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Hell

8 comentários

Livro assaz curioso: Hell, escrito por Lolita Pille (belo nome). A autora é uma jovem escritora (muito gatinha, por sinal – sei, sei, não é uma observação decisiva, mas minhas determinações hormonais são construções sociais objetivas e independentes de minha vontade).

Ela tem uns 27 anos de idade, algo assim. Hell foi seu primeiro romance, escrito quando tinha apenas 18 anos. Foi um sucesso retumbante, a ponto de ser levado ao cinema, em 2006, por Bruno Chiche, com Sara Forestier no papel principal (por sinal, também é uma gati… bem… er… deixa pra lá).

Hell parece uma pós-adolescente paulistana podre de rica. Aos 18 anos, Hell já viu tudo e, provavelmente, experimentou todas as sacanagens deliciosas desse mundo velho e enfadado. Seu cotidiano? Ora, fazer xópi na Avenida Montaigne, gastando no mínimo 3000 € a cada compra. Sua vida é singular, uma espécie de desgarramento do dia-a-dia comezinho dos mortais de classe média. Até que encontra Andrea, seu duplo masculino. A relação é tórrida entre essas duas almas que desprezam a sociedade do trabalho e os seres humanos em geral. Mas a relação entre os dois não é tão simples assim… afinal, nada é simples.

A vida de Hell, essa juventude dourada dos bairros da alta burguesia parisiense, é fútil, superficial e sem sentido. Por incrível que pareça, não parece feliz (com muita grana, sinceramente, sou feliz até no Japão – sim, no Japão), exceto quando cheira coca. No fundo, passa a mensagem de que ser podre de rico não faz ninguém feliz, o que, convenhamos, é um absurdo.

Há muita angústia e desespero na jovem Hell. Ela é detestável. Hell gera ódio e uma vontade de amá-la de uma forma compulsiva, agressiva e subserviente. Sempre sonhei com uma relação amorosa violenta, na qual a paixão é sublimada na porrada e nos insultos. Dor, muita dor, mas suficiente a uma redenção futura. Mas, antes de chegar ao futuro, a violência voltaria, novamente, para lembrar que a salvação é impossível — salvação é coisa de classe média carola e bundona.

O romance é violento. A linguagem é crua e escrachada. O estilo é rápido — com a mente vazia, torna-se envolvente. A personagem é arrogante, cínica e provocadora. Sim, eu a mataria a golpes de canivete suíço, dizendo-lhe, ao mesmo tempo, “eu te amo, eu te amo”. Diria no seu ouvido entupido de sangue que coca, dor de cotovelo, tédio e todas essas estórias de “pétasses” são universais – é só mudar a coca para crak ou um fumo barato, mantendo as dores da paixão, o tédio e a putaria, e pronto, repetimos as babaquices juvenis de outras classe sociais.

Eu a mataria e morreria de tédio. Le spleen… “um cartão de crédito no lugar do cérebro, um aspirador no lugar do nariz, e nada no lugar do coração” — pois é…

Além do mais, os ricos, sim, os verdadeiros ricos, que existem no mundo real, ah, os tais financiam obras de caridade, fundam os movimentos de ajuda voluntária, desenvolvem meios técnicos para suprir as necessidades dos mais pobres, compram patentes e as oferecem ao público, etc tal. Ricos simpáticos — isso não se vende, não. Convenhamos, os verdadeiros ricos são felizes, filantropos e votam em Serra.

O romance começa exatamente assim:

Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; uma sacana do 16eme, o melhor bairro de Paris, e me visto melhor do que a sua mulher, ou sua mãe. Se você trabalha num lugar “metido”, ou é vendedora numa buique de luxo, com toda a certeza gostaria que eu morrese; eu, e todas as minhas iguais. Mas a gente não mata a galinha dos ovos de ouro. De forma que a minha espécie insolente irá perdurar e proliferar…

Sou o símbolo manifesto da persistência do esquema marxista, a encarnação dos privilégios, os eflúvios inebriantes do Capitalismo.

(…)

Sou o mais puro produto da geração Think Pink; meu credo: seja bela e consumista.

Mergulhada na loucura policefálica das tentações ostentatórias, sou a musa da deusa Aparência, em cujo altar imolo alegremente todo mês o equivalente ao que você recebe como salário.

Sou francesa e parisiense e estou me lixando para o resto; pertenço a uma única comunidade, a mui cosmopolita e controversa tribo Gucci Prada — a grife é meu distintivo.

Hell, Paris – 75016 – de Lolita Pille

Sementeiras
  1. Acho que não posso mais viver sem essa moça.

  2. Somos uma legião!

  3. Mas eu falei primeiro.

  4. Mas quem está por trás disso tudo sou eu, que mostrei o romance a Artur. Eu até ia fazer um post a respeito, mas aí ele roubou a ideia – e quase o livro também… rs…

  5. Mas sou o centurião da legião.

    Que nada, Martinha! Vc me mostrou o romance, mas não contava com minha paixão imediata por Hell. Num gesto típico de gênero, tomou o livro de minhas mãos e guardou num lugar obscuro de tua estante.

  6. Mas então quer dizer que somos os três na disputa?

  7. “O estilo é rápido — com a mente vazia, torna-se envolvente.”

    Resumindo: Aexistência do livro não faz a menor diferença. O negócio é babar em cima da gatinha…

    Pelo que li aí, o romance poderia se chamar ” A apanhadora dos campos de pentelhos”.

  8. A Hell é apaixonante. É amor a primeira vista. Não só a Hell, o Andrea também.
    É como se você se apaixonasse pela primeira vez na vida por um drogado e quisesse salvá-lo. Se você o deixar, você sabe que ele morrerá e que a culpa será sua.
    Pra mim, Hell e Andrea são assim.

    O mais interessante é que de certa forma, você (mulher) deseja ser a Hell… Fazer o que quiser fazer, sem ter que pensar nos outros, e no que os outros vão pensar e falar, e daí se eu quiser transar com 2, 10, 100.. Se um cara transa com 100 é pegador.
    E que na verdade, todos mulheres precisam ser e ter um pouquinho de Hell dentro delas, chega de nascer e morrer submissa a uma mentira social!

    Hell e Andrea, me conquistaram!
    Também tem Bubble Gum – Lolita Pille.

    Ducaldo, eu pouco vi o lado sexual do filme. Sim, tem sexo no filme. Mas, não consegui enxergar isso no filme, e muito menos isso em Hell.
    Só vi desespero por limites e amor, mesmo que esse seja um amor bandido. Vi Hell como se fosse um balão… Ela precisa de alguém para se manter ali, senão ela some.. voa longe..

    Ah, Hell é poética demais para declarar.. e eu já falei demais..
    E falei tarde… hauhauhuahuaha :)

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