brancos para os padres e cremes para os pastores e leigos ─ e a plantar algumas armadilhas de urso, especialmente adaptadas a sacerdotes pedófilos. Tudo isso para proteção de nossas crianças, especialmente os meninos.
Na entrada da Comunidade, Dr. Quin Jr colocou um enorme ovo de avestruz. Contra, ninguém sabe. Mas, ele mesmo disse que a célebre frase, “vinde a mim as criancinhas e não as impeçais”, estaria sendo mal interpretada.
─ Quinzinho! Cuidado com essas coisas. ─ Disse-lhe.
─ Bobagem, Tsé! Na dúvida, é bom se prevenir. ─ Respondeu-me.
─ E aquela casca de ovo rubro-negra? ─ Perguntei-lhe, espantado.
─ Ora, Tsé! Trata-se de uma profanação, é verdade. Mas soube que o Monsenhor pedófilo de Arapiraca é torcedor da Coisa. ─ Respondeu.
─ E, por acaso, não existe um padre recifense, cheio de trejeitos, que é torcedor do Santinha? ─ Indaguei.
─ Existe! Mas isso é outra coisa. Questão de preferência sexual e a gente não tem nada a ver com isso. Como nosso clã das florzinhas, por exemplo. Agora, o que não entendo muito bem é esse negócio de pedofilia dos padres, com tanta gente adulta por aí.
─ Ora, Quinzinho! Você já mencionou a frase do Divino Mestre e que é mal interpretada pelos padres romanos. Mas, em minhas reflexões teológicas, levantei mais três hipóteses explicativas. Quem sabe?
─ Diga logo que estou muito curioso, Tsé.
─ Veja bem! O culto ao chamado “Menino Jesus” começou bem cedo entre os cristãos. Não é por acaso que há tantas iluminuras medievais e pinturas renascentistas sobre o assunto. O grande pintor Raphael, por exemplo, que adorava criancinhas e adolescentes, retratou lindos bebês gorduchinhos. E isso provocava o maior tesão entre os seminaristas e padres da época. ─ Comecei minha aula de história.
─ Ora, Tsé! Daí para a pedofilia, é um salto muito grande. ─ Observou o Dr. Quin, Jr.
─ É verdade! Mas o hábito faz o monge. De tanto olhar, chegou o desejo. Na Renascença ─ época de explosão da libido ─ inventaram a figura do Coroinha, em geral adolescentes das aldeias, entre dez e dezesseis anos, e que se afeiçoavam bastante aos párocos. Como os jovens aristocratas atenienses com seus mentores. O Coroinha representou, exatamente, o salto que você exige. ─ Retruquei. ─ Mas me deixe continuar:
─ Porém, aquilo só começou a ocorrer depois da nefanda instituição do celibato, talvez a maior perversão sexual inventada pela ICR. Mas o celibato foi apenas o estopim, e não a causa real. Dessa forma, o “Menino Jesus” começou a ser substituído pelo Coroinha, como objeto de desejo. Além do mais, o “Menino Jesus” representava a sublimação simbólica do desejo recalcado. Era um ícone, nada mais. Os coroinhas, principalmente os rechonchudos, ah, esses eram de carne e osso, palpáveis e… comíveis!
─ E a segunda hipótese, Tsé? ─ Disse Quinzinho bastante interessado no assunto.
─ O óbvio, o óbvio! Quando Constantino, o grande Imperador assassino, fundou a ICR, o culto de Ísis foi totalmente extinto. Ora, é característica do patriarcalismo, ainda hoje, a sublimação da mulher. Os maridos sempre acham suas esposas umas santas. E fazem o mínimo com elas, isto é, filhos. O resto, deixam para os prostíbulos. A mulher vira objeto sexual, seja santificado pelo matrimônio, seja pervertido com as coitadas das prostitutas. ─ Continuei.
─ Não entendi nada! ─ Exclamou Quinzinho.
─ Não me interrompa, por favor. É preciso muita reflexão para tratar desse assunto. ─ Reclamei de nosso Curandeiro. ─ E prossegui:
─ Preste bem atenção, Quinzinho! O culto à Virgem Maria, não importando se ela era, real ou falsamente, uma virgem, substituiu o culto a Ísis. No caso, Maria era uma figura mais concreta e forte diante dos cristãos, especialmente a partir da Idade Média. E, contudo, como mulher, tinha que ser sublimada e não havia como manter relações com a mãe de Nosso Senhor. Não ficava bem, né, Quinzinho?! E, novamente, entra o coroinha como substituto e paliativo para o desejo dos padres. Se não podiam com a Santíssima Virgem, podiam com os coroinhas em plena Sacristia, depois da missa. Esse é meu segundo degrau explicativo.
─ E o terceiro, e o terceiro! ─ Exclamou excitado o provecto Dr. Quin.
─ Trata-se da hipótese teológica mais difícil de compreender, pois remonta à nossa pré-história, isto é, o hábito de comer carne. Ora, a ICR decretou que não havia nada de simbolismo na Eucaristia. A hóstia transformava-se, real e concretamente, na carne de Nosso Senhor. Assim, os padres são obrigados a comer, de fato, a carne e beber o sangue do Cristo quase diariamente. Mas a transubstanciação criou uma lacuna entre a fantasia e a realidade.
─ Como assim? Na minha opinião, isso só estimula o canibalismo. ─ Disse, espantado, o Dr. Quin, Jr.
─ Não é bem assim, Quinzinho. Veja bem! Na missa, come-se a carne real com gosto de nada. Além do vinho, que inicia muitos padres no alcoolismo. Da mesma forma, aliás, como inúmeros médicos anestesistas sob o efeito constante do clorofórmio. Mas é a carne que interessa. Passada a frustração de comer carne sem gosto de carne ─ e muitas vezes não acreditando nisso ─, os padres transitavam da fantasia à realidade e nada encontravam.
─ Exceto os eternos coroinhas que os ajudavam durante e depois da missa. Ora, Tsé, canibalismo puro! E note que o mesmo verbo é usado para os dois casos. ─ Finalizou Dr. Quin, Jr.
─ Quase isso! Mas a realidade era, como sempre foi, muito mais forte do que a fantasia, salvo entre os pervertidos. E bota pervertidos nisso. Nada mais natural, portanto, que o afeto e o sexo aflorassem entre ambos, discípulos e mestres.
─ Muito interessante! Uma nova versão para nossos instintos pre-históricos! ─ Exclamou Quinzinho.
─ Pois bem! ─ Continuei ─ A transubstanciação é, justamente, o elo perdido entre as duas primeiras hipóteses e, na verdade, as três se fundem numa só teoria. Junte-se a isso, é claro, uma grande dose de patologia.
Aliás, sempre achei sexo e religião como duas faces da mesma moeda, especialmente nas religiões monoteístas, salvo talvez o judaísmo.
Desejo e medo! Desejo pela carne! Medo da morte!
Contudo, voltemos, ao nosso assunto, isto é, ao interrogatório do Santo Ofício de que fui vítima quando ainda era estudante de Doutorado na Gregoriana.
Não, não! Seria demais para o leitor. Isso fica para outra vez.


















Reverendo! Já terminou a reforma para receber as crianças?
Não são crianças. Na Quarta Encíclica de Bel-O-Kan, aboliu-se os coroinhas e, agora, são as coroinhas.
_parecem playmates — disse ao Reverendo.
_não, são coroinhas. Tá na cara que são coroinhas — retrucou Tsé-Tsé
_sei…
Soube que até Scarlett foi coroinha de Tsé-Tsé. Assim fica muito fácil a religião.
Vôte! São Tarcísio que me perdoe, mas tá com cara e jeito de quem gostou da visita.
Só a sapiência do Reverendo levar a luz a mais um canto escuro dos porões da ICR.
As Coroinhas de Bel-O-Kan…. Um bom nome para uma girl-band daquelas bem rebolativas.
Já estou até imaginando um clip irreverente, igual àquele do AC/DC, com as meninas no lugar da macharia.
O Reverendo entende do riscado.
De fato, reverendo, não é que tuas hipóteses teológicas explicativas para o pedofilismo dos padres romanos fazem muitissimo sentido.
Ducaldo, que comentário infame! Se era comigo, não se preocupe que eu não corri nem corro nenhum risco: já passei da idade. Até mesmo para go-go girl do AC/DC.
Na verdade, Tsé-Tsé criou uma banda de iê-iê-iê com as Coroinhas de Bel-O-Kan. Teve problemas com a censura da ditadura, mas foi um sucesso. No final da década de 70, veio o baque. Hugh Hefner chamou todas as coroinhas para a playboy. Com a debandada, Tsé-Tsé ficou sem coroinha. Até hoje, Tsé-Tsé não fala sobre o assunto. Sofreu muito, dizem as palafitas de Bel-O-Kan.
Há boatos de que o Reverendo tentou negociar com o AC / DC a formação de um coral de coroinhas. Mas são meros boatos. Dizem que os irmãos Angus e Malcolm Young vetaram o projeto de Tsé-Tsé.
O Reverendo queria as coroinhas cantando “It’s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll)”. Ia ser um espetáculo e tanto. Com o fracasso nas negociações, Tsé-Tsé entrou, novamente, em depressão.
Atualmente, o Reverendo utiliza guaiamuns como coroinhas nas missas. O efeito é estranho, embora a conotação mística seja evidente. São guaiamuns transcendentais do Capibaribe. Não cantam, mas são muito bons na percussão.
Calma, Cynthia. Não era com você.
E a formação da banda é nos moldes descritos por Artur – nada de meninhas na puberdade.
Tá mais pra miss-band da playboy.
Guaiamuns percussionistas? É mangue-beat.
É uma piadinha velha, batida, mas vale pela crueldade e pela minha falta de assunto pra comentar tão profundas teses:
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Dizem que um padre viajava, e o carro capotou, matando o pedófilo. Ao abrir os olhos e se deparar com um barbudo de chaves na mão, ele perguntou o que havia acontecido.
- Você morreu, servo de Deus – respondeu o barbudo.
E o padre, ainda tonto:
- E onde eu estou, agora?
-Você está no céu.
Ao ouvir isso, o padre levantou as sobrancelhas e esfregou as mãos, com carinha de tarado:
-Posso ver o Menino Jesus?
Perdoem o mau gosto, mas não resisti.
Não tem de quê, Gomes.
SS Bento e a cúpula da ICR é que fornecem material para piadas infames, ao protegerem os pedófilos.