Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Hannah & Heidegger

9 comentários

Ana, a filósofa, que detesta toda metafísica e gosta de marteladas na filosofia, deu-me de presente a cópia da correspondência entre Heidegger e Hanna Arendt.

_Perdoar, sim; esquecer, jamais — sussurrou H. no ouvido de H., causando uma cócega danada.

Como de praxe, tentei defender o gênero masculino. Fiz isso, uma vez, quando Cynthia apareceu cheia de invectivas contra Marx, por causa da biografia de sua mulher, Jenny von Westphalen (Jenny Marx ou a Mulher do Diabo — Françoise Giroud). Cynthia, na ocasião, não teve pena alguma dos furúnculos do Mouro. Já Ana… Bem, imaginem Heidegger, como professor, conhecendo uma aluna absolutamente genial e fofa de 18 aninhos. É de lascar o coração ou de endoidar o cidadão. Mas não fui convincente o bastante. O coração de Ana é de aço e não perdoa velho safado, além do mais, velho, safado e nazista.

Vou lendo e publicando algumas passagens. Por enquanto, publico uma das passagens favoritas de Ana, a filósofa do coração de aço (são seus, os “PS”):

Cara Senhorita Arendt,

Preciso encontrar-me ainda hoje com a senhorita, para falar ao seu coração.

Tudo entre nós deve ser simples, límpido e puro. Só assim seremos dignos da sorte de termos nos encontrado. O fato de a senhorita ter sido minha aluna e eu seu professor foi apenas a ocasião propícia para o que nos aconteceu.

Nunca terei o direito de a querer para mim, mas a senhorita não sairá mais da minha vida, e por isso minha vida terá mais vivacidade.

10 de fevereiro de 1925.

Cara Hannah! A insinuação de que não cumprimento os judeus é uma difamação tão baixa que a anotarei aliás para mim futuramente. Como esclarecimento de como me comporto em relação aos judeus, cito apenas os seguintes fatos: quem me enviou há algumas semanas um trabalho extenso para uma leitura urgente é um judeu. Os dois bolsistas da sociedade beneficente que foram alocados por mim são judeus. Quem conseguiu através de mim uma bolsa para Roma é um judeu. Quem quiser chamar isso de ‘anti-semitismo furioso’ pode fazê-lo. De resto, sou tão anti-semita hoje em relação a questões universitárias quanto há dez anos. Saudações cordiais. M.”

Trecho de carta de 1932.

P.S: só faltou ele colocar que teve duas amantes judias.

Muitos anos depois…

“ Hannah, mantenha-se tão próxima de Elfride quanto da vez em que você esteve aqui. Quanto mais belo se tornar o que é nosso, tanto mais íntegro estará o que é dela e meu. Preciso do amor dela. Deste amor que tudo suportou sossegado através dos anos e permaneceu preparado para crescer. Preciso de seu amor que, guardado enigmaticamente em seu grão primevo, trouxe o que é seu a partir de sua profundeza. Por isso, também gostaria de costurar uma amizade tranqüila com o seu marido, que se tornou um companheiro para você nesses anos de dor”.

Correspondências 1925/1975

E, assim, ele conseguiu unir mulher e amante porque “precisava” do amor das duas…

P.S: não sei por que eu ainda leio relatos biográficos dos autores que admiro. Quase sempre me decepciono, rs.

InscritosEmPedra
  1. Arture,

    Estou com Ana e não abro. Embora genial do ponto de vista filosófico, Heidegger era um imbecil moral e afetivo. Quanto a Hannah Arendt, “mulheres inteligentes, escolhas insensatas”. Fico profundamente surpresa com a resposta dela a Jaspers que, numa carta, queixa-se de que Heidegger nunca ofereceu uma explicação ou pedido de desculpas por sua filiação ao nazismo: “ele tem suas razões”. Claro que tinha. As piores possíveis…

    Menino, você não consegue encontrar umas figuras menos “malas” para defender o gênero masculino, não?

  2. É isso aí, Cynthia! E aí Artur, e agora, como é que fica?

  3. Lendo as cartas, fiquei impressionado com a posição de Arendt. Seria como se, afetivamente, ela fosse absolutamente inocente ou… parva.

    Mas, Cynthia, é difícil não encontrar “mala” nessas figuras que estão ou saíram do século XIX.

    Talvez, os anarquistas, tipo Stirner ou Bakunin. Quem sabe, Engels, que se juntou com a primeira operária a mexer numa tear automático, para horror de Jenny, segundo dizem.

    Mais recentemente, Bourdieu? Mas o pessoal fala horrores da vida afetiva do autor da “dominação masculina”. Habermas é assexuado. Giddens? Não sei. O cara é inglês, e isso diz tudo. Derrida? Epistemologicamente, o pós-estruturalismo é misógino.

  4. Engels, Engels. Tinha J. S. Mill também. Nos dias de hoje tem …

    tem …

    O Reverendo Tsé Tsé?

    É… tá difícil defender a classe…

  5. Tsé-Tsé?! Os boatos morrem a ferro e fogo em Bel-O-Kan. Talvez, muito pior seria se pior fosse.

  6. Ei que história é essa que eu tenho um coração de aço? kkkk
    A brilhante defesa que Artur fez de Heidegger foi: “Ele era um gênio da sedução” ¬¬’
    Ele foi um canalha e não só com ela, mas também com Husserl, Jaspers e outros “menos famosos”.
    Se ele tivesse sido só um velho safado que manteve um caso com uma aluna de 18 anos eu perdoaria, mas, ele era nazista e isso é imperdoável para não dizer vergonhoso…

  7. E quanto a Bourdieu acho que ele era PERFEITO. O resto é intriga da oposição. haha

  8. Pelo que soube, Heidegger deixou o partido nazista depois que começou a perseguição aos judeus. Mas contam as más línguas, que ele só saiu mesmo para continuar a gréia embaixo dos lençóis com Hannah. O homem gostava mais de um rabo de saia do que de Hitler. Há de se reconhecer que entre a gréia e o nazismo, ele fez a melhor escolha.

    Dimas Lins

  9. Dimas, ele nunca abandonou o partido. Inclusive ele escreveu textos na época elogiando o nacional socialismo de Hitler. Muitos anos depois da guerra ele reeditou os mesmos textos sem nenhuma modificação segundo ele “por uma questão de hermenêutica”. Vale lembrar que Martin Heidegger foi o reitor responsável pela expulsão de alunos e professores judeus das universidades alemãs. Uma vergonha para a história da filosofia.

Deixe um comentário