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Comida rara e cerveja
O alemão olhava sua cerveja. Estava com a cara vermelha de tanto beber. Bateu com sua caneca na mesa e esbravejou:
_Já comi tudo o que podia ser comido!
E alisou sua enorme pança, olhando todo amostrado para o biólogo.
_Já comi urubu, timbu e morcego de Intermares.
_E esses troços tinham gosto de quê?
O biólogo estava alto. Beber com o alemão não era fácil. Além do mais, embebedava-se rápido. E duvidava um pouco das histórias do alemão.
_O urubu tem gosto de faisão podre. O timbu, de molusco de carniça…
_Não é o contrário, não?! Nunca ouvi falar de molusco de carniça.
_Biólogo de merda.
_Alemão mentiroso.
_O morcego de Intermares parece com porquinho-da-índia, só que doce.
_Tá com a porra!
_Pois comi o papagaio norturno da Nova Zelândia, um lêmure raro de Madagascar e panda gigante. A bisteca de panda é uma coisa!
_Sei… E mamute? E preguiça gigante?
_Sim — depois de descongelar, é claro. Como você adivinhou?
_Não adivinhei. Deduzi.
_Tudo bem… agora, melhor do que mamute é mastodonte — carne boa. Comi lemingues, tigre da Tasmânia, tartaruga gigante, rinoceronte de Sumatra.
_Lemingues suicidas?
_São os melhores. É só esperar embaixo de uma falésia. Eles caem, praticamente, direto no prato.
_Lemingue suicida é lenda.
_Biólogo de Discovery.
_Alemão mitômano.
O biólogo já enjoava de tanta comida. Mas perguntou:
_E besouro?
_Comi vários, mas você me pegou. Não comi todos. Se comesse sete espécies por dia, levaria mais de vinte anos para comer um representante de cada tipo de besouro.
_É muito besouro.
_Oh, si.
_Dizem que o besouro é a imagem e a semelhança de Deus.
_É papo. O besouro é imagem e semelhança de Tammuzteca, um deus asteca.
_Ele não é uma vespa?
_Não.
O alemão tomou um gole de sua cerveja e limpou seu bigode.
_Cerveja alemã. É uma cerveja boa. E é antiga.
_Mas a mais antiga é a egípcia. Há cinco mil anos, os egípcios já faziam cerveja.
_É mesmo?
_Pois é… Só que não tinham lúpulo e, assim, aromatizavam a cerveja com cardamomo e coentro. Ficava encorpada, saborosa e refrescante. Só começavam a carregar as pedras para a construção de alguma pirâmide, depois de uma cervejinha. Tradição milenar.
_Tem lógica.
O alemão não estava gostando da direção da conversa. Pensou em falar sobre colegiais peitudas. Não tinha disso na Paraíba. Mas resolveu encarar a provocação do biólogo.
_Mas fomos nós que inventamos a lata de cerveja.
_Que nada, foram também os egípcios.
_A lata é uma invenção alemã e relativamente moderna.
_Pois os egípcios faziam lata, usando um amálgama de cobre e latão, muitas vezes com um toque de prata. Com isso, a cerveja aguentava o calor. Pense, alemão, onde os antigos egípcios guardariam sua cerveja?
O alemão ficou calado. Aparentemente, não quis mais falar, pelo menos sobre cerveja. Continuou bebendo, em silêncio. O biólogo resolveu quebrar o gelo.
_Você torce pelo Bayern de Munique?
_Não, torço pelo Schalke 04. O clube mais popular da Alemanha.
_Não é o Bayern?
_Não.
E retomaram a conversa.
















